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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Perdição

Por Camilo Castelo Branco (1862)

— Morreu logo, e depois quiseram os criados, à voz de seu pai, prender o senhor Simão; mas ele com outra pistola...

— E fugiu? — atalhou Teresa, com veemente alegria.

— Afinal foi ele que se deu à prisão. — Está preso?!

E, sufocada pelos soluços, com o rosto no lenço, não ouvia as palavras confortadoras de Constança.

Serenado algum tanto o violento acesso de gemidos e choro, Teresa sugeriu à criada o louco plano de a deixar fugir da primeira estalagem onde pousassem para ela ir a Viseu dar o último adeus a Simão.

A criada a custo a despersuadiu do intento, pintando-lhe os novos perigos que ia acumular à desgraça do seu amante, e animando-a com a esperança de livrar-se Simão do crime, com a influência do pai, apesar da perseguição do fidalgo.

Calaram lentamente estas razões no espírito de Teresa. Chorosa, ansiada e a reveses desfalecida, foi Teresa vencendo a distância que a separava de Monchique, onde chegou ao quinto dia de jornada.

A prelada já estava sabedora dos sucessos, por emissários que se adiantaram ao moroso caminhar da liteira.

Foi Teresa recebida com brandura por sua tia, posto que as recomendações de Tadeu de Albuquerque eram clausura rigorosa e absoluta privação de meios de escrever a quem quer que fosse.

Ouviu a prelada da boca de sua sobrinha a fiel história dos acontecimentos, e viu uma a uma as cartas de Simão Botelho. Choraram abraçadas; mas a prelada, enxugadas as lágrimas de mulher ao fogo da austeridade religiosa, falou e aconselhou como freira, e freira que ciliciava o corpo com as rosetas, e o coração com as privações tormentosas de quarenta anos.

Teresa carecia de forças para a rebelião. Deixou a sua tia a santa vaidade de exorcismar o demônio das paixões, e deu um sorriso ao anjo da morte, que, de permeio ao seu amor e à esperança, lhe interpunha a asa negra que tão de luz refulgente rebrilha às vezes em corações infelizes. Quis Teresa escrever.

— A quem, minha filha? — perguntou a prelada.

Teresa não respondeu.

— Escrever-lhe para quê? — tornou a religiosa. — Cuidas tu, menina, que as tuas cartas lhe chegam à mão? Que vais tu fazer senão redobrar a ira de teu pai contra ti e contra o infeliz preso?! Se o amas, como creio, apesar de tudo, cuida em salvá-lo. Se não ouves a minha razão, finge-te esquecida. Se podes violentar a tua dor, dissimula, faze muito porque o teu pai chegue a noticia de que lhe serás dócil em tudo, se ele tiver piedade do teu pobre amigo.

Não recalcitrou Teresa. Deu outro sorriso ao anjo da morte, e pediu-lhe que a envolvesse a ela, e ao seu amor, e à sua esperança, de todo, na negrura de suas asas.

De mês a mês recebia a abadessa de Monchique uma carta de seu primo. Eram estas cartas um respiradouro de vingança. Em todas dizia o velho que o assassino iria ao patíbulo irremediavelmente. A sobrinha não via as cartas; mas reparava nas lágrimas da compassiva freira.

A débil compleição de Teresa deprecia aceleradamente. A ciência condenou-a a morte breve. Disto foi informado Tadeu de Albuquerque, e respondeu: — "Que a não desejava morta; mas, se Deus a levasse, morreria mais tranqüilo, e com a sua honra sem mancha", Era assim imaculada a honra do fidalgo de Viseu!... A HONRA, que dizem proceder em linha reta da virtude de Sócrates, da virtude de Jesus Cristo, da virtude de milhões de mártires, que se deram às garras das feras, quando predicavam a caridade e o perdão aos homens!

Quantas carícias inventou a simpatia e a piedade, todas, por ministério das religiosas exemplares de Monchique, aporfiaram em refrigerar o ardor que consumia rapidamente a reclusa. Inútil tudo. Teresa reconhecia com lágrimas a compaixão, e, ao mesmo tempo, alegrava-se tirando das carícias a certeza de que os médicos a julgavam incurável,

Alguma freira inadvertida lhe disse um dia que uma sua amiga do convento dos Remédios de Lamengo lhe dissera que Simão tinha sido condenado à morte.

— E eu vivo ainda!

Depois orou, e chorou; mas os costumes da sua vida em paroxismos continuaram inalteráveis.

Perguntou à senhora que lhe dera a noticia se a sua amiga do convento dos Remédios lhe faria a esmola de fazer chegar às mãos de Simão uma carta. Prontificou-se a freira, depois que ouviu o parecer da prelada. Entendeu esta religiosa que O derradeiro colóquio entre dois moribundos não podia danificá-los na vida temporal, nem na vida eterna.

Esta é a carta que leu Simão, quinze dias depois do seu julgamento:

(continua...)

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