Por Bernardo Guimarães (1872)
Eduardo, que acabava de decifrar não sem dificuldade os terríveis garranchos, que o infeliz Roberto com mão convulsa tinha traçado naquele papel, vendo que nenhum inconveniente havia na leitura daquela carta, que à exceção da última frase, – a qual envolvia um sentido sinistro, – continha uma lisonjeira notícia, que ele estava ansioso por comunicar a Paulina, leu em voz alta o seguinte:
“Senhor Eduardo. Confesso e reconheço, que ontem fui estouvado e grosseiro com o senhor. Hoje, pensando melhor, vejo que o senhor tem razão, e que eu sou um desgraçado que nada tem mais que fazer neste mundo. Desisto de tudo; faça de conta que eu nunca existi; e que nunca o senhor me deu juramento nenhum. Adeus! sejam felizes, e rezem por minha alma. Roberto.”
Estas últimas palavras Eduardo suprimiu-as na leitura.
– Pobre de meu primo! – exclamou Paulina, apenas Eduardo acabou de ler; – e eu que supunha que ele não seria capaz de dar esse passo!... que injustiça!... hei de lhe pedir perdão de joelhos... que coração! que alma de anjo!... meu pai!... senhor Eduardo!...
A moça quase não podia mais falar de emoção; soluçava e arquejava comprimindo o peito com as mãos, como temendo que lhe rebentasse.
– Basta, – exclamou o pai já cheio de inquietação; basta, minha filha; não convém que fales mais. Acalma-te; o céu acaba de fazer tudo para a tua felicidade; agora o que precisas é saúde... vamos; deita-te e descansa... nada de conversas por ora;... retiremo-nos, meus senhores.
– Para quê, meu pai?... eu acho-me tão contente... e tranqüila...
senhor Eduardo, por favor demore-se um momento... meu pai há de permitir, que lhe diga duas palavras.
– Paulina!... mais tarde, minha filha, conversarás com ele quanto quiseres.
– Não tenha susto, meu pai; duas palavras só, e ele sairá logo, – disse Paulina cravando-lhe um olhar suplicante.
O pai não teve ânimo de contrariá-la mais.
– Pois bem, minha filha; porém cautela; por quem és, não fales muito, nem te comovas.
Capítulo XIV
Conclusão
– Ah! senhor Ribeiro, – disse o padre com tom severo, apenas se acharam fora do aposento de Paulina, – foi uma grave imprudência a entrada daquele rapaz com as cartas no quarto da menina!... queira Deus daí não venha algum mau resultado.
– Tem razão, senhor padre; eu também logo vi o inconveniente... mas que havia eu de fazer?... o maldito moleque, e quem aqui o introduziu sem licença minha, tem a culpa de tudo. Mas como ela não soube da notícia senão na parte que tem de boa...
– Muito embora, senhor Ribeiro; toda e qualquer emoção violenta, ainda mesmo de alegria, no estado em que ela está lhe pode ser fatal.
– Tudo pode ser, senhor padre; mas eu nunca ouvi dizer que ninguém morresse de alegria.
– Como não, meu amigo?... em estado de plena saúde, ainda bem; mas no estado melindroso e crítico, em que se acha sua filha, qualquer impressão forte seja de dor ou de prazer, pode determinar uma crise, e nessa crise ela sucumbir.
A vida dela está presa por um fio tão delicado, que o abalo o mais insignificante pode quebrá-lo.
– Deus tal não permita, – disse o velho consternado; – e Deus queira que a presença desse moço também não lhe faça mal... seria bom fazê-lo sair...
– Para quê?... já agora o choque está recebido, e se tiver de produzir algum mau resultado, quer ele esteja, quer não, ele sempre há de aparecer.
Ribeiro e o padre continuaram conversando sem se afastarem muito do quarto de Paulina para poderem acudir prontamente no caso de algum acidente.
– Paulina!... minha Paulina! exclamou o mancebo, logo que se acharam a sós, sentando-se à beira da cama, e tomando entre as suas as mãos da moça. – Graças ao céu hoje posso chamar-te minha!... Deus teve compaixão de nós... somos felizes, Paulina.
– É verdade, Eduardo!... somos felizes; muito felizes... eu bem estava sonhando esta noite que uns anjos do céu estavam voando em roda de mim, cantando e dizendo que eu era a mais feliz de todas as mulheres. Eu estava muito contente; mas o que me causou mágoa... foi ver lá somente o meu primo, que estava a um canto sombrio e pesaroso, e não te ver em parte alguma...
– Mas estás vendo-me agora, minha querida, feliz e contente junto a ti, e isto agora não é um sonho.
– Não é... mas parece... custa-me a crer em tamanha felicidade... que eu nunca esperei. Eu ia morrer de mágoa e pesar... mas agora creio que morro de felicidade... Eduardo!...
Paulina arquejava; suas faces começavam a enrubescer, e seus olhos enchiam-se daquele reflexo brilhante e vago, que costumava acompanhar o delírio.
– Ah! meu Deus! meu Deus! – murmurou consigo Eduardo aterrado e com o coração transido de angústia;– é a febre!... é o delírio que volta!...
– D. Paulina, – disse em voz alta, – deixemos esta conversa para logo... temos tempo de sobejo para isso... temos uma vida inteira de amor e felicidade... por enquanto a senhora precisa de descanso; deite-se e sossegue.. . adeus!... eu vou mandar vir-lhe um cordial, e volto breve.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.