Por Eça de Queirós (1870)
Ela estava extremamente embaraçada, compreendia que só, no meio daquelasaclamações de homens, a sua posição era equivoca e ousada. — Ora vejam! — disse eu então, com uma bonomia mefistofé lica. — É pena que as senhoras não ouvissem, e que estejamos aqui sós, entre rapazes, na pândega.Cármen deitou-me um vivo olhar de ódio: eu estava vingado.
Um dos ingleses, no entanto, Mr. Redor, continuava erguendo o copo, cheio de punch: — A Cármen Puebla! Hip! hip! hip!- Hurra! — responderam os outros entusiasmados.
E o eco triste do mar, repetiu:- Hurra! Tocou uma sineta. Eram onze horas. Apagaram-se as luzes. Quase todos desceramrapidamente. Havia um forte vento de no roeste. O balanço do navio crescia. Navegávamos então à vista da terra de África. Quando a tolda ficou deserta, sentiu-se mais vivamente o vento uivar nas cordagens, e bater a grande pancada do mar.De espaço a espaço a sineta marcava os quartos: e a voz melan cólica do marinheiro de vigia, dizia, pausadamente:- All is well.Havia duas horas que eu tinha descido ao beliche. Estava na quela confusa penumbra que não é o sono, nem a vigília, mas um vago sonho vivo que se sente e que se domina; via acondessa passar numa nuvem com Rytmel, alegre, bebendo cerveja; via Cármen vestida de monge, dançando sobre a corda bamba; e estas visões confundiam-se com o balanço e com o bater da hélice.De repente senti uma pancada pavorosa. O navio estremeceu, parou, ressoou um grande grito.
VI
Dei um salto, corri à porta do beliche: — Stewart! Stewart!O Stewart 1 apareceu esguedelhado, quase nu.- Que é? Estamos perdidos? Batemos num rochedo?
— Não sei. Não há-de ser nada, o navio é seguro.Ouvia em cima marinheiros correndo, o movimento que se faz num perigo. «Estamos perdidos», pensei eu, vestindo-me com uma precipitação angustiada.A cada momento esperava ver o navio descer, afundar-se, e uma enorme onda pesada entrar, alagar a cabina.
Corri à tolda. Giravam lanternas. Quase todos tinham subido: os vestidos brancos, ospenteados das mulheres, davam aos grupos um vago mais lúgubre. A oficialidade estava impassível.- Que foi? Que foi? — perguntei a alguém.
— Não se sabe, quebrou-se a máquina. Mas temos sobre nós um terrível vendaval... — Estamos perdidos!- O navio é seguro — respondeu o outro.
Ao lado diziam:- O capitão devia deitar as lanchas ao mar. O céu estava limpo: luziam estrelas. O vento assobiava mais forte. O navio tinha Criado dos quartos. aquela oscilação lúgubre de bombordo a esti bordo, que têm os grandes peixes mortos quando bóiam ao cimo da água. Olhei os astros, o céu impassível, a água negra — e senti um imenso desprezo pela vida.Em rodado mim a cada instante ouviam-se versões contradi tórias. U ns diziam que ficaríamos à capa, esperando firmemente o mau tempo; outros que o navio estava perdido... Um oficial disse ao passar;- Oh, senhores! Isto não vale nada: conserta-se; já me acon teceu duas vezes de Adem a Bombaim.Não havia a menor confusão ; tudo continuava tão sereno e re gular, como se caminhássemos num largo rio, à clara luz do Sol. O comandante, enfim, apareceu:
— Meus senhores — disse ele -, é apenas um contratempo. Houve um desarranjo gravena máquina. Não sei se poderei navegar. Com calmaria, talvez. Mas com o vento que vem sobre nós, é caso para um atraso de quatro ou cinco dias.No entanto, o vento crescia. Havia por todo o mar flocos de es puma. Ouvia-se no horizonte um ruído surdo, como o marchar de mil batalhões.
A maior parte dos ingleses, pesados de sono e de vinho, tinham voltado para ascabinas, indiferentes ao perigo. Algumas ladies, transidas, mas graves, ficaram no convés. Em baixo, os engenheiros e os maquinistas trabalhavam pode rosamente, e sem cessar.Captain Rytmel aproximou-se de mim.
— É um perigo, e é um perigo sem luta. Este imbecil deste comandante navegou de mais para sul. Estamos perto da costa de África. Se o vendaval nos apanha agora atira-nospara lá... Toda via, o nosso engenheiro de bordo, Persnester, é um homem de gé nio. Onde está a condessa?
Descemos à sala comum. A condessa lá estava encostada, à me sa, serena e pálida.- Suba, prima, suba — disse eu. — Ao menos em cima vê-se o céu, a água e o perigo!
Viemos encostar-nos à amurada, agarrados às cordagens. As estrelas davam umaclaridade nebulosa. As ondas profundamen te cavadas, orladas de espuma, reluziam sob aquela luz vaga. O vento era terrível.
— Porque não deitam lanchas ao mar? — dizia a condessa. -Ao menos lutava-se, havia acoragem. Mas ser arremessado o paquete para a África como uma baleia morta!...
Ela quis passear, mas o movimento do navio era muito vio lento; era necessárioencostar-se ao braço de Captain Rytmel. Eu dificilmente me equilibrava. A pancada da onda contra o costado tinha um som lúgubre. A sineta de bordo tocava com uma voz des consolada as horas e os quartos. Tinham-se acendido mais faróis no alto dos mastros. O ruído do vento,de temeroso, parecia uma passagem violenta de almas condenadas.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.