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#Romances#Literatura Brasileira

Bom-Crioulo

Por Adolfo Caminha (1895)

— Queres que eu te diga porque é que fechei a porta da rua? Pois senta-te pr’aí que eu te vou dizer. Calei-me por tua causa mesmo, para não te dar cuidado.

O grumete imaginou logo uma série de cousas desagradáveis: tentativas de roubo, ameaças e prisão, violências, um horror! Estava longe, porém, de pensar em Bom-Crioulo; a seus olhos o negro morrera, desaparecera; ninguém lhe dava notícias dele; decididamente nunca mais voltaria; talvez andasse nalguma viagem, mar afora, nalgum cruzeiro. ..

E a portuguesa narrou o caso do bilhete, que ela rasgara., “porque não valia a pena a gente se amofinar...”

Aleixo ouviu tudo curioso, a face na mão, derreado na cama larga.

— E onde está ele? perguntou vivamente.

— No hospital de marinha, na ilha, com alguma doença... Quem o não conhecer que o compre.

Aleixo não quis dizer nada; mas a história do bilhete comovera-o, enchera-o de uma vaga melancolia: — Bom-Crioulo ainda se lembrava!...

Pensou em visitar o negro, talvez fosse mais prudente...

— Que acha?

D. Carolina reprovou: — Jesus, que asneira! Isso era o mesmo que uma pessoa se atirar do Corcovado. Não, nunca!

— Deixa-o lá, filho: pouco a pouco ele irá se esquecendo; faze pela vida e deixa-o lá. Vamos indo muito bem sem ele. Nada!

— E se ele entrar por aqui adentro um belo dia?

— Qual!... Por isso é que eu trago a porta da rua fechada...

— Bom, murmurou o grumete, erguendo-se. A vida é esta!...

— E ninguém deve ir contra as leis da Providência, resumiu D. Carolina dogmaticamente.

Serenara a pequena discórdia. Estava tudo explicado. Aleixo reconhecera sua injustiça para com a portuguesa, e ela o perdoara, sempre boa, sempre generosa. Do alto do sobradinho viam ambos, agora, aconchegados, felizes, rindo, os que passavam embaixo, na rua. Que importava Bom-Crioulo? Que importava a febre amarela? Em todo o Rio de Janeiro, em todo o mundo só havia duas criaturas felizes: ele, o grumete, e ela, a portuguesa — felizes como Adão e Eva antes do pecado, felizes como todos os casais que se amam...

Saíram juntos, a dar uma volta, nessa noite. Aleixo propôs irem ao Passeio Público tomar um sorvete, um refresco, uma bebida qualquer. Não se podia estar em casa com o calor! D. Carolina lembrou a Guarda-Velha: — Não seria melhor irem à Guarda-Velha, à fábrica de cerveja? Havia música também...

Mas o grumete ponderou que na Guarda-Velha estava-se muito à vista, iam marinheiros de bordo, havia muita gente. O Passeio Público era maior e menos freqüentado: tinha-se mais liberdade. E depois era só tomar o bondinho da Lapa.

— Oh! vai com a roupa de marinheiro! suplicou D. Carolina, vendo-o enfiar um jaquetão à paisana. É mais fresca e dá respeito...

— O respeito não está na roupa, doutrinou Aleixo, abotoando-se; é respeitado quem procede bem. Deixa-me ao menos variar!

Ela gostava tanto de o ver em seu uniforme, “todo bonitinho”, como uma pintura, chamando a atenção dos burgueses, admirado, invejado, gabado. Assentava-lhe muito mais a roupa de marinheiro; sem comparação! O que era um soldado à paisana? Um homem como qualquer outro, um pobre-diabo que ninguém respeitava. Oh! a farda...

— Mas eu não quero, filha, não gosto. São cousas... — Bom, não precisa brigar. Vai como quiseres.

Estava escurecendo. No interior do sobradinho já se não distinguiam os objetos. Fora, na rua, acendiam-se os primeiros bicos de gás e havia grande calma, uma sonolência profunda no quarteirão.

— Creio que vamos ter chuva, disse Aleixo dando um salto à janela.

Com efeito, nuvens escuras alastravam-se pelo céu, baixas, pesadas, rolando como fumarada negra de incêndio. O tempo refrescava. Corria mesmo uma aragenzinha branda e acariciadora. Uma voz humana imitava guinchos de locomotiva para os lados da Misericórdia.

Passava o bonde da Lapa. D. Carolina e Aleixo embarcaram, ela muito alegre, muito expansiva, na sua toilette improvisada, que lhe dava um ar bonachão e honesto, ele um pouco triste, chapéu de palhinha derreado para a nuca, mostrando o cabelo penteado em pastas, uma gravata cor de sangue — aprumado e circunspecto.

O bonde tocou.

CAPÍTULO XI

Um desespero surdo, um desespero incrível, aumentado por acidentes patológicos, fomentado por uma espécie de lepra contagiosa que brotara, rápido, em seu corpo, onde sangravam ainda, obstinadamente, lívidas marcas de castigo — um desespero fantástico enchia o coração amargurado de Bom-Crioulo. Não lhe restava mais esperança que Aleixo fosse vê-lo ao hospital: estava desiludido. O grumete abandonara-o, esquecera-o, e nem ao menos dera-lhe uma satisfação! — Atrás dos apedrejados vem as pedras... Uma pessoa, no fim das contas, era obrigada a tornarse ruim, a fazer todas as loucuras... Isso de a gente pensar na vida, sacrificar-se, proceder bem, não vale nada, é uma grande tolice, uma grande asneira.

(continua...)

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