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#Romances#Literatura Brasileira

O Sacrifício

Por Franklin Távora (1879)

— Não direi que a senhora não tem razão, D. Maurícia, mas devo observarlhe que as minhas crias de casa são muito moralizadas; e que até agora nada me constou ainda de seu marido, que o fizesse descer do conceito que formo dele. A senhora pede-me providências, mas que providências posso dar, a não ser a de não consentir mais na continuação de minha escrava em sua casa? Essa providência tenha por certa, ainda que me pese privá-la de quem lhe preste serviços domésticos, que a senhora não está acostumada a praticar. Pelo que respeita aos conselhos, só tenho uma judiciosa sentença que lhe lembrar; é a seguinte: a mulher, que dá o devido valor à sua honra, longe de por em praça pública as fraquezas da sua casa, é a primeira que as encobre, ainda que daí resultem danos e desgraças.

Maurícia não pode dizer uma palavra diante desse procedimento tão cru, e voltou decidida a não por mais os seus pés na casa-grande. Reconheceu, então, que estava só em frente do seu infortúnio; só como não se vira jamais! Muito cara lhe ia saindo a felicidade de sua filha. Teve por instantes o pensamento de acabar com os seus dias, mas faltou-lhe o ânimo que requer este passo extremo. Quando o funesto pensamento passou de todo, outro veio ocupar o seu lugar na imaginação escaldada na infeliz vítima - o de fugir para a companhia de Ângelo; mas duas razões se opuseram a que tão grava idéia chegasse a realizar-se; em primeiro lugar, Ângelo havia de votar-lhe agora, em vez do amor de outrora, ódio e desprezo, únicos sentimentos, que o procedimento dela, resolvendo-se a voltar à vida conjugal, devera inspirar-lhe; em segundo lugar, repugnava ao seu caráter e ao seu imenso amor procurar o bacharel como quem fugia covardemente de um grave passo na vida. A ocasião de levar a efeito a fugida tinha passado, Se esta se houvesse realizado no tempo próprio, ela teria chegado à casa de Ângelo, como a primavera chega aos campos desolados, por entre flores e graças; seria objeto de adoração espontânea e grata; pequena, se fosse aferida pelo dever, mostrar-se-ia de grandeza descomunal na medida da paixão de que ela era ídolo sobrenatural, a quem o jovem bacharel queimaria, então, o melhor incenso do seu afeto. Agora, porém, era tudo muito diferente. Ela própria já não tinha no rosto as graças que tanto havia imposto a Ângelo o culto da beleza. Os olhos estavam amortecidos, as faces estavam crestadas do continuado pranto. Não eram já os mesmos encantos que davam a sua conservação particular valor. A sua voz desaprendera grande parte dos delicados segredos que traziam o bacharel rendido aos seus pés; havia quase dois meses que ela não vivia para o mundo da arte, que, aliás, tanto a cativara nos tempos da sua maior liberdade. O piano mudo; as músicas debaixo de uma crosta de pó sobre uma mesa ao canto da sala; os livros trancados na pequena estante, e nenhum ao seu lado, ou ao alcance da sua mão, testemunhavam que lhe entrara na vida outro sistema, outro regime inteiramente oposto ao que dera conveniente educação aos seus dotes naturais, e criara nela o gosto pelas coisas do espírito, que a suas inclinações tornaram de fácil aquisição.

Maurícia sentou-se numa poltrona no gabinete, onde passara a noite. Combalida de tantas impressões, o cansaço e a luta interior puderam vence-la, quando ela mais se preparava para refletir sobre a gravidade da conjuntura atual. Adormeceu ali mesmo.

Uma cena curiosa representava-se nesse momento à beira do rio, que banha a povoação de Caxangá, e Paulo era dela espectador mudo e abalado.

Deixando os negros no serviço, fora ele tomar banho à sombra de umas árvores copadas, juntos das quais passava o rio. O ponto era inteiramente ermo. À direita, morriam os canaviais e à esquerda estendia-se um capinzal vasto. Corriam pelo meio as águas, deixando do lado do engenho, entre elas e as últimas touceiras de cana, uma pano de área descoberto; lambiam as raízes salientes do arvoredo; e desapareciam obra de cem passos adiante por baixo de uma vegetação aquática muito cruzada e basta, que se confundia no capinzal.

Antes de descobrir a natural banheira formada pelo rio, Paulo ouviu o ruído de vozes e o ressoar de risos esganiçados, que não lhe pareceram de todo estranhos. A natural curiosidade o fez cauteloso. Abaixou-se algum tanto, e por entre as folhas das canas descobriu o ponto donde vinham tais rumores. Eis o que viu. Estavam dentro da água um homem e uma mulher. Brincavam, riam-se, mergulhavam e davam cambapés estrepitosos. Quando a mulher gritava com mais força, ou fazia nas águas mais barulhos, o homem recomendava-lhe moderação e silêncio; mas não tinham essas recomendações a menor importância para ela, que prosseguia com os seus movimentos agitados e aumentava o diapasão das suas vozes.

(continua...)

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