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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

parecido com o imperador, e que se chamava Mr. Theodore. Os almoços no Ramalhete eram sempre delicados e longos; depois, ao café, ficavam ainda conversando; e passava da uma hora, da hora e meia, quando Carlos, com uma exclamação, precipitando-se sobre o relogio, se lembrava do seu consultorio. Bebia um calice de Chartreuse, accendia á pressa um charuto:

- Ao trabalho, ao trabalho! exclamava.

E o avô, enchendo de vagar o seu cachimbo, invejava-lhe aquella occupação, emquanto elle ficava alli a vadiar toda a manhã...

- Quando esse eterno laboratorio estiver acabado, talvez vá para lá passar um bocado, occupar-me de chimica.

- E ser talvez um grande chimico. O avô tem já a feitio.

O velho sorria.

- Esta carcassa já não dá nada, filho. Está pedindo eternidade!

- Quer alguma cousa da Baixa, de Babylonia? perguntava Carlos, abotoando á pressa as suas luvas de governar.

- Bom dia de trabalho.

- Pouco provavel...

E no dog-cart, com aquella linda egoa, a Tunante ou no phaeton com que maravilhava Lisboa, Carlos lá partia em grande estylo para a Baixa, para «o trabalho.»

O seu gabinete, no consultorio, dormia n'uma paz tepida entre os espessos velludos escuros, na penumbra que faziam as stores de seda verde corridas. Na sala, porém, as tres janellas abertas bebiam á farta a luz; tudo alli parecia festivo; as poltronas em torno da

jardineira estendiam os seus braços, amaveis e convidativas; o teclado branco do piano ria e esperava, tendo abertas por cima as Canções de Gounod; mas não apparecia jámais um doente. E Carlos, - exactamente como o creado que, na ociosidade da antecamara, dormitava sobre o Diario de Noticias, acaçapado na banqueta - accendia um cigarro Laferme, tomava uma Revista, e estendia-se no divan. A prosa porém dos artigos estava como embebida do tedio moroso do gabinete: bem depressa bocejava, deixava cair o volume.

Do Rocio, o ruido das carroças, os gritos errantes de pregões, o rolar dos americanos, subiam, n'uma vibração mais clara, por aquelle ar fino de novembro: uma luz macia, escorregando docemente do azul ferrete, vinha doirar as fachadas enxovalhadas, as cópas

mesquinhas das arvores de municipio, a gente vadiando pelos bancos: e essa sussurração lenta de cidade preguiçosa, esse ar avelludado de clima rico, pareciam ir penetrando pouco a pouco n'aquelle abafado gabinete e resvelando pelos velludos pesados, pelo verniz dos

moveis, envolver Carlos n'uma indolencia e n'uma dormencia... Com a cabeça na almofada, fumando, alli ficava, n'essa quietação de sesta, n'um scismar que se ía desprendendo, vago e tenue, como o tenuo e leve fumo que se eleva d'uma brazeira meia apagada; até que com um esforço sacudia este torpor, passeiava na sala, abria aqui e além pelas estantes um livro, tocava no piano dois compassos de walsa, espriguiçava-se - e, com os olhos nas flores do tapete, terminava por decidir que aquellas duas horas de consultorio eram estupidas!

- Está ahi o carro? ía perguntar ao creado.

Accendia bem depressa outro charuto, calçava as luvas, descia, bebia um largo sorvo de luz e ar, tomava as guias e largava, murmurando comsigo:

- Dia perdido!

Foi uma d'essas manhãs que preguiçando assim no sophá com a Revista dos Dois Mundos na mão, elle ouviu um rumor na antecamara, e logo uma voz bem conhecida, bem querida, que dizia por trás do reposteiro: - Sua Alteza Real está visivel?

- Oh Ega! gritou Carlos, dando um salto do sophá.

E cahiram nos braços um do outro, beijando-se na face, enternecidos.

- Quando chegaste tu?

- Esta manhã. Caramba! exclamava Ega, procurando pelo peito, pelos hombros, o seu quadrado de vidro, e entalando-o emfim no olho. Caramba! Tu vens esplendido d'esses Londres, d'essas civilisações superiores. Estás com um ar Renascença, um ar Valois... Não ha nada como a barba toda!

Carlos ria, abraçando-o outra vez.

- E d'onde vens tu, de Celorico?

- Qual Celorico! Da Foz. Mas doente, menino, doente... O figado, o baço, uma infinidade de visceras compromettidas. Emfim, doze annos de vinhos e aguas ardentes...

Depois fallaram das viagens de Carlos, do Ramalhete, da demora do Ega em Lisboa... Ega vinha para sempre. Tinha dito do alto da diligencia, ás varzeas de Celorico, o adeus de eternidade.

(continua...)

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