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#Romances#Literatura Portuguesa

O Conde d'Abranhos

Por Eça de Queirós (1925)

Não descreverei a cena tocante e doce que se passou no quarto da parturiente, porque a ela não assisti. Não quero, como esses biógrafos de antigos reis e estadistas, que descrevem os gestos e as palavras de cenas passadas em outros séculos, introduzir o elemento imaginativo, o romance, neste trabalho histórico. Mas todos nós podemos conceber a emoção desse pai, saído apenas de um triunfo social para vir gozar inesperadamente um triunfo doméstico, no mesmo dia orador consagrado e pai venturoso.

Dizem-me que Alípio Abranhos, acabrunhado de uma felicidade muito forte, se deixou cair numa poltrona com os olhos banhados de lágrimas, o filho nos braços, envolto nas suas faixas brancas, e murmurou:

– Isto é um dia histórico... isto é um dia histórico!

Passou-se então dos dois lados da cama onde D. Virgínia, branca como as rendas da fronha, sorria de um vago sorriso exausto – uma tocante troca de impressões exaltadas. Alípio contava o seu discurso e D. Laura o parto.

– A Câmara ergueu-se como um só homem, e eram bravos, eram berros!

– As primeiras dores foram terríveis, não é verdade, filha? Estava agarrada ao meu braço, que até tenho a certeza que me deixou uma nódoa negra.

– Coitadinha! Mas o melhor foi quando eu desci; os apertos de mão, os abraços...

– Abraços merece ela, que se portou com muita coragem! E a criança, que saiu como por uma porta aberta...

Ao canto do quarto, o novo ser, tenra vergôntea da casa dos Noronhas, indo dos braços da parteira para os braços da ama, chorava baixinho, com um som de boneca a que se aperta o estômago, nas suas primeiras contrariedades humanas.

Nesse mesmo dia, «em atenção à coincidência do seu nascimento e do triunfo do.papá», como disse o padre Augusto, foi decidido que o menino se chamasse Carlos Benvindo.

Durante o período legislativo desse ano, Alípio Abranhos fez ainda dois discursos, um, sobre política colonial, outro, sobre o projecto do Caminho de Ferro de Leste. Este último é sobremodo eloquente: poder-se-ia chamar a Ode ao Caminho de Ferro.

Nunca o utilitário modo de comunicação foi descrito com tal colorido, com tal vigor de imaginação: «Vede-lo – exclama o orador – esse monstro de ferro, soltando das narinas turbilhões de fumo, semelhante ao Leviatã da fábula! (bravo! bravo!) Vede-lo, atravessando como um relâmpago os mais áridos terrenos: e que maravilhoso espectáculo se nos oferece então: ao contrário do cavalo de Atua, cuja pata fazia secar a erva dos prados, por onde passa este novo cavalo de fogo (bravo! bravo!) brotam as searas, cobrem-se as colinas de vinha, (muito bem! muito bem!) penduram-se os rebanhos nas encostas verdejantes dos montes, murmuram os ribeiros nas azinhagas, ondulam as searas (muito bem!) e o jovial lavrador lá vai, satisfeito e alegre, cantando as deliciosas canções do campo, junto à esposa fiel, coroada das mimosas flores dos prados! (Bravo! Bravo! Sensação!).

Encerradas as sessões, Alípio Abranhos, sua esposa e o tenro Benvindo partiram para Campolide, onde iam passar o Verão.

Foram três meses de concentração, de íntima felicidade. Tinham passado ali, havia um ano, a sua lua de mel, e a sombra de cada árvore, cada moita de flores, possuíam para eles o valor de uma recordação deliciosa: a quinta tornara-se-lhes como uma vasta confidente simpática; era com orgulho que lhe levavam o tenro Bibi, rabujando nos braços da ama, como o fruto vivo do amor que ela protegera.

Mas nem por isso Alípio Abranhos ficou inactivo. Trabalhou muito e ali escreveu trechos, imagens, perorações de futuros discursos. Foi ali também que ele tomou, passeando à tarde na bela alameda de loureiros, como costumava, devagar, com as mãos atrás das costas, a resolução importante que devia ter na sua carreira uma influência tão grave.

O ministério Cardoso Torres, ao fim da última sessão parlamentar, estava gasto. Esta expressão a que eu chamaria, se me não contivesse o respeito, a «gíria constitucional», refere-se a um fenómeno venerável e repetido, que eu nunca com-preendi bem, apesar das explicações benévolas que me foram dadas por conservadores, republicanos e cépticos.

Há ministérios que se gastam. E todavia, esses ministérios, como os outros, administram o tesouro com honestidade, fazem o expediente das secretarias com suficiente regularidade, mantêm no país uma ordem benéfica, não oprimem nem a imprensa nem a consciência, são respeitosos para com o Chefe de Estado, acompanham com dignidade, ao Alto de S. João, todos os defuntos ilustres, falam nas Câmaras com honrosa correcção, são na vida privada cidadãos estimáveis, e no entanto – ao fim de alguns meses desta rotina honesta, pacata e higiénica – gastam-se.

Gastam-se porquê? Compreende-se que um ministério que luta com dificuldades, que se coloca ao través da opinião pública, se gaste, como ao través de um frágil estacado que uma corrente hostil incessantemente bate. Compreende-se ainda que um governo criado especialmente para resolver certas questões sociais ou políticas, se torne desnecessário, desde que as tenha resolvido, e fique como o zângão que fecundou a abelha e é daí em diante um inútil.

(continua...)

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