Por Adolfo Caminha (1895)
E foram subindo a escada, ela com o braço no ombro do rapazinho, ele muito sério, muito desconfiado, os olhos baixos, uma expressão melancólica no rosto púbere. — Que lembrança fechar a porta da rua àquela hora!.. E a portuguesa beijando-o na face:
— Não te zangues, meu jasmim, não te zangues. Porta fechada livra de tentações... Deu-me uma cousa, um medo...
— Qual tentações, qual medo! Você já não é criança para andar se escondendo... Isso até faz a gente desconfiar.
Mas D. Carolina não queria dizer a verdade, os seus escrúpulos com relação à Bom-Crioulo, o caso do bilhete. Para que sobressaltar Aleixo? Ele bem sabia que o outro não o abandonava facilmente: negro é raça do diabo, raça maldita, que não sabe perdoar, que não sabe esquecer... Aleixo bem conhecia o gênio de BomCrioulo. De resto, o caso do bilhete era uma tolice em que ninguém devia pensar: — Cousas de negro...
— Olha, ó pequenino, juro-te que não fecharei mais a porta da rua. Sossega, ouviste? sossega...
Estavam na alcova. O grumete corria o olhar nos móveis, na cama, pelo quarto e pela sala, como quem procurava descobrir vestígios de infidelidade. A mulher ajudava-o a se despir, tomando-lhe a roupa úmida de suor, toda cheia de cautelas para que ele não se constipasse. — Olha, muda a camisa; olha, toma um o pouquinho de aguardente; olha, cuidado com o vento; olha os chinelos...
Nunca vira tanto carinho, zelo tanto. A portuguesa multiplicava-se em dedicações, em ternuras quase infantis, desejando até que ele a maltratasse, que ele a espezinhasse. O olhar azul de Aleixo tinha sobre ela um poder maravilhoso, uma fascinação irresistível: penetrava o fundo de sua alma, dominando-a, transformando-a num pobre animal sem vontade, queimando-a como uma brasa ardente, impelindo-a para todos os sacrifícios... Perto dele, fugiam-lhe todos os receios, todas as dívidas: era capaz de atirar-se a um homem, de morrer na ponta de uma faca, de assassinar, de fazer loucuras!
Nesse dia principalmente, ao contrário da véspera, em que ela, no meio de seus temores, desejava ver-se longe do rapazinho, nesse dia principalmente achava-se de uma bondade maternal: a amizade convertera-se-lhe numa espécie de fanatismo, numa adoração religiosa. Beijava-o a cada instante, meiga, cariciosa e feliz, como se todas as virtudes estivessem reunidas ali, no olhar de Aleixo, nesse olhar ideal, de uma doçura infinita.
— Tu és o meu santo, ó pequenino, dizia ela; tu és a minha única felicidade neste velho mundo tão cheio de misérias...
E abraçava-o, rilhando os dentes, nervosa, excitada, oferecendo-se ao rapazinho numa fúria sensual e mórbida.
— Mas, que diabo é isso, filha, estás louca? ralhava o grumete cuja fisionomia, desde que chegara, não se abrira num sorriso amável: — que desespero é esse?
— Oh! mas eu te quero tanto bem, meu queridinho, eu te amo tanto!
Ele não disse palavra. O jantar correu frio. D. Carolina retraiu-se por sua vez, humilhada com as maneiras de Aleixo, porque ele, seco e indiferente, não lhe fazia o menor agrado. Ambos permaneceram calados, como duas pessoas estranhas na mesa de um hotel. Mas, para o fim, ela não pode suportar aquele silêncio incômodo.
— Que te fiz eu, ó filho, dize, que te fiz eu? Não me encontraste só, em casa, trabalhando, mourejando? Que te fiz eu?
Aleixo continuava mudo, os beiços agitados por um tremor convulso, o olhar na parede.
— Vamos, dize, que te fiz eu? insistiu a portuguesa tocando-lhe no braço. Hás de ter alguma razão para te zangares...
Ele, porém, não se movia, não dava resposta, impenetrável na sua mudez obstinada e cruel, que estava quase arrancado lágrimas à mulher. Então D. Carolina sentiu um desespero n’alma, e, erguendo-se triste, foi-se para a alcova, maldizendose, lamentando a “sua desgraça”: — Que era uma infeliz, que todos a desprezavam, que estava cansada de sofrer, que a vida era um inferno, que preferia morrer!
— Para que fechou, então, a porta da rua? tornou ele. Há algum mistério nesta casa? A senhora não me esperava hoje?
— Ó filho, pois eu já não te disse que fechei apor causa de um medo que me assaltou de repente?...
— Que medo, senhora, que medo! Para tudo há desculpa. A senhora não está procedendo bem...
D. Carolina tinha se deitado na cama, fungava, limpando os olhos com o avental, muito queixosa.
— Donde é que veio esse medo hoje? Todos os dias a senhora não abre a porta, não a deixa escancarada?
— Está você fazendo barulho à toa, por uma ninharia... Ou o homem tem confiança na mulher ou não tem. Você nunca me encontrou com outro, para fazer mau juízo da gente...
— Bom, mas, então, seja franca, explique-se. Por que é que fechou a porta da rua?
Havia já um princípio de reconciliação. Aleixo aproximara-se da cama sensibilizado pela voz magoada da portuguesa que lhe botava uns olhos muito ternos, muito cheios de humildade e resignação.
(continua...)
CAMINHA, Adolfo. Bom-crioulo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16513 . Acesso em: 27 mar. 2026.