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#Romances#Literatura Portuguesa

A Cidade e as Serras

Por Eça de Queirós (1901)

E nunca o meu Príncipe (que eu contemplava esticando os suspensórios) me pareceu tão corcovado, tão minguado, como gasto pôr uma lima que desde muito andasse fundamente limando. Assim viera findar, desfeita em Civilização, naquele super-requintado magricela sem músculo e sem energia, a raça fortíssima dos Jacintos! Esses guedelhudos Jacintões, que nas suas altas terras de Tormes, de volta de bater o mouro no Salado ou o castelhano em Valverde, nem mesmo despiam as fuscas armaduras para lavar as suas cãs e amarrar a vide ao olmo, edificando o Reino com a lança e com a enxada, ambas tão rudes e rijas! E agora ali estava aquele último Jacinto, um Jacintículo, com a macia pele embebida em aromas, a curta alma enrodilhada em Filosofias, travado e suspirando baixinho na miúda indecisão de viver.

-Ó Zé Fernandes, quem é essa lavadeirona tão rechonchuda?

Estendi o pescoço para a fotografia que ele erguera de entre a minha galeria, no seu honroso caixilho de pelúcia escarlate:

-Mais respeito, Sr. D. Jacinto... Um pouco mais de respeito, cavalheiro!... É minha prima Joaninha, de Sandofim, da Casa da Flor da Malva.

-Flor da Malva – murmurou o meu Príncipe. – É a Casa do Condestável, de Nun’Álvares.

-Flor da Rosa, homem! A Casa do Condestável era na Flor da Rosa, no Alentejo... Essa tua ignorância trapalhona das coisas de Portugal!

O meu Príncipe deixou escorregar molemente a fotografia da minha prima de entre os dedos moles – que levou à face, no seu gesto horrendo de palpar através da face a caveira. Depois, de repente, com um soberbo esforço, em que se endireitou e cresceu:

-Bem! Alea jacta est! Partamos pois para as serras!...E agora nem reflexão, nem descanso!... Á obra! E a caminho!

Atirou a mão ao fecho dourado da porta como se fosse o negro loquete que abre os Destinos – e no corredor gritou pelo Grilo, com uma larga e açodada voz que eu nunca lhe conhecera, e me lembrou a dum Chefe ordenando, na alvorada, que se levante o Acampamento, e que a Hoste marche, com pendões e bagagens...

Logo nessa manhã (com uma atividade em que eu reconheci a pressa enjoada de quem bebe óleo de rícino) escreveu ao Silvério mandando caiar, assoalhar, envidraçar o casarão. E depois do almoço apareceu na Biblioteca, chamado violentamente pelo telefone, para combinar a remessa de mobílias e confortos, o diretor da Companhia Universal de Transportes.

Era um homem que parecia o cartaz da sua Companhia, apertado num jaquetão de xadrezinho escuro, com polainas de jornada sobre botas brancas, uma multicor resumindo as suas condecorações exóticas de Madagáscar, de Nicarágua, da Pérsia, outras ainda, que provavam a universalidade dos seus serviços. Apenas Jacinto mencionou “Tormes, no Douro...” – ele logo, através dum sorriso superior, estendeu o braço, detendo outros esclarecimentos, na sua intimidade minuciosa com essas regiões.

-Tormes... Perfeitamente! Perfeitamente!

Sobre o joelho, na carteira, escrevinhou uma fugidia nota – enquanto eu considerava, assombrado, a vastidão do seu saber Corográfico, assim familiar com os recantos duma serra de Portugal e com todos os seus velhos solares. Já ele atirara a carteira para o bolso... E “nós, seus caros senhores, não tínhamos senão a encaixotar as roupas, as mobílias, as preciosidades! Ele mandaria as suas carroças buscar os caixotes, a que poria, em grossa letra, com grossa tinta, o endereço..."

-Tormes, perfeitamente! Linha Norte-Espanha-Medina-Salamanca... Perfeitamente! Tormes... Muito pitoresco! E antigo, histórico! Perfeitamente, perfeitamente!

Desengonçou a cabeça numa vênia profundíssima – e saiu da Biblioteca, com passos que devoravam léguas, anunciavam a presteza dos seus Transportes.

-Vê tu – murmurou Jacinto muito sério. – Que prontidão, que facilidade!... em Portugal era uma tragédia. Não há senão Paris!

Começou então no 202 o colossal encaixotamento de todos os confortos necessários ao meu Príncipe para um mês de serra áspera – camas de pena, banheiras de níquel, lâmpadas Carcel, divãs profundos, cortinas para vedar as gretas rudes, tapetes para amaciar os soalhos broncos. Os sótãos, onde se arrecadavam os pesados trastes do avô Galião, foram esvaziados – porque o casarão medieval de 1410 comportava os tremós românticos de 1830. De todos os armazéns de Paris chegavam cada manhã fardos, caixas, temerosos embrulhos que os embaladores desfaziam, atulhando os corredores de montes de palha e de papel pardo, onde os nossos passos açodados se enrodilhavam. O cozinheiro, esbaforido, organizava a remessa de fornalhas, geleiras, bocais de trufas, latas de conservas, bojudas garrafas de águas minerais. Jacinto, lembrando as trovoadas da serra, comprou um imenso pára-raios. Desde o amanhecer, nos pátios, no jardim, se martelava, se pregava, com vasto fragor, como na construção duma cidade. E o desfilar das bagagens, através do portão, lembrava uma página de Heródoto contando a marcha dos Persas.

Das janelas, Jacinto, com o braço estendido, saboreava aquela atividade e aquela disciplina:

(continua...)

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