Por Franklin Távora (1878)
No mais aceso do samba, quando não só se ouviam os sons das violas, mas também os ásperos rechinar das costas da faca sobre a botija segundo praticam em ajuntamentos tais; quando os aplausos se manifestavam por meio de gritos e gargalhadas estridentes; quando não se dançava só o cocô e o baiano, mas uma mistura de todas as danças populares com o acréscimo da fantasia de cada um, escaldada pelos vapores espirituosos; quando enfim era tudo algazarra, derriços pouco decentes, demonstrações menos dignas, apareceu um novo conviva no meio da multidão. Era Francisco, o qual, depois da entrega das cartas no engenho, viera em busca do filho, pelo motivo que adiante saberemos. Não podia o matuto chegar mais oportunamente àquele ponto. No momento exatamente em que ele se fez ver por entre a matutada que enchia a salinha, sentiu Lourenço bater-lhe no ombro pesada mão, que o obrigou a voltar-se, a fim de saber quem era que lhe fazia tão estranho cumprimento. O rapaz reconheceu o Tunda-Cumbe.
Em poucas palavras poremos o leitor a par deste sujeito, que tão importante papel desempenhou na Guerrados-mascates. E para que o retrato venha com o cunho de severa autenticidade, preencheremos a nossa promessa trasladando aqui as próprias palavras em que um cronista pernambucano o descreveu para conhecimento da posteridade. < Este sujeito era um homem rústico e grosseiro, de idade já maior, que do reino de Portugal tinha há anos vindo para esta terra, trazendo da sua, por divisa, uma grande cutilada no rosto, ou para que a se não desconhecesse, ou para que por ela fosse conhecido; mas diziam que por usar do oficio de parteira, e para disfarçá-la de algum modo, conservava os seus bigodes, ou mustachos, em tempo que ninguém fazia caso deles. Buscando meios de poder acomodar-se, fez em Goiana assento de feitor, por seu salário em casa do sargento-mór Matias Vidal, a fim de no serviço dirigir os negros; mas estes, conspirando-se contra ele em certo dia, lhe deram uma pista de pancadas que na etiópica língua chamam Tunda, e o lugar onde lhe deram chama-se Cumbe. Como se fez o caso publico, por antonosia lhe chamavam o TundaCumbe, e sendo por este nome de todos conhecido, como quem faz do sambenito gala, quis do modo como era apelidado, apelidar-se. Daí se foi para a freguesia da Várzea, e nela esteve com o mesmo exercício de feitor do Capitão Lourenço do Cunha Moreno, e depois tornou para Goiana, e se fez almocreve de peixe, indo, com uma besta, a buscálo pelas praias, e pelas portas dos moradores a vendê-lo: nesta ordem de vida se manteve até que sucedeu o levante do Recife, em que tomou parte, que veremos.
- Então, menino cantador, disse o Tunda-Cumbe a Lourenço, com entono e arrogância mais de quem agredia, do que perguntava – será certo que você está apaixonado pela Bernardina? Pois olhe, quero preveni-lo de uma coisa, para que depois não vá você chamar-se ao engano. Sabe muito bem que todas as semanas, da Sexta para o sábado, ando eu por estas bandas a vender o meu peixe.
- Sei, disse Lourenço, sem se alterar, com os olhos postos, como quem nisso tinha propósito, na funda cicatriz do Tunda-Cumbe não tão oculta pelo espesso bigode, que se não pudesse deixar ver.
- Pois fique sabendo mais que aquilo é tainha que eu tenho contado há de cair, mais dia, dentro do meu caçuá.
- Você refere-se a Bernardina?
- A ela mesma é que me estou referindo, sim, senhor.
Pois eu também quero dizer-lhe uma coisa. Eu com ela nada tenho. Se canto e gracejo com a rapariga, é porque tenho amizade na casa. Nela não tenho intenção de espécie nenhuma, porque, quando a gente não sente inclinação para uma mulher, por muito que ela se derrengue para a gente, não passa tudo isso de divertimento sem maldade. Mas como diz você que já conta com aquela tainha no seu caçuá, a coisa muda de figura.
- Menino – tornou o Tunda-Cumbe, você para Ter comigo esta linguagem, preciso fora primeiro que ou não estivesse no seu juízo, ou não me conhecesse devidamente. Saberá acaso com quem é que está falando?
- Sei muito bem que estou falando com seu Manoel Gonçalves Tunda-Cumbe.
Pois então veja d’ora em diante como anda. Depois não vá dizendo que Santo Antonio o enganou.
- Você é que parece estar enganado comigo, retorquiu-lhe Lourenço, sentindo faiscar-lhe já os olhos. Eu há muito tempo não faço uma das minhas, mas, em ocasião se oferecendo, não lhe hei de torcer a cara, e bem pode acontecer quem para ficar você melhor assinalado, lhe vá eu deixar no queixo direito o golpe que lhe falta para fazer parelha com o que lhe plantaram no outro queixo, quando você tinha o oficio de partejar na santa terrinha.
A violência desta represália deixou perplexo, e como espantado por momentos o Tunda-Cumbe, pouco habituado, não obstante a tunda sabida, a ouvir cara a cara tão pesadas reprimendas.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.