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#Romances#Literatura Portuguesa

A Relíquia

Por Eça de Queirós (1887)

E Fatmé, de olhos em alvo, chilreava beijos na ponta dos dedos exprimindo os deleites transcendentes que devia dar o amor daquela núbia... Certo, pela persistência do seu olhar, que as minhas barbas fortes a tinham cativado, desenrosquei-me do divã, fui-me acercando, devagar, como para uma presa certa. Os seus olhos alargavam-se, inquietos e faiscantes. Gentilmente, chamando-lhe "minha lindinha", acariciei-lhe o ombro frio; e logo ao contato da minha pele branca a núbia recuou, arrepiada, com um grito abafado de gazela ferida. Não gostei. Mas quis ser amável. Disse-lhe paternalmente:

- Ah! se tu conhecesses a minha pátria!... E olha que sou capaz de te levar! Em Lisboa é que é!

Vai-se ao Dafundo, ceia-se no Silva... Isto aqui é uma choldra! E as raparigas como tu são bem tratadas; dá-se-lhes consideração, os jornais falam delas, casam com proprietários...

Murmurava-lhe ainda outras cousas profundas e doces. Ela não compreendia o meu falar; e nos seus olhos esgazeados flutuava a longa saudade da sua aldeia da Núbia, dos rebanhos de búfalos que dormem à sombra das tamareiras, do grande rio que corre eterno e sereno entre as ruínas das religiões e os túmulos das dinastias...

Imaginando então despertar o seu coração com a chama do eu, puxei-a para mim, lascivamente. Ela fugiu; encolheu-se toda a um canto, a tremer; e deixando cair a cabeça entre as mãos, começou a chorar, longamente.

- Olha que maçada! - gritei, embaçado.

E agarrei o capacete, abalei, esgarçando, quase no meu furor o pano preto franjado de ouro. Paramos numa cela ladrilhada onde cheirava mal. E ai bruscamente foi entre Pote e a nédia matrona Uma bulha ferina sobre a paga daquela radiante festa do Oriente; ela reclamava mais sete piastras de ouro; Pote, de bigode eriçado, cuspia-lhe injúrias em árabe, rudes e chocando-se como calhaus se despenham num vale. E saímos daquele lugar de deleite perseguidos pelos gritos de Fatmé, que se babava de furor, agitava os braços marcados da peste e nos amaldiçoava, e a nossos pais, e aos ossos de nossos avós, e a terra que nos gerara, e o pão que comíamos, e as sombras que nos cobrissem! Depois na rua negra dous cães seguiram-nos muito tempo, ladrando lugubremente.

Entrei no Hotel do Mediterrâneo, afogado em saudades da minha terra risonha; os gozos de que me via privado nesta lôbrega, inimiga Sião, faziam-me ansiar mais inflamadamente pelos que me daria a fácil, amorável Lisboa, quando, morta a Titi, eu herdasse a bolsa sonora de seda verde!... La não encontraria, nos corredores adormecidos, uma bota severa e bestial! lá nenhum corpo bárbaro fugiria, com lágrimas, à carícia dos meus dedos. Dourado pelo ouro da Titi, o meu amor não seria jamais ultrajado, nem a minha concupiscência jamais repelida. Ah! meu Deus! Assim eu lograsse, pela minha santidade, cativar a Titi!... E logo, abancando, escrevi à hedionda senhora esta carta terníssima:

(continua...)

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