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#Romances#Literatura Brasileira

O triste fim de Policarpo Quaresma

Por Lima Barreto (1915)

O seu primeiro trabalho foi ir à vila. Ficava a quatro quilômetros adiante da casa de Quaresma e a estrada de ferro tinha uma estação lá. Ricardo dispensou a estrada e foi a pé, pela estrada de rodagem, se assim se pode chamar um trilho, cheio de caldeirões, que subia e descia morros, cortava planícies e rios em toscas pontes. A vila!... Tinha duas ruas principais: a antiga, determinada pelo velho caminho de tropas, e a nova, cuja origem veio da ligação da velha com a estrada de ferro. Elas se encontravam em T, sendo o braço vertical o caminho da estação. As outras partiam delas, as casas juntavam-se urbanamente no começo, depois iam espaçando, espaçando, até acabar em mato, em campo. A antiga chamava-se Marechal Deodoro, ex-Imperador; e a nova, Marechal Floriano, ex-Imperatriz. De uma das extremidades da Rua Marechal Deodoro, partia a da Matriz, que ia ter à igreja, ao alto de uma colina, feia e pobre no seu estilo jesuítico. À esquerda da estação, num campo, a Praça da República, a que ia dar uma rua mal esboçada por espaçadas casas, ficava a Câmara Municipal.

Era um grande paralelepípedo de tijolo, cimalha, janela com sacadas de grade de ferro, puro estilo mestre-de-obras. Compungia essa pobreza de gosto a quem se lembrasse dos edifícios da mesma natureza das pequenas comunas francesas e belgas da Idade Média.

Ricardo entrou num barbeiro na Rua Marechal Deodoro, Salão Rio de Janeiro, e fez a barba. O fígaro deu-lhe informações sobre a vila e ele se deu a conhecer. Havia certos circunstantes, um deles tomou-o a seu cargo e daí em pouco estava relacionado.

Quando voltou para a casa do major já tinha convite para o baile do Doutor Campos, presidente da Câmara, festa que teria lugar na quarta-feira próxima.

Chegara sábado e fora passear à vila domingo.

Tinha havido missa e o trovador assistiu à saída. A concorrência nunca é grande na roça, mas Ricardo pôde ver algumas daquelas moças do interior, linfáticas e tristes, ataviadinhas, cheias de laços, descendo silenciosas a colina em que se erguia a igreja, espalhando-se pela rua e logo entrando para as casas, onde iriam passar uma semana de reclusão e tédio. Foi na saída da missa que lhe apresentaram o Doutor Campos.

Era o médico do lugar, morava, porém, fora, na sua fazenda, e viera de “aranha” com a sua filha, Nair, assistir o ofício religioso.

O trovador e o médico estiveram um instante conversando, enquanto a filha, muito magra, pálida, com uns longos braços descarnados, olhava com um vexame fingido o solo poeirento da rua. Quando eles partiram, ainda Ricardo considerou um pouco aquele rebento dos ares livres do Brasil. À festa do Doutor Campos, seguiram-se outras a que Ricardo deu a honra de sua presença e a alegria da sua voz. Quaresma não o acompanhava, mas gozava a sua vitória. Se bem que o major tivesse abandonado o violão, ainda continuava a prezar aquele instrumento essencialmente nacional. As conseqüências desastrosas do seu re- querimento em nada tinham abalado as suas convicções patrióticas. Continuavam as suas idéias profundamente arraigadas, tão-somente ele as escondia, para não sofrer com a incompreensão e maldade dos homens.

Gozava, portanto, a fulminante vitória de Ricardo, que indicava bem naquela população a existência de um resíduo forte da nossa nacionalidade a resistir às invasões das modas e gostos estrangeiros.

Ricardo recebia todas as honras, todos os favores, por parte de todos os partidos. O Doutor Campos, Presidente da Câmara, era quem mais o cumulava de homenagens. Naquela manhã até esperava um dos cavalos do edil, para dar um passeio ao Carico; e, esperando, foi dizendo a Quaresma, que ainda não tinha partido para o eito:

- Major, foi uma boa idéia vir para a roça. Vive-se bem e pode-se subir...

- Não tenho nenhum desejo disso. Você sabe como me são estranhas todas essas cousas.

- Sei... É... Não digo que se peça, mas, quando nos oferecem, não devemos rejeitar, não acha? - Conforme, meu caro Ricardo. Eu não podia aceitar encargo de comandar uma esquadra. - Até aí não vou. Olhe, major: eu gosto muito de violão, mesmo dedico a minha vida ao seu levantamento moral e intelectual, entretanto, se amanhã o Presidente dissesse: “Seu Ricardo, você vai ser deputado”, o senhor pensa que eu não aceitava, sabendo perfeitamente que não podia mais desferir os trenos do instrumento? Ora, se não! Não se deve perder vaza, major.

- Cada um tem as suas teorias.

- Decerto. Outra cousa, major: conhece o Doutor Campos?

- De nome.

- Sabe que ele é presidente da Câmara?

Quaresma olhou um instante para Ricardo com uma ligeira desconfiança. O menestrel não notou o gesto do amigo e emendou:

- Mora daqui a uma légua. Já lhe toquei em casa e hoje vou a cavalo passear com ele.

- Fazes bem.

- Ele quer conhecê-lo. Posso trazê-lo aqui? - Podes.

(continua...)

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