Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Contos#Literatura Brasileira

14 de Julho na roça

Por Raul Pompéia (1881)

Ah! meu amigo, tenho para mim que Deus bem sabia que, ao lado da embarcação que transportou aos nossos séculos o sangue adamita, flutuava um tonel. A arca seria talvez da salvação; o tonel era das consolações.

Nem se me diga o contrário.

Sem isso, o que seria a Providência divina... Para cegos, já bastam os homens...

Noé é benemérito pelo vinho.

O seu nome é abençoado na taverna, essa imundície sagrada, onde se vazam as dores e as garrafas. Aí vive Diógenes com a sua filosofia e a sua pipa; mas a pipa está cheia, e Diógenes parece um Cristo de doçura e suavidade.

Desgraçados, à taverna!

Talvez não me compreendas, meu feliz amigo; a desgraça não te bateu ainda familiarmente aos caixilhos. Espera um pouco...

A embriaguez é o esquecimento, e não há consolação que não seja um simples fato da memória. Afianço-te que o coração não tem parte no negócio.

O coração não se consola; a memória é que se esquece; e, quando quiseres esquecer, bebe!

O princípio não é novo.

Quem se vir um dia nas minhas condições, ensaie-o.

Dizem que os bêbados são desprezíveis... Isto é asneira e blasfêmia. Há duas espécies de bêbados: os bêbados por prazer e os bêbados por desesperação.

Uns são simplesmente tolos, os outros são dignos de respeito.

Confundir tolice e desespero com infâmia, não sei como se qualifique...

Mas isto se explica. Os senhores moralistas olham de cima para baixo. Este é o erro das filosofias. Ninguém define o fundo dos abismos.

Quereis saber o que é? Ide vê-lo.

Eis o que não querem fazer os filósofos de sorriso nos lábios e no coração.

Para vingança dos que sofrem, o Judeu errante do infortúnio tarde ou cedo toca com o bastão a todas as portas. Há muito valente que sonha fantasmas à meia-noite.

Deixa que eles falem, meu amigo. Peço-te apenas que não cuspas sobre o sono avinhado das esquinas.

É o caso de dizer-se: esse cuspo cairá sobre vós e vossos filhos.

Quando a sorte nos crava sete punhais no peito, vai-se estendendo a mão para a torneira do batoque. Impedir movimento instintivo é uma crueldade desarrazoada. as dores fez-se o calmante.

Eu entendo que o remédio é uma conseqüência do mal. São dous fatos correlativos e complementares. Mal e remédio, isto é que é a vida. Lutar não é outra cousa senão remediar.

Toda a atividade humana cifra-se nisso. O mal e o remédio existem necessariamente, subordinados um ao outro, impossíveis de haver independentes. Estão ligados como a ação à reação. Combatem-se. Mas combater-se é uma palavra contraditória: é chamar e repelir, é a união na desunião.

A força centrífuga e a centrípeta combatem-se, e ambas se fundem no equilíbrio. Assim a vida.

O mal e o remédio arcando um com o outro, imóveis na igualdade do esforço, a peleja eterna: a confusão épica sublime oferecida em espetáculo aos deuses dos homéridas.

Como querer uma só vez impedir o recontro? Quando a desgraça chegar, deixe-se que o adversário apareça.

E o adversário da desventura é o consolo, e o consolo é o vinho.

Ah! que amarga suavidade existe no sono dormido sobre a tempestade!...

Os trovões ecoam como os pandeiros de dançarinas, rodopiando ao longe. O relâmpago tem cambiantes azuis que afagam a vista, derramando reflexos de apoteose. As ventanias passam como pânicos acordes através da verdura brincalhona de mimosos bosquetes...

Se um madeiro desmorona-se da sua arrogância secular, não se ouve mais que uma delicada harmonia, ou o rumor de flores que caem. Se ruge o mar, abalando o promontório e fazendo chorar a penedia a golpe de açoute, sente-se apenas um marulhar mitológico, coroado de espumas, lançando à praia, entre beijos, mil sombras de Afrodite, que fogem nuas por meio de dunas de cândidas areias.

Tu me dirás, meu F, que és o meu verdadeiro amigo, e que desgraçadamente estás tão longe de mim, qual a consolação que isto valha? Que lenitivo estúpido é esse dos amigos diplomatas, que nos vêm cá mentir, todos contritos: agora é resignar-se... E outras ironias. Alando-as ao diabo, as mentiras!... Vejo a consolação.

Dizem que o maior amigo do homem é o livro. Admito, porém exijo que se reconheça que, se o livro é o amigo do homem, o vinho é o amigo do desgraçado. E parece-me preferível aquele que nos visita na hora da adversidade ao outro, que, nessa hora, pudera ser-nos importuno.

Eu ainda ontem não pensava como agora. Começava a penetrar a verdade, ao passo que a desventura penetrava-me o peito. Ainda não chegara o período agudo da minha crise de sofrimento. Hoje tudo está passado.

O desabamento não esmagou-me, porque eu tinha vinhos em casa. Salvaram-me, acredita!

O ensaio da prática deu-me a convicção da teoria. Todo o convencido é um apóstolo. Dizendote o que penso, desabafo.

É por isso que vazo neste papel a minha alma e confio-ta.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...3738394041...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →