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#Romances#Literatura Brasileira

A Normalista

Por Adolfo Caminha (1893)

Toda a vizinhança, ávida de escândalos, ouvia com risinhos de pérfida satisfação aqueles torniquetes às vezes imorais, até do amanuense com a mulher. Era um divertimento.

— Deus os fez e o diabo os ajuntou, dizia a mulher de um barbeiro que morava ali perto, paredes-meias.

Quando João da Mata entrava na pinga então a coisa tomava proporções assustadoras. Ameaçava expulsar a mulher de casa a pontapés, berrava como um possesso, batia portas, quebrava louça ao jantar, rogava pragas, e a própria criada não escapava à sua cólera.

Mariana era uma rapariga muito pacata e em pouco se acostumou às impertinências ríspidas de “seu Joãozinho”.

— Para que havia de dar o pobre homem, dizia ela às vezes, penalizada, cruzando os dedos sobre o ventre. Credo! a gente vê coisas! Hum, hum!...

E muito risona, muito tola com o seu ar idiota de animal dócil, lá se ia para a cozinha cuidar das panelas e da louça, porque era ao mesmo tempo cozinheira e copeira.

Quase todos os dias a mesma lengalenga, o mesmo duelo de palavrões de porta de feira, a mesma pancadaria de descomposturas. Não era raro sair da boca desdentada do amanuense uma obscenidade!

— Jesus! exclamava Maria fugindo para o seu quarto com as mãos nos ouvidos.

Ao ouvir a voz de João da Mata berrando como um danado, a vizinhança chegava às janelas ávida de escândalo. Meninos em fralda de camisa, chupando o dedo, paravam defronte da porta do amanuense, muito espantados, olhando cheios de curiosidade pelas frinchas da rótula.

E a algazarra crescia lá dentro, como se papagueassem muitas pessoas a um tempo.

As duas criaturas faziam as delícias da rua do Trilho, que se regozijava com aqueles espetáculos gratuitos de um cômico irresistível.

— Aquilo ainda acabava mas era num escândalo badejo”, resmungava a mulher do barbeiro, uma magricela com cara de quem está sempre com dor de barriga.

O Loureiro repetia indignado, dando-se ares de homem sério e reformador de costumes: “— Uma gente sem-vergonha. Uma canalha! Tomara já se casar para ver-se longe de semelhante peste. Até era feio a Lídia ter amizade com aquela gente.”

E aconselhava a rapariga que fosse, pouco a pouco, deixando de ir à casa de João da Mata, porque não lhe ficava bem, a ela “rapariga de família”, em vésperas de se casar, ter relações com uma corja daquela.

Já não se jogava o víspora em casa do amanuense. As velhas coleções dormiam esquecidas no saquinho de baeta verde em cima do piano.

D. Terezinha transformava-se a olhos vistos. Pouco lhe importavam os móveis cobertos de poeira e de fuligem das locomotivas; protestara nunca mais abrir o bico para dar ordem naquela casa. Estava cansada de agüentar desaforos “do corno” do Sr. João da Mata.

E tudo por quê? Por causa de uma peste que se lhe metera casa adentro e agora andava mostrando os dentes e mais alguma coisa ao padrinho, com partes de afilhada. Não, ela é que não servia de alcoviteira a ninguém, meu bem. Estava muito enganadinho. Se quisesse fazer mal à sonsa da Maria fosse fazer onde bem entendesse, mas ela, Teté, não servia de travesseiro, não, mas era o mesmo...

Estimava muito que lhe deixassem dormir só, na sua cama. Não perdia nada.

Por seu lado o amanuense encarava a mulher com um desprezo solene. Vinha-lhe agora um arrependimento profundo por ter feito a asneira de amigar-se com D. Terezinha. Tanta rapariguinha fresca e bonita vivia à procura de um homem, tanta retirante “moça” e pobre, tanta gente boa no mundo, fora amigar-se logo com quem? com quem, Sr. João da Mata? Com uma sujeita feiosa que só tinha carne nos quadris, um monstro de gordura, com pernas finas e ainda por cima estéril! Que grandíssima cabeçada! Entretanto, podia estar muito bem casado com uma mulher de certa ordem, rica mesmo, bem-educada e bonitona.

Depois que se mudara para a sala de jantar apoderou-se dele um aborrecimento inexplicável por D. Terezinha. Passava horas e horas estendido na rede, de papo para o ar, em ceroula e camisa de meia, acendendo cigarros, a pensar na vida, como um grande capitalista que sonha no dinheiro acumulado usurariamente, e Maria do Carmo aparecia-lhe na imaginação como um tesouro preciosíssimo, que ele receava fosse cobiçado um belo dia pelo rapazio galante da cidade. Estava ficando velho e era preciso aproveitar o resto da vida. É verdade que em 77, na seca, tinha desfrutado muita “bichinha” famosa. Nesse tempo ele era comissário de socorros... Mas nenhuma daquelas retirantes chegava aos pés da afilhada. Chegava o quê? Nem havia termo de comparação. Maria, além de ser uma rapariga asseada, e apetitosa como uma ata madura, tinha sobre as outras a vantagem de ser inteligente e educada.

(continua...)

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