Por José de Alencar (1870)
— Eu vi os dois pés de Laura; mas de Amélia, só vi um; é verdade que esse valia por três. Mas... Não resta dúvida. A natureza tem destes caprichos. A maravilha a par do monstro, o mimo em face da deformidade! É o princípio do contraste, que rege o mundo. Eu vi o direito, o aleijão. O esquerdo ficou oculto como a pérola e o diamante.
Compenetrado dessa idéia, de que o pezinho adorado pertencia a Amélia, a quem a natureza em compensação aleijara o outro, Horácio admitiu a possibilidade de que sua paixão pela moça revivesse, embora menos ardente, ou mais positiva.
Ter aquele pezinho em suas mãos, senti-lo estremecer e palpitar de emoção, cobri-lo de beijos, acariciar a rósea cútis diáfana tecida de veias azuis, brincar-lhe com as unhas crespas, como conchinhas de nácar, cingir ao seio esse gnomo gentil, titilante de amor e volúpia!...
Não podia haver para o leão maior delícia neste mundo. Ele daria por ela todo o quinhão de prazer que porventura lhe estava reservado para o resto da existência.
Foi engolfado nestes devaneios que Horácio apeou-se à Rua Direita de um tílburi, que tomara no Largo do Machado.
Seguindo para a Rua do Ouvidor, a passo lento e descuidado, o leão aspirava o ar da cidade, como o ocioso que não sabe em que há de consumir o dia e fareja uma aventura qualquer.
De repente avistou coisa que o pôs alerta. Um carro que subia a Rua do Ouvidor passou por ele; era o cupê do Sales. O rosto encantador de Amélia apareceu-lhe a princípio de relance na penumbra que azulava o acolchoado de damasco, e depois em plena luz moldurado pelo quadro do postigo.
Acompanhando com o olhar a carruagem, Horácio a viu rodar por algum tempo vagarosamente por causa de embaraço no transito e parar próximo à esquina da Rua dos Ourives. O lacaio, com a mão na aldraba, esperava naturalmente ordem para abrir.
Horácio apressou o passo. Por duas vezes avistara a fronte de Amélia coroada com um chapeuzinho de palha da Itália, assomando no postigo, a fim de percorrer a rua com o olhar. A idéia de que a moça lhe desejava falar passou pela mente do leão, que a repeliu, sem contudo considerá-la impossível.
Em todo caso ele acreditou que mais ou menos tinha parte naquela parada do carro, e não se enganava.
— Para que mandaste parar? perguntou D. Leonor.
— Quero comprar luvas no Masset, respondeu a filha.
— Ficou atrás.
— Podemos ir a pé.
Quando o leão chegou a dez braças do carro, a portinhola abriu-se, e Amélia, em companhia de sua mãe, saltou na calçada.
A moça tinha um roupão cor de café, de extrema simplicidade, porém muito elegante; as luvas eram da mesma cor de cinza das fitas do chapéu de palha.
As duas senhoras dirigiram-se para a casa do Masset. Horácio procurou cortejá-las na passagem, mas elas não lhe deram ocasião. Contudo o leão reparou que a moça disfarçadamente voltou o rosto para olhá-lo.
Enquanto as senhoras compravam luvas, Horácio as esperava em frente da casa do Valais, a alguns passos do carro. Pouco tardaram. Amélia vinha só na frente. Felizmente o transito pela calçada diminuiu naquele instante, de modo que o conquistador pôde ver a gosto a moça aproximar-se dele. Levados por impulso irresistível os olhares do mancebo abaixavam-se para os volantes do vestido, e rastejaram no chão que a moça pisava.
Amélia percebeu a insistência do olhar, e um ligeiro sorriso fugiu-lhe dos lábios. Imaginando que na calçada havia lama, colheu com ambas as mãos a frente da saia, e com tanto estouvamento que descobriu os pés até o colo da perna.
Horácio ficou fulminado.
Vira pousados na calçada dois pezinhos mimosos que palpitavam dentro de botinas de merinó cor de cinza. Pareciam um par de rolinhas, arrulhando na praia e beijando-se com o biquinho rosado. Durante o rápido instante, que seus olhos puderam admirar esses primores de graça e gentileza, não escaparam a Horácio as ondulações voluptuosas e os contornos suaves dos dois silfos. Nunca ele observara no talhe elegante da mais formosa mulher requebros tão aveludados, como tinha aquele dorso arqueado e aquela palmilha sutil.
Tamanho foi o pasmo de Horácio, que senhor deu por si quando a moça, passando por ele, entrou na carruagem. Voltou-se então precipitadamente, sem consciência do que ia fazer; mas a parelha já tinha partido a trote largo.
Momentos depois o leão descia a Rua do Ouvidor completamente absorto. Seu lábio distraído ia debulhando, sem o sentir, alguns trechos dos lindos versos do conselheiro José Bonifácio:
"Padres, não me negueis, se estais em calma, "Um coração no pé, na perna um'alma!"
CAPÍTULO XVIII
Laura e Amélia eram primas e amigas de infância; havia entre elas apenas a diferença de dezoito meses.
(continua...)
ALENCAR, José de. A Pata da Gazela. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16673 . Acesso em: 8 jan. 2026.