Por Aluísio Azevedo (1895)
Uma cena violenta! — frases de maldição! Houve soluços por parte de minha filha; lágrimas por parte de Leandro. Sim, eu vi as suas lágrimas, ele é que não viu as minhas, porque lhas não mostrei. No entanto o meu pobre coração chorava> doía-me separá-los tão depressa. E quando os contemplei abraçados, a despedirem-se, com os rostos escondidos no pescoço um do outro, o corpo de minha Palmira sacudido pelos soluços, sem ânimo nenhum dos dois de largar dos braços o consorte, apertou-se-me tanto a alma, que, por pouco, não fraquejo e abro mão da disciplina, deixando-os ficar juntos o tempo que entendessem.
Felizmente, porém, não sucumbi à momentânea fraqueza e tive alento para dizer ao rapaz em tom sereno e já com a voz segura:
— Bom! O caso não é assim também para tão grandes despedidas! A separação não é tamanha! Agora vai o senhor, meu estimável filho, para a sua casa, e nós cá ficamos em nosso canto. Pode visitar-nos uma vez por dia, até nova ordem. Não durará muito a interdição — descanse! Olhe: venha jantar amanhã conosco... O Dr. César deve estar aí, e temos de conversar os três sobre interesses comerciais. Não venha antes das três horas da tarde. Adeus, adeus.
E Leandro destacou-se com efeito para a sua casa, acompanhado pelos olhos da esposa, que não saiu da janela enquanto ele não dobrou a esquina da rua, depois de repetidos sinais de adeus de parte a parte.
Como passara meu genro essas primeiras horas de isolamento depois de quase um mês de convivência com a sua amada, só o soube muito mais tarde, repetido por minha filha, a quem ele no dia seguinte descreveu os seus tormentos. Ela também estava então inconsolável; chegou a fazer-me biquinho. Eu, porém, tinha de sobra no meu amor materno segredos para o desarmar contra mim. Consolei-a o melhor que pude.
Mas que alegrão no outro dia, quando os dois se encontraram de novo! Dirse-ia que a ausência não fora de vinte e tantas horas, mas de vinte e tantos meses! Leandro acudiu pontualmente à hora marcada por mim. Palmira, ao perceber da janela que ele chegava, lançara-se com tal ímpeto pelo corredor, que não sei como não rolou a escada. Recebeu-o nos braços, chorando de alegria.
Ele trouxe-nos flores; beijou-me a face, como sinal de que já não estava agastado comigo, e abraçou expansivamente o Dr. César, que também fora ao seu encontro com um calmo sorriso e uma amorável frase paterna.
E o nosso jantar foi o mais alegre que tivemos até aí. Abriu-se uma garrafa de champanha.
Foi bastante a separação de um dia para que voltassem ao casal todos os arrulhos de antes do matrimônio. Meu genro tocava com os pés, por debaixo da mesa, os pés de Palmira, e segurava-lhe furtivamente a mão, e dizia-lhe em voz baixa sedutoras palavras de amor, requestando-a de novo para um novo casamento.
Eram felizes. E eu me sentia também feliz, ao reflexo da ventura dos dois; e sorria para César, que esse bem compreendia o alcance da minha felicidade e orgulhava-se de ter contribuído para ela.
À meia-noite dissolveu-se a roda. Leandro retirou-se com o médico, ficando ajustado que voltariam ambos no dia seguinte às mesmas horas. O meu velho e querido amigo disse-me, ao sair, por ocasião de dar-me a mão:
Vai muito bem! Vai muito bem!... Continue, Olímpia!
Creio que consigo fazer o milagre... segredei-lhe, abraçando-o.
Consegue, consegue tudo! Você é uma santa, minha amiga! Adeus.
CAPÍTULO XVII
Foi uma bela inspiração ter feito Leandro entrar para o comércio. Entrou com o pé direito. A casa a que ele se reuniu começou, com o novo capital, a prosperar de um modo admirável. Tornou-se rapidamente conhecido na Praça e conquistou logo bonito crédito. A sua atividade e a sua inteligência, aliás comuns, encontraram bom campo para exercitar-se, sem o menor prejuízo do seu sistema nervoso.
Agora, já não lamentava eu que ele não fosse oficial de marinha. Reformara todo o meu julgamento a esse respeito, por deduções que exporei mais adiante.
Ao contrário do que sucederia se Leandro fosse meu filho e não meu genro, alegrava-me com ser ele simples negociante e não notável artista, ou afamado escritor, ou vulto ilustre na ciência. No exclusivismo do meu amor de mãe, teria até um grande desgosto se o marido de minha filha se revelasse, de um dia para outro, homem de talento singular e começasse a ser aclamado pelo público. Deus me livre! — seria uma desgraça!
Nem falar nisso é bom! o homem de talento não pertence à família, pertence à multidão, pertence à sua pátria, pertence ao mundo pertence ao século; que sei eu? pertence ao diabo, pertence a tudo, a tudo, menos à pobre mulher com quem caiu na perniciosa asneira de casar. Além do que, o constante esforço encefálico, para conceber e produzir grandes obras de arte, traz fatalmente consigo o precoce esgotamento nervoso; o que, suponho, não preciso dizer que é de suma importância na felicidade conjugal.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O livro de uma sogra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16536 . Acesso em: 24 mar. 2026.