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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

Desci à câmara para beber conhaque, porque o frio era agudo. Cármen, sentada nosofá, no alto da sala, estava ali imóvel, com os olhos vagos, as mãos cruzadas. — Morremos, hem? — perguntou ela. — Tem medo? — disse eu.- Um pouco, de morrer afogada. De uma bala ou de uma fa cada, não me custava. M as aqui, estupidamente, neste antipático elemento, é cruel! Ao menos não morro só! Lá se vai asua linda prima!...

— Porque odeia a pobre condessa? — disse-lhe eu, sorrindo. — Eu! De modo algum. Acho-a piegas, detesto aqueles ares sentimentais, desonra aPenínsula. Aí está.

— Não é isso: é porque supõe que Captain Rytmel se interessa de mais por ela.- E que me importa a mim esse cavalheiro? E deu uma curta risada. No entanto, o ar abafado da sala, o movimento do navio pertur bava-me. Subi à tolda. A condessa e Rytmel não passeavam. Ti nham-se sentado, segundo depreendi, debaixo da tenda. Eu, de pé, através da lona podia escutar, apesar do ruído do vento.

Uma curiosidade indomável, a necessidade de compreender a situação de espírito dacondessa, a certeza de que estávamos na aflição de um perigo — e as acções humanas nesses momentos não se podem sujeitar ao critério da vida trivial -, tudo me levou a ir escutar, apesar das repugnâncias do meu carácter. Acerquei-me, fiz ouvido de espião.Rytmel dizia:

— E custa-lhe morrer?- Muito e nada — respondia a condessa. — Muito porque mor re comigo o primeiro interesse que tenho na vida, que é a sua ami zade; nada, porque, francamente, sou eu feliz?

— Se a minha amizade é para si um interesse profundo...A condessa calou-se.

— Oh! compreendo-a bem — disse Rytmel. — Sabe porque não é feliz, apesar da minhaamizade? E porque não é a minha amiza de o que o seu coração precisa. Oh! Deixe-me falar. E o amor profundo, inalterável, omnipotente, que esteja em todos os momento s da sua vida e em todas as ideias do seu espírito; que viva do prazer e viva do sacrifício; que seja a últimarazão da vida, a consolação, a esperança, o ideal absoluto; que pelo que há de mais ardente prenda os seus olhos, e pelo que há de mais elevado prenda a sua alma...- Cale-se, cale-se — dizia a condessa. — É uma loucura fa lar assim... Vamos passear, vamos ver o mar.

O vento agora era terrível. O mar estava como água de sabão a perder de vista. Onavio oscilava perdidamente e sem rumo. No entanto, na máquina trabalhava-se sempre.

Rytmel continuava falando à condessa. — Cale-se, cale-se — dizia ela baixo e como vencida.Não; devo dizer-lho: esta palavra «amizade» é falsa. Daqui a duas horas talvez, estamos perdidos. Ao pé da morte a sinceridade é uma justiça. Digo-lhe. Amo-a. Não seerga. O vento levará consigo esta confissão. Amo-a. Se estamos culpados depois destas palavras, o mar é um bom túmulo e o mar lava tudo. Amo-a...

— Não diga isso. É um engano; é apenas simpatia. Demais, o amor a que nos levaria?Ou ao desprezo ou à tortura...

Eu ouvia mal. Eles falavam baixo. A tormenta chegava. O na vio gemialamentavelmente. As cordagens, que o vento quebrava de repente, assobiavam como cobras. Os marinheiros somam. Sentiam-se a voz do comando, os martelos, os trabalhos na máquina. Uma vaga entrou, alagou o convés.De repente senti um movimento dentro da tenda: a condessa ergueuse; a sua voz era alta e vibrante:- Captain Rytmel, pensa em sua honra que vamos morrer?

— Penso, condessa. — Pois bem, quero dizer-lho então: amo-o!E depois de um momento:

— Oh! Amo-o — repetiu ela com uma explosão de paixão. — Já que tenho a certeza deque morro pura, quero morrer sincera. Ado ro-o. Neste momento um ruído estranho tomou o navio. Percebi uma forte dominação de oscilação, uma resistência contra a vaga. Osmovimentos da embarcação já não pareciam inertes. Via-se que ela tinha retomado a sua vitalidade... Então senti a hélice... a hélice! O navio movia-se. Via-se a onda esmiga lhadapela proa. Caminhávamos! Eu saltei para a abertura que desce à máquina.

— Que é? — perguntei a um oficial que subia. — Um milagre de Pernester!

Todos tinham corrido. Era uma ansiedade. O capitão trepou rapidamente pela escada de ferro polida que do interior da máquina sobe ao pavimento do navio.Estava radiante.

— Imaginem que Pernester... — Sim, sim — interrompi -, mas então?- Vamos a caminho. Agora sopra, tormenta, sopra! Amanhã estamos em Malta.

— Bravo, Pernester! Bravo! — gritavam todos.O grande homem subiu a escada da máquina, ofegante, impas sível, vermelho, grave, ainda com a gravata branca do jantar. Es ponjou a calva, e disse num tom suave:

— Noy, I should enjoy a nice glass of beer...

VII



(continua...)

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