Por Bernardo Guimarães (1872)
- Nenhuma, minha velha, nenhuma! . . . mas não. . . minto. . . havia uma: um velho e pobre camarada. Em vão tenho perguntado por ele. . . ninguém me dá notícias; nem sei se é vivo ou morto.
- E é só esse?
- Ainda há mais outra pessoa; e essa eu daria a minha vida para vê-la, ainda que fosse um instante; mas essa, ai de mim! . . . essa não pode vir aqui.
- Vá vendo, que é alguma moça bonita.
- É verdade! . . . muito bonita; bonita como não há nem pode haver nenhuma.
-mas, meu moço, Vmcê. Está muito doente para pensar agora em moças bonitas. Pense na Virgem Santíssima, que é quem lhe há de valer.
- Entretanto se essa de quem falo, me aparecesse agora aqui, estou certo que no mesmo instante eu sararia.
- Então é mágica?
- É mais do que isso; é um anjo.
- Anjo! . . . nesse caso não me canso em ir procura-la, porque é coisa que não existe mais neste mundo.
- Não te canses mesmo, minha velha; tu não a encontrarás; nem ela virá cá. Ela é do céu; não pode descer a este inferno em que estou penando.
XIV – A LAVADEIRA
No dia seguinte bem cedo a boa velha veio pressurosa acordar Elias.
- Levante-se, meu moço; o dia amanheceu bonito, e tenho uma bela notícia para lhe dar.
- Boa notícia para mim! . . . não é possível! para mim! . . . neste mundo já não pode haver notícia nem boa nem má. A única boa notícia que me poderiam dar era que já morri.
- Qual! quem fala agora em morrer! . . . dou-lhe parte que temos agora aqui perto uma bela vizinhança: já Vmcê. Não ficará tão sozinho.
- Vizinhança! oh! que bela nova! tomara que me deixem sozinho, e que eu nunca lhes veja a cara. Senão me mudarei ainda para mais longe.
- Sozinho se veja o diabo! . . . olhe que uma vizinhança como esta não é para desprezar. É um velho, uma menina muito linda, e uma moça bonita como um sol. Não os conheço, nem me lembro de ter visto essa gente em parte nenhuma.
-mas não me recordo de ter visto casa nenhuma aqui por perto, e pensei que estava livre de toda a vizinhança.
- Pois não viu uma casinha coisa de uns cem passos ali mais adiante?
- De todo não me lembro; também eu estava tão doente. . .
-também a casa é tão pequena, é como esta mais ou menos, e está tão escondida no mato, que mal se avista.
- Então são tão pobres como nós? . . .
- Assim parece, ou talvez mais ainda, coitados; mas parece ser muito boa gente. Quando fui apanhar água fresca numa fonte que há para lá da casa, pediram-me para encher o pote, e estive conversando um pouco com eles. O homem estava para dentro; mas a menina é muito dada e muito meigazinha; a moça é também muito boa e bonita, meu moço, bonita até ali. . . mas não sei que tem, que anda tão triste! . . . comparando mal, parece uma imagem de Nossa Senhora das Dores.
- Pois de todo não sabes quem é essa gente? de onde é? de onde veio? perguntou com sÔfrega curiosidade Elias, a quem um súbito pensamento tinha atravessado o espírito.
- Nada sei de todo.
- Um velho, uma moça e uma menina, não é o que disseste?
-tal e qual.
- Um velho alto e cheio de corpo. . .
Isso mesmo.
- A menina é morena e terá dez ou onze anos. A moça é clara, bem feita, olhos grandes, cabelos castanhos. . .
- Justamente! . . . pelo que vejo, são seus conhecidos? . . .
- Parece-me que sim.
- Um velho, uma moça, uma menina! refletiu consigo Elias, e com estes sinais! não podem ser outros. O Major estava em vésperas de completa ruína! . . . infeliz família! . . .
- E não tiveste ocasião, continuou Elias, de ouvir o nome de alguma das pessoas da família! . . .
- Acho que sim. . . espere. . . Ah! agora me lembro. . . ouvi o velho chamar lá de dentro a moça pelo nome de. . . de. . . Lúcia.
- Lúcia! . . . que nome divino acabas de pronunciar, minha boa velha! são eles mesmos! é ela! . . . ah! desventurada Lúcia! e mais desventurado de mim, que não posso valer-te! . . .
- Estou vendo que essa moça é o anjo de que Vmcê. Há pouco falava? . . .
- É, minha velha, é ela mesma. E dirás ainda que os anjos não andam cá pela terra? . . .
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Garimpeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1776 . Acesso em: 26 fev. 2026.