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#Romances#Literatura Brasileira

O triste fim de Policarpo Quaresma

Por Lima Barreto (1915)

Um camarada do Doutor Campos, neste instante, entrava pela porteira trazendo o cavalo prometido. Ricardo montou e Quaresma seguiu para a roça ao encontro dos seus dous empregados. Eram agora dous, pois, além do Anastácio, que não era bem um empregado, mas agregado, admitira o Felizardo.

Era manhã de verão, mas as chuvas continuadas dos dias anteriores tinham atenuado a temperatura. Havia uma grande profusão de luz e os ares estavam doces. Quaresma foi caminhando por entre aquele rumor de vida, rumor que vinha do farfalhar do mato e do piar das aves e pássaros. Esvoaçavam tiés-vermelhos, bandos de coleiros; anuns voavam e punham pequenas manchas negras no verdor das árvores. Até as flores, essas tristes flores dos nossos campos, no momento, parece que tinham saído à luz, não somente para a fecundação vegetal mas também para a beleza. Quaresma e seus empregados trabalhavam agora longe, faziam um roçado, e fora para auxiliar esse serviço que contratou o Felizardo. Era este um camarada magro, alto, de longos braços, longas pernas, como um símio. Tinha a face cor de cobre, a barba rala e, sob uma aparência de fraqueza muscular, não havia ninguém mais valente que ele a roçar. Com isto era um tagarela incansável. De manhã, quando chegava, aí pelas seis horas, já sabia todas as intriguinhas do município.

O roçado tinha por fim ganhar terreno ao mato, no lado norte do sítio, que o capão invadira. Obtido ele, o major plantaria obra de meio alqueire ou pouco mais de milho, e nos intervalos batatasinglesas, cultura nova em que depositava grandes esperanças. Já se fizera a derrubada e o aceiro estava aberto; Quaresma, porém, não lhe quisera atear fogo. Evitava assim calcinar o terreno, eliminando dele os princípios voláteis ao fogo. Agora o seu trabalho era separar os paus mais grossos, para aproveitar como lenha; os galhos miúdos e folhas, ele removia para longe, onde então queimaria em coivaras pequenas.

Isso levava tempo, custava tombos ao seu corpo mal habituado aos cipós e tocos; mas prometia dar um rendimento maior ao plantio.

Durante o trabalho, Felizardo ia contando as suas novidades para se distrair. Há quem cante, ele falava e pouco se incomodava que lhe dessem ou não atenção.

- Essa gente anda acesa por aí, disse Felizardo logo que o major chegou.

Certas vezes Quaresma fazia-lhe perguntas, atendia-lhe a conversa, raras não. Anastácio era silencioso e grave. Nada dizia: trabalhava e, de quando em quando, parava, considerava, numa postura hierática de uma pintura mural tebana. O major perguntou ao Felizardo:

- Que é que há, Felizardo?

O camarada descansou o grosso tronco de camará no monte, limpou o suor com os dedos e respondeu com a sua fala branda e chiante:

- Negócio de política... “Seu” Tenente Antonino quase briga ontem com “seu dotô Campo”. - Onde?

- Na estação.

- Por quê?

- Negócio de partido. Pelo que ouvi: “seu” Tenente Antonino é pelo “governadô” e “seu dotô Campo” é pelo “senadô”... Um “sarcero”, patrão!

- E você, por quem é?

Felizardo não respondeu logo. Apanhou a foice e acabou de cortar um galho que enleava o tronco a remover. Anastácio estava de pé e considerou um instante a figura do companheiro palrador.

Respondeu afinal:

- Eu! Sei lá... Urubu pelado não se mete no meio dos coroados. Isso é bom pro “sinhô”.

- Eu sou como você, Felizardo.

- Quem me dera, meu “sinhô”. Inda “trasantonte” ouvi “dizê” que o patrão é amigo do “marechá”. Afastou-se com o pau; e, quando voltou, Quaresma indagou assustado:

- Quem disse?

- Não sei, não “sinhô”. Ouvi a modo de “dizê” lá na venda do espanhol, tanto assim que “doutô Campo tá” inchado que nem sapo com a sua amizade.

- Mas é falso, Felizardo. Eu não sou amigo cousa alguma... Conheci-o... E nunca disse isso aqui a ninguém... Qual amigo!

- “Quá!” fez Felizardo com um riso largo e duro. O patrão “tá” é varrendo a testada.

Apesar de todo o esforço de Quaresma, não houve meio de tirar daquela cabeça infantil a idéia de que ele fosse amigo do Marechal Floriano. “Conheci-o no meu emprego” - dizia o major; Felizardo sorria grosso e por uma vez dizia: “Quá! o patrão é fino que nem cobra.”

Tal teimosia não deixou de impressionar Quaresma. Que queria dizer aquilo? Demais, as palavras de Ricardo, as suas insinuações pela manhã... Ele tinha o trovador em conta de homem leal e amigo fiel, incapaz de lhe estar armando laços para passar maus momentos; os entusiasmos dele, entretanto, junto à vontade de ser bom amigo, podiam iludi-lo e fazê-lo instrumento de algum perverso. Quaresma ficou um instante pensativo, deixando de remover os galhos cortados; em breve, porém, esqueceu-se e a preocupação dissipou-se. À tarde, quando foi jantar, já nem mais se lembrava da conversa e a refeição correu natural, nem muito alegre, nem muito triste, mas sem sombra alguma de cogitações por parte dele.

(continua...)

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