Por Bernardo Guimarães (1872)
— Margarida infiel!... Margarida casada!... — exclamava Eugênio ao entrar no seu quarto, delirante, a arquejar e apertando a cabeça entre as mãos convulsas. — Quem o diria .... pôde tão facilmente esquecer-se de mim para entregar-se a outro.... e eu tantos anos luto em vão para arrancar daqui a imagem dela e entregarme nos braços de meu Deus!... que vergonha!... que miséria!... À força de jejuns, de penitências, de mortificações tenho quebrantado meu corpo, acabrunhado meu espírito e flagelado meu coração rebelde, e nem assim consegui apagar este fogo que me devora... sim, não consegui nada; era engano meu... agora o vejo... e ela tranqüila e risonha, sem escrúpulo e sem constrangimento algum voa aos braços de outro, e dá-lhe a gozar estas delícias, que eu... louco que eu fui!... estava trocando por um inferno de amarguras e martírios!... Oh, Margarida! Margarida! que fizeste!... ah!... tu eras mesmo a serpente; teus lábios destilavam veneno de morte... era o fogo do inferno que te incendiava os olhos... Com teu amor mostravas-me o paraíso, que era a porta do inferno!... com tua traição e falsidade me abres também o inferno nesta e na outra vida! Por toda parte tu és o anjo mau destinado a precipitar-me no abismo das torturas!... mas... que importa!... ah!... se continuasse a querer-me quem... sabe?... que valem sem ti o paraíso e todas as suas delicias?... eu te acompanharia de bom grado pelos ásperos e tenebrosos caminhos do desterro, como Adão acompanhou a sua Eva; suportaria alegre todos os trabalhos e tribulações da vida, se sentisse tua mão enlaçada com a minha, e o teu coração palpitando junto ao meu!... — Mas ah!... meu Deus! eis em que deram tantos anos de luta e sacrifício!... Desprezei um tesouro que possuía, para correr após um bem quimérico, uma sombra vã... e agora aperto os braços, e não encontro nem um nem outro... e acho-me abraçado... com quê? com as chamas do inferno!... Ai de mim!... meu Deus! como eu blasfemo! eu sou um réprobo!...
Eugênio debatia-se em acessos febris entre as garras do ciúme que lhe atassalhava o coração, e o cauterizava com o fogo de sua letal peçonha. Era o último trago amargo e corrosivo da taça das paixões. Seu amor, que até então envolto no casto véu dos devaneios sentimentais se havia mantido em uma esfera ideal e pura, tornou-se material e libidinoso. Os gozos de outrem lhe chamaram a atenção para os sedutores atrativos físicos da sua amante, e lhe atearam nas veias a febre da volúpia. O demônio do ciúme, empunhando o facho infernal, abrasava o sangue do infeliz mancebo no fogo da concupiscência. Volvia e revolvia na lembrança com amarga complacência todos os encantos do corpo de Margarida — a boca úmida e vermelha, ninho voluptuoso de beijos e sorrisos — os seios túrgidos ofegando alterosos em ânsias amorosas — os olhos quebrados nadando em eflúvios de ternura — o bafejo suave e perfumado como as emanações de um rosal — e todos estes misteriosos tesouros, que o pudor recata, e ante os quais a própria fantasia do mancebo se detinha tímida e respeitosa, receando profaná-los, tudo isso se lhe apresentava à imaginação com as mais vivas cores e o abrasava em sede de sensualismo, infligindo-lhe o suplício de Tântalo1. Tudo isso, que havia perdido, era agora pasto franco aos desejos libidinosos, à concupiscência brutal desse Luciano, que o havia ultrajado, ou de algum ente talvez mais desprezível.
Com estas idéias a escaldarem-lhe o cérebro, a torturarem-lhe o coração, o pobre moço pensava morrer de despeito, de vergonha e desesperação.
Estranho e deplorável egoísmo do amor! Eugênio teria sofrido menos, se soubesse que Margarida, fiel ao seu amor, houvera sucumbido vítima da mágoa e da saudade. Mais depressa se teria resignado, e daria por bem empregados todos os penosos esforços, todos os sacrifícios a que se devotou durante anos para desterrar do coração a imagem dela. Quando considerava em sua infidelidade, envergonhava-se de ter mirrado a flor de sua mocidade em uma luta improfícua contra um inimigo indigno dele, contra uma mulher, que o fascinara com as aparências de um anjo, e que não era mais que larva imunda, que há mais tempo devera ter esmagado debaixo dos pés!
Estranha alucinação! Julgava-se com o direito, e até com o restrito dever de bani-la para sempre da lembrança, e quisera que ela o amasse a todo o transe, que se deixasse finar por ele de amor e de saudade!
Morta de amor por ele, seria um anjo, que chamava para o céu. Viva nos braços de outro, é a serpente que o arrasta para o inferno.
Pura e fiel, era uma vítima imaculada digna de ser imolada ao seu espírito ascético nas aras da religião. Perjura e desleal é um monstro, que o fascina, e o precipita no abismo das eternas chamas!
Alguns dias cruéis e noites de agonia passou Eugênio nesta tempestuosa agitação, que quase tocava ao delírio. Às vezes lhe fervia o coração em desejos de vingança e idéias de sangue e suicídio lhe pairavam lôbregas pelo espírito. Outras vezes, inculpando-se a si mesmo da deslealdade de Margarida, e tendo-a como um merecido castigo de sua atroz ingratidão, corria após ela, e ia cair-lhe aos pés suplicante e debulhado em lágrimas, pedindo-lhe perdão do seu monstruoso perjúrio, e maldizia a loucura e covardia que lhe havia feito desprezar um tesouro real, que o destino lhe havia colocado entre os braços, para correr após a sombra de um bem, que o céu lhe recusava.
Esta extrema e violenta superexcitação não podia durar muito tempo sem produzir a morte ou a loucura. Sucedeu-lhe porém felizmente a prostração profunda, o desalento glacial do desengano.
A alma do mancebo, que era até então como um foco de chamas açoitadas por ventos tempestuosos, converteu-se em um limbo silencioso, gélido e sombrio, onde não havia um eco nem para a dor, nem para o prazer, onde não se exalava o perfume de uma saudade, nem luzia o reflexo de uma esperança.
Seu espírito parecia adormecido em pesado torpor, sobre as ruínas de todas as suas afeições mundanas, de todas as suas aspirações de ideal e celeste misticismo.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Seminarista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16585 . Acesso em: 27 fev. 2026.