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#Romances#Literatura Brasileira

O Sacrifício

Por Franklin Távora (1879)

Do lugar onde estava, não pode Paulo saber quem eram os desconhecidos. As árvores cobriam com sombras todo o âmbito das águas onde eles procediam àqueles violentos exercícios, e a distância não era pequena. Paulo, entretanto, começou a sentir maior curiosidade em reconhecê-los. Por ali perto, não se apontavam moradores, e até lhe pareceu digno de nota que tais pessoas, não sendo da redondeza, soubessem que havia essa banheira só conhecida da gente do engenho ou de quem tinha a liberdade de atravessar os canaviais e as lavouras. Mas ao mesmo tempo que desejava conhecer os folgazões, o seu natural pudor vedava-lhe empregar os meios mais prontos para chegar a este conhecimento. Pensava já em voltar, quando um ruído mais forte e uma gargalhada mais vibrante chamaram novamente a sua atenção para a banheira. Fora o caso que a mulher correra de destro das águas para fora em busca do pano de areia, que vinha morrer poucos passos diante do ponto onde ele estava oculto. A mulher, correndo, parando, tornando a correr e olhando para trás, atravessou todo o espaço que havia descoberto. Paulo viu-a, em toda a nudez natural, de frente para ele; e logo que, saindo da sombra, a luz do sol pode cair em cheio em cima dela, reconheceu a Janoca. O espanto, a que esta visão deu lugar em seu espírito, subiu de ponto, quando ele ouviu a homem chamar por ela em voz mais elevada. Era a voz de Bezerra.

— Sai daí; volta — disse Bezerra. Olha que pode vir gente.

— Que é que tem? — retorquiu a mestiça com disfarce impudente.

— Não quero; não quero que alguém te veja.

— Quero eu.

— Volta, Janoca.

— Venha você buscar-me. Tenho já frio e o sol está muito bom.

E a mestiça estendeu-se a fio comprido na areia.

Paulo teve, então, ocasião de observar as formas que ele nem sequer imaginara nunca. A sua primeira impressão, vendo a rapariga correr para a banda dele, fora fugir, desaparecer; mas a novidade e o escândalo puderam mais que o escrúpulo do rapaz, posto que educado nas lições de sã moralidade.

— Se não vier buscar-me, não voltarei tão cedo - prosseguiu a mestiça.

— Deixa-te disso; vem. Se eu for lá, hei de trazer-te arrastada pelos cabelos.

— Não vê! Os meus cabelos são as suas prisões. Sua mulher há de ter inveja deles. Não tem?

— Vem, diabo! - tornou Bezerra contrariado.

— Que é isto? Está com raiva porque falei na sua mulher? Bonito que você é!

A sua mulher sou eu.

— Pois sim, és tu mesma; mas o que eu quero é que saias daí.

— Eu não. Está com ciúmes? Cuidarás que alguém, vendo-me nua, vai tirarme do seu poder?

— Deixa-te de asneiras, e não me metas raiva.

Dizendo estas palavras, Bezerra correu da água para a margem, onde a rapariga se espojava, ora encolhendo, ora estirando as pernas. Vinha resoluto a levá-la por força, mas quando entre ele e ela não se interpunham mais de dez passos, Janoca, por diabrura, encheu a mão de areia e atirou-lhe sobre a cara, acompanhando este movimento de cínica e estrepitosa risada. Bezerra deu um grito, sobresteve um momento com as mãos no rosto, e depois voltou ao rio. A areia caíralhe nos olhos.

Então, Janoca levantou-se rapidamente e correu após ele.

— Caiu-lhe nos olhos a areia, meu benzinho? — perguntou com voz sentida. Coitado do meu marido!

E foi ela que arrastou Bezerra para dentro da água, onde, abraçando-o e dando-lhe beijos, começou a banhar-lhe o rosto e a pedir-lhe perdões ao mesmo tempo.

Paulo aproveitou-se deste acidente para retirar-se do lugar, onde o acaso acabava de dar-lhe tão nojento e infame espetáculo. Estava maravilhado. A impudência e a nudez haviam deixado em seu espírito estranha impressão de assombro. Pensou logo em Maurícia, que ele tinha em conta de sua segunda mãe. “Quanto não deve ter ela padecido? - disse ele consigo. Agora acredito em todas as suas palavras; quem pratica o que acaba de praticar esse homem é capaz de todas as vilezas”. Paulo sentiu tamanha pena que, dados alguns passos, parou de novo e pôs-se a pensar no que testemunhara. A estranha visão apresentou-se-lhe outra vez diante dos olhos escandalizados, em tintas tão vivas como a realidade. “Oh, nunca supus que ele tivesse coragem para semelhante procedimento!”

Voltou esse dia mais cedo do serviço. Tinha pressa de ver Maurícia. Quanto mais reconhecia a sua desgraça, mais se sentia na obrigação de ir em socorro da infeliz senhora. Nada lhe revelaria do que vira, mas trataria de cortar as relações criminosas que Bezerra e a mestiça mantinham. “Ela se sacrificou por mim; eu tenho o dever de lhe tornar o mais suave que puder o sacrifício. Essa infame rapariga não pode continuar nesse lugar. Há de sair daqui dentro do mais breve tempo que for possível.! E formou logo sua resolução.

(continua...)

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