Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

Estes cavacos faziam-se pelo alto dia, a horas de mais calor, e, muita vez, também a noite, das sete às nove, durante o serão. O rapaz, sempre respeitoso, assentava-se, defronte da maquina em que Ana Rosa costa, e com um livro entre os dedos ou a rabiscar algum desenho, conversavam tranqüilamente, com grandes intervalos. As vezes dava lhe para pedir explicações sobre a costura; queria saber, com um interesse pueril e carinhoso, o modo de arrematar as bainhas, de tirar os alinhavos; outras vezes, distraídos, falavam de religião, política, literatura, e Raimundo, de bom humor, concordava em geral com tudo o que ela entendia, mas, quando lhe dava na cabeça, discordava, de manhoso, para que a menina se exaltasse, discorresse sobre o ponto, e ralhasse com ele, procurando, muito seria, chamá-lo a verdade religiosa, dizendo-lhe “que não fosse maçom e respeitasse a

Deus!”

Raimundo, que nunca, depois de homem, vivera na intimidade da família, dedicava-se com aquilo. D. Maria Bárbara, porem, vinha quase sempre quebrar com o seu mau gênio aquele remanso de felicidade. Em cada vez mais insuportável o diabo da velha! berrava horas inteiras tinha ataques de cólera; não podia passar muito tempo sem dar pancadas nos escravos. O rapaz, por diversas vezes, enterrara o chapéu na cabeça e saíra protestando mudar-se.

— Que carrasco! dizia a descer a quatro e quatro os degraus. Da bordoada por gosto! Diverte-se em fazer cantar o relho e a palmatória!

E aquele castigo bárbaro e covarde revoltava-o profundamente, punha-o triste, dava-lhe ímpetos de fazer um despropósito na casa alheia. “Estúpidos!” exclamava a sós, indignado. Mas, como a mudança não fosse tão fácil, contentava-se ele com o passar uma parte do dia no bilhar do único restaurante da província, não sem pena de abandonar as inocentes palestras da varanda.

Em breve criou fama de jogador e bêbado.

O fato era que, por tudo isto, lhe minava o espírito uma surda repugnância pela província e contra aquela maldita velha. Quando o estalo do chicote ou dos bolos rebentava no quintal ou na cozinha, Raimundo repelia a pena com que trabalhava no quarto.

— Lá está o diabo! Nem me deixa fazer nada! arre!

E saía furioso para o bilhar.

Ora, Ana Rosa, era também contra o castigo, e o procedimento da avó foi um pretexto para a sua primeira solidariedade de pontos de vista com o primo; os dois conversavam em voz baixa contra Maria Bárbara, e esta conspiração aproximava-os mais um do outro, unia-os. Mas um belo dia, em que o Benedito levou uma mela mais estrada, Raimundo chegou-se a Manuel e falou-lhe resolutamente em mudança. “Que sabia estava incomodando e não queria abusar. O Sr. Manuel que tivesse paciência e lhe arranjasse uma casinha mobiliada e um criado...”

— O que, homem!... protestou logo Manuel, a quem não convinha a mudança do seu hóspede antes de realizada a compra da fazenda. O doutor pensa que está na Europa ou no Rio?... Pois então casinhas mobiliadas e com criado, isto é lá coisa que se encontre por cá?... Ora deixe-se disso!

E, como o sobrinho insistisse, continuou declarando que semelhante exigência, sobre ser quase inexeqüível acarretava para ele, Manuel, certa odiosidade. “Que não diriam por ai?... Diriam que Raimundo fora tão maltratado pelos parentes de seu pai que preferira sepultar-se entre quatro paredes a ter de aturá-los!”

— Não senhor! concluiu ele, afagando-lhe o ombro com uma palmada, deixe-se ficar cá em casa, pelo menos ate o verão - em agosto, iremos juntos ver a fazenda — e, como por esse tempo já todos os seus negócios estarão liquidados. ou o senhor volta para a Corte, ou se instala aqui mesmo na província, porém com decência! Não lhe parece isto acertado? Para que fazer as coisas mal feitas?...

Raimundo consentiu afinal, e, desde então, esperava o mês de agosto com uma impaciência de faminto. Não era tanto a vontade de fugir a Maria Bárbara o que lhe fazia desejar com tamanha febre aquela viagem ao Rosário, mas o empenho a sede velha de tornar a ver o lugar, em que lhe diziam, tão secamente, ter ele nascido e vivido os seus primeiros anos. “E daí, quem sabe lá se não iria encontrar a decifração do mistério da sua vida?...”

Esperou, e na espera entretinha-se todos os dias com Ana Rosa, tanto e com tal satisfação, que ainda nos princípios de junho, confessava já não lamentar a dificuldade da mudança. Ao contrario, pressentia até que já não podia realizá-la, sem sofrer pela falta daquele conchegozinho de família sem curtir grandes saudades por aquela irmã, sua amiga, franca e delicada, que lhe dera a provar pela primeira vez o suavíssimo prazer da convivência em família.

Efetivamente, a filha de Manuel já era muito chegada a Raimundo...

O tratamento de excelência desaparecera como inútil entre parentes que se estimam; os sustos, os sobressaltas, as desconfianças, que dantes a acometiam na presença daquele moço austero e na aparência tão pouco comunicativo, foram substituídos, graças às providências do negociante sobre Maria Bárbara, por momentos agradáveis, cheios de doçura, em que o primo, ora contava com graça as peripécias de uma jornada; ora desenhava a lápis a caricatura dos conhecidos da casa; ora solfejava alguma melodia alemã ou algum romance italiano; ou, quando menos, lia versas e contos escolhidos.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...3637383940...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →