Por Aluísio Azevedo (1880)
Miguel viu chegar um vulto e estremeceu reconhecendo-o; os seus olhos reverberavam com mais vermelhidão; os seus lábios semi-abertos sussurraram alguns sons confusos e ásperos, enquanto o recém-chegado, satisfeito de si, esfregava as mãos, saboreando o aspecto festivo e luxuoso do edifício; depois, o vulto sentou-se meditativo no banco de pedra e permaneceu algum tempo de cabeça baixa e gesto concentrado.
Profundo devia ser esse meditar que não dava de perceber os passos abafados de Miguel, que, como uma pantera, se encaminhava das sombras da gruta para ele, sem lhe arredar de cima os olhos ardentes e raiados.
O artista, ao chegar às costas do velho, estacou e entrou consigo a contemplá-lo em atencioso silêncio, indicando, com um movimento afirmativo de cabeça, o bom resultado de suas observações; alguns segundos depois, chegou-se mais dele e de rijo tocou-lhe com a mão no ombro.
O vulto voltou-se de súbito e, encarando o rosto transformado do artista, desviava vagarosamente o seu, aterrado pela fixidez sinistra dos olhos cavos e luzentes, que pareciam querer devorá-lo; Miguel inclinou-se para ele a rir-se surdamente, com esse rir que exprime o contentamento da vingança que se vai fartar, o rir do faminto que depois de longa viagem descobre o que comer.
O vulto, segurando-se com a mão fria na pedra ainda mais fria do banco, continuava a retrair-se, como atacado de cólicas horríveis; torpor aviltante corria-lhe pelos membros frouxos e enervados e transpirava-lhe no gesto suarento o medo com todas as suas cores mais vergonhosas.
Contemplavam-se os dois, trêmulos... um de raiva, o outro de medo.
CAPÍTULO XI
O que tremia de medo era Maffei.
O conforto da riqueza e o roçar áspero dos anos poiram-lhe o vigor primitivo; o remorso, colaborando nessa obra de destruição, acaba por extinguir-lhe a força moral, que dantes lhe luzia feroz no olhar. Sentia-se apequenado em presença de Miguel a quem tinha por morto.
O vulto transformado da sua vítima, que já em sonhos o houvera perseguido, aparecia-lhe agora, real, palpável, como se fora a própria imagem do remorso; afigurava-se-lhe Miguel salvo naquele instante, saindo do mar; parecia-lhe até ver a umidade do cabelo e sentir-lhe o cheiro de sangue.
O olhar fixo e desvairado do moço refletia-se-lhe na consciência, como uma luz condenatória e daí persistia a fitá-lo; o sorrir cadavérico de Miguel derramava-se como um filtro de ironias pelos membros lassos do velho e o fazia estremecer; era um sorrir trágico de caveira a fitá-lo com os dentes ameaçadores e ferozes.
A imobilidade do moço impunha ao outro a mesma imobilidade, e no entanto a arrogância daquele não incutia neste o mesmo sentimento; Maffei, ao contrário, cada vez mais se desapercebia de ânimo e forças.
Enquanto isto sucedia no jardim, o baile continuava a folgar indiferente.
Miguel, afinal, chegando à cara pálida de Maffei a boca arreganhada, rebentou medonha e cavernosamente:
— Velho amaldiçoado! mau! ambicioso! és o único obstáculo de minha ventura! és a minha asa negra! o meu pesadelo! a minha raiva! a minha desgraça! o meu ódio! o meu mal! o meu crime! Queres, bruto, regenerar-te? queres por uma vez abaixar este braço, que a tua maldade levantou sobre a tua cabeça, velho estúpido?! dá-me a mão de tua filha. Já! Peço-ta de joelhos, cão! Responde!... Queres?!...
Maffei estremeceu como se fora acordado de um sonho mau por uma chuva de pedras. As palavras de Miguel despertaram-no, chamando-lhe o sangue à cabeça com o efeito de um aluvião desencontrada de bofetadas, voltou a si e fez um movimento para erguer-se.
— Responde! Gritou asperamente Miguel, descarregando-lhe com força nos ombros os punhos impacientes e nervosos. Responde! E o obrigou a ficar sentado.
Responde!
— Nunca! atroou energicamente Maffei e ergueu-se de ímpeto!
Miguel, porém, em meio da resposta, rápido abarcara-lhe o pescoço, encravando-lhe pelas carnes as unhas doidas e assanhadas. Um ronco surdo e gutural fundiu-se confusamente na turbulência aguardentada do baile.
E o moço não desgarrava da vítima as unhas envenenadas pela cólera velha e sedenta de vingança, continuava a asfixiá-la.
Como uma lagarta no fogo o velho torcia-se, esforçando-se por gritar e erguer-se. Embalde! Miguel lograra pôr-lhe um joelho de bronze sobre o esôfago e, empregando com bruteza toda força do corpo, oprimia-o contra a pedra do banco.
Roxidão apoplética cobriu a cara e as unhas do pai de Rosalina; um suor abundante e úmido escorria-lhe da cabeça, inundando as mãos frenéticas do assassino.
E o roncar moribundo e bestial do velho, mal casado com o ranger dos dentes do moço, contrastava com a turbulência folgazã e sensual da dança, da embriaguez e do jogo, que além fermentavam nos salões do baile, como fermentam as larvas numa podridão.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. Uma lágrima de mulher. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16538 . Acesso em: 25 mar. 2026.