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#Romances#Literatura Brasileira

Garatuja

Por José de Alencar (1873)

— Devagar, camaradas, clamou Ivo; é preciso fazer as cousas em regra. Se os bichos têm de ir lá parar, que vão com todas as cerimônias. 

— Assim é! 

— Esperemos a sentença. 

Esta não se demorou. Breve assomou de novo à porta o Dr. Mustre, que deu leitura do decreto judicial pelo qual declarando procedente a devassa, sujeitava a prisão e livramento aos minorenses, fâmulos do prelado, ordenando se incluísse seus nomes no rol dos culpados, e se expedisse mandado de captura. 

Com uma salva de aplausos foi acolhida a sentença, da qual o escrivão ad hoc lavrou logo o termo de publicação, passando incontinenti o mandado de captura, que foi entregue aos beleguins da Ouvidoria para o cumprirem com assistência dos povos. 

Poucos momentos depois atopetava-se a multidão na Rua da Quitanda em frente da morada do prelado, cuja cerca foi invadida, e posta em sítio a casa. Esta conservava-se fechada como estava, e em silêncio, apesar do vozerio e burburinho do povo. Adiantou-se o beleguim, e batendo na porta com a vara, proferiu a seguinte intimação: 

— Em nome d’El-Rei, e por ordem do senhor ouvidor-geral, intimo os moradores da casa, ou quem nela estiver, a que abram a porta a fim de cumprir a diligência que me foi ordenada, e não o fazendo à 3ª notificação, procederei a arrombamento e penetrarei à viva torça e de mão armada, se for preciso. 

Mal acabava o beleguim, que de supetão abriu-se a porta e assomou nela o vulto do prelado.

— Retirem-se, desavergonhados, que não se pisa a soleira desta casa, sem nossa vênia!

— Vênia? Nós do povo lha escusamos. 

— Avie com isso, meirinho! 

Impelido pelo arrojo do popular, o meirinho desenrolou o mandado: 

— Com o presente mandado de captura, requeiro a Vossa Reverendíssima, Sr. Dr. Manuel de Sousa Almada, que entregue à prisão os seus fâmulos, Cláudio de Sousa... 

— Insolente, bradou o padre, cuja cólera fez explosão. Desafio-te e a essa canalha, que transponham o batente desta porta. Aquele que o fizer será maldito; em nome de Deus o excomungo, e o teto desta casa se abata sobre os ímpios que a profanarem.  

Ante essa execração, feita com gesto solene e voz retumbante, a multidão recuou pávida; mas ali estavam os estudantes para meterem o padre a ridículo, desarmando-o assim do prestígio que devia exercer no espírito daquela gente. 

Rapazes, em lhes dando para rir, não respeitam as cousas mais sagradas: assim que soltaram os garotos um chorrilho de impropérios: 

— Como grunhe o cevado! gritou um brejeiro, aludindo ao painel. 

— Anda lá, acudiu outro farsola; deite os bacorinhos para fora! 

Romperam as gargalhadas e chacotas com que a multidão, de novo excitada, assaltou a casa do prelado. 

Terríveis deviam ser as conseqüências desse embate da onda popular, e não era dado prever os excessos que praticaria essa plebe, irritada com a resistência, e dirigida por meia dúzia de rapazes estouvados.  

— Entregue os réus! 

— Queremos os minorenses! 

— Havemos de trancafiá-los na cadeia. 

O prelado esmagou-os sob o olhar altivo e recolheu-se com a dignidade de um ministro da Igreja. 


XXVI 

 

AINDA UMA VEZ SE PROVA QUE O POVO É EM TODOS OS 

TEMPOS A MESMA CRIANÇA TRAVESSA, A QUEM SE 

ENGAMBELA COM UM DOCE OU UM BONECO 

 

Felizmente nesse momento da ‘maior exacerbação, apareceram ali os camaristas, acompanhados de outros moradores que andavam na governança da terra e tinham preponderância sobre o povo. 

Avisados do tumulto que ia pela cidade, e do perigo que ameaçava o Dr. Almada, receosos por um lado dos desmandos populares, e por outro do desagrado d’El-Rei que por certo não levaria a bem o desacato à Igreja com ofensa da dignidade prelatícia, tinham às principais acudido com presteza no intento de evitar algum desastre.  

Chãos e simples, como eram, os “homens bons” daquele tempo, valiam mais sem contestação do que os “eminentes estadistas”, que por aí andam a granel, pois não há gazeteiro que os não amasse em tal quantidade que o forneiro-mor ocupado em cozinhá-los para ministros, não lhes dá vazão. 

Às suasões do Batista Jordão, o juiz, às advertências e rogos dos mais camaristas e principais, moderou-se a turba sofreando os ímpetos com que já investia contra a casa do prelado. Porventura obteriam os prudentes que se retirasse o ajuntamento, e aguardasse o povo a resolução que ia tomar o Senado se não fosse a rapaziada, que embirrou em levar a sua avante. 

(continua...)

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