Por Eça de Queirós (1925)
Os deputados que tinham vindo a pé e traziam as botas encharcadas e os joelhos húmidos passeavam nos corredores; ruidosamente a chuva fustigava a clarabóia. E Alípio não pôde deixar de pensar com despeito, que havia da parte de Deus uma certa ingratidão, fazendo tão chuvosa essa manhã memorável, em que ele vinha à Câmara defender o sagrado princípio da educação religiosa.
– Tem a palavra o Sr. Alípio Abranhos – disse enfim, na sua voz um pouco fanhosa, o presidente, Dr. Antão Carneiro.
Muitas vezes o Conde me confessou que sentiu nesse momento uma agonia: o estômago contraía-se-lhe, e receou um momento que uma súbita dor de ventre o obrigasse a correr à latrina – situação medonha – ou que, de repente, se lhe varresse da memória todo o discurso, que, havia três noites, declamava sucessivamente no silêncio do seu escritório.
Felizmente para o país, nem a memória nem a entranha o traíram... e Alípio Abranhos, nessa fria manhã de Março, fez o primeiro discurso da sua fecunda e grandiosa carreira política.
Este discurso é bem conhecido.2 Alguns dos seus melhores trechos estão transcritos na Selecta para uso dos alunos do 3º ano de português.
O Conde conservou sempre por este primeiro trabalho uma predilecção parcial. Ele é, com efeito, apesar do liberalismo exagerado que o caracteriza – e que mais tarde a experiência, o poder, os anos, o conhecimento dos homens devia tão cabalmente diminuir – a obra literariamente mais bem trabalhada do Conde.
Esse exagero liberal, é, porém, facilmente explicável. Não só, então, ainda moço, o seu espírito, apesar de grave e reflectido, era susceptível de um certo entusiasmo, mas também o discurso, composto sob a influência de recentes leituras de Mirabeau e de Lamartine, tomara naturalmente a ampla retórica liberal que domina as orações desses mestres. Esse excessivo espírito de liberalismo pode-se dizer que é puramente reflexivo: assemelhando-se tanto à eloquência desses inspiradores, o discurso conservou alguma coisa das suas doutrinas. Que é, porém, genuinamente de Alípio Abranhos, atestam-no o estilo, o colorido, o período.
Quem não conhece essa formosa imagem sobre o envenenamento das fontes públicas, comparado ao envenenamento das nascentes do espírito? Que formoso quadro aquele em que descreve o «sombrio vulto de Filipe II» no Escorial! Com que vigor pinta a poesia dos tempos cavalheirescos da Meia Idade! Que página aquela em que descreve a invasão dos Bárbaros e «o cavalo de Atua que, onde pousa a pata, faz secar a erva dos prados!» Que sublime apóstrofe arremessada a Tibério! Que traços de um pitoresco histórico nossa imagem sobre o «sombrio jesuíta, aqui metendo na mão de Ravaillac o punhal regicida, além aperrando a clavina que há-de fazer em estilhaços os vidros do coche de D. José I, depois vertendo na taça de vinho de Chipre que o Papa Clemente leva aos lábios, o veneno negro dos Bórgias!» Que períodos repassados de lágrimas sobre o cadafalso de Luís XVI! Que grandeza épica, descrevendo, através da Europa «o galope triunfante do cavalo branco de Napoleão!»
Poderia dizer-se que tudo isto nem sempre vinha a propósito; poderia dizer-se mesmo, como o conhecido litigante ao advogado loquaz: «Não se trata de Roma, de Cartago, nem da destruição de Babilónia: trata-se do meu sobrinho. Fale do meu sobrinho!» Mas a isto deverse-ia responder: «Então reclamai para sempre a supressão da Poesia, da Eloquência e do Génio!»
Cada uma destas grandes imagens, destinadas a enriquecer o pecúlio nacional da oratória clássica, era seguida de um estalar entusiasta de «bravos!», de «sublimes!» A voz, muito admirada, tinha uma plenitude metálica e sonora e ia, nas suas ondulações vibrantes, como ondas triunfantes que banham os rochedos da praia, bater os renques de peitos dilatados e extáticos. O gesto foi considerado perfeito, ainda que as frequentes punhadas no rebordo da tribuna, dando um som oco de pau, pareceram demasiadamente impetuosas.
E Alípio, que subira à tribuna «simples Alípio Abranhos» – era, quando desceu, «o nosso inspirado Alípio Abranhos!»
Muitas vezes este adjectivo, ou outros paralelos – «o nosso espirituoso, o nosso fértil» – são todo o proveito de uma vida de labor e de produção. Quantos dão tudo o que contém o cérebro, até à última gota, ficando depois, para sempre, com o aspecto grotesco e triste de um limão espremido – cuja recompensa é, ao fim de tanto esforço doloroso, uma sinecurazinha numa repartição do Estado e um adjectivo adiante do nome!
Mas, para Alípio Abranhos, a recompensa não se limitou a um adjectivo, e esse discurso foi o começo da sua prodigiosa carreira.
Ao entrar em casa, ainda vibrante das emoções da Câmara, esperava-o outra alegria, mais grave, mais íntima: era pai! Era pai desde as três horas da tarde! Foi sua sogra que lho veio anunciar ao alto da escada, num grito:
– E o senhor até a estas horas por fora! Está tudo acabado! E um menino! E com a maior felicidade! ... É um menino! O seu vivo retrato!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Conde d'Abranhos. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14020 . Acesso em: 29 jun. 2026.