Por Aluísio Azevedo (1895)
Durante a viagem de trem, e principalmente depois de chegados à fazenda, meu genro, que não deixava a mulher um só instante, furtava-lhe beijos sempre que eu me afastava deles, ou quando me supunham muito distraída. Não os perseguia nem rondava, mas também não lhes facilitava ocasiões para os arrulhos. A gente da casa não sabia se eles eram irmãos, ou primos, ou casados, ou noivos, ou simplesmente namorados. O quarto de Palmira era distante do quarto do marido, e entre os dois estava o meu. Esta disposição foi intencionalmente estabelecida por mim: se eles com efeito se sentissem arrebatados um para o outro, o próprio desejo havia de aproximá-los de qualquer modo, não era absolutamente necessário que os fechasse eu dentro da mesma prisão, como fizeram comigo e Virgílio, e como se faz com as cadelas e os cães de raça que têm de procriar.
Como eles se uniram pela primeira vez, em que ocasião e em que circunstâncias, só vim a saber meses depois, narrado comovidamente por minha filha, que até hoje guarda a mais doce, a mais poética e consoladora impressão desse momento de completa felicidade.
Nem foi em casa, foi num sombrio, ignorado canto da mata deserta, sítio protetor de outros amores, de cujos suspensos ninhos partiam bíblicos duetos de ternura. Não foi sobre colchas bordadas, nem lençóis de renda adrede preparados, mas no regaço carinhoso da floresta, ao casto e lascivo respirar da natureza, na confidência maternal da terra.
Tínhamos chegado à fazenda às onze horas da manhã, com tal fome que, mal nos desfizemos do pó da viagem, atiramo-nos ao almoço vorazmente. Almoço de roça, que são os melhores, porque são os que se comem com mais apetite. Depois não pude resistir ao cansaço daquele dia tão cheio, deitei-me, e quando acordei soube que minha filha tinha ido dar um giro pelo campo com o — namorado. Achei natural, e nada lhes notei na fisionomia quando os vi de volta às cinco horas da tarde. Apenas uma coisa me impressionou suavemente, é que Leandro, ao entrar em casa, tomou-me as mãos com meiguice e deu-me um beijo na testa. Com esse beijo quis ele naturalmente dizer que já era meu filho, mas na ocasião não dei por isso, notei sim que as suas roupas, como os cabelos de Palmira, respiravam cheiro de folhas verdes esmagadas.
Seu eu reproduzisse aqui a descrição que dela ouvi desse furtivo passeio ao fundo da mata virgem, deixaria entre estas pobres linhas uma vivida página de romance, mas como não sou romancista, nem estou fazendo literatura, mas tãosomente escrevendo uma justificação de meus atos de mãe e sogra, destinada a dois únicos leitores — minha filha e meu genro, nada direi do que então se passou entre eles, mesmo porque, a respeito de tal cena, é o caso de afirmar com segurança que os meus leitores a conhecem já melhor do que eu.
Foi no mesmo dia, e eu, tola que sou! imaginava ainda que os brejeiros esperassem ao menos pela noite. E o mais curioso é que nunca percebi, mesmo depois, as vezes em que eles se uniram. Durante o dia estávamos quase sempre juntos; às horas de recolher cada um ia para o seu quarto, depois de enchermos o serão a fazer música ou canto, ou jogando cartas, até à ocasião do chá; e durante a noite nunca ouvi o ruído de uma porta que se abrisse ou fechasse, nem senti passos na varanda, nem rumor de cochichos abafados nos aposentos dela ou dele. Podem gabar-se, os matreiros, de terem sido umas verdadeiras abelhas do amor.
Nessa ocasião o meu empenho único a respeito deles, era não deixar que faltassem ao preceito imposto pela Bíblia no Levítico, vers. 19, do seu cap. XV, ficando ao lado um do outro durante o período condenado. E assim foi. Logo que percebi a aproximação da crise, mandei fazer as malas e determinei levantarmos acampamento na manhã seguinte, sem dar ouvidos às súplicas e às reclamações dos dois.
Meu genro parecia ter endoidecido com o fato, amuou-se, resmungou, não quis jantar; contentei-me pela minha parte em lembrar-lhe as condições do casamento.
Ele, sem se resignar de todo, recorreu então aos meios humildes; tomou-me nos braços, beijou-me, pediu-me por amor de Deus que lhe concedesse mais uma semana de lua-de-mel, apenas uma semana!
Fui inflexível; se cedesse logo à primeira vez, estaria desmoralizado para sempre o meu programa.
A volta da fazendo foi por conseguinte quase muda e muito triste. Palmira chorava em silêncio ao canto de um banco do vagão; o marido, ao lado dela, de pernas cruzadas, sobrolho franzido e dentes cerrados, não emitia palavra, nem desviava os olhos de um só ponto, a não ser para desferir de vez em quando, contra mim, um fulminante olhar de ressentimento e raiva. Ia furioso!
E, já na cidade, lá em casa nas Laranjeiras, as despedidas foram dolorosas.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O livro de uma sogra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16536 . Acesso em: 24 mar. 2026.