Por Franklin Távora (1878)
Tratou-se então de principiar logo o samba. Esta providencia era aconselhadas pelo interesse comum. Era o meio de prender os hospedes a casa. Além disso não faltava nada para começar a dança. Uma das primeiras violas do lugar – o Chico Pedro; uma das primeiras vozes – Lourenço; os melhores dançadores – Nicolau e Roberto, estavam todos ali. Não faltava aguardente, nem milho verde, nem bolos. As raparigas mostravam-se bem dispostas, e algumas até impacientes por verem formar-se a roda. A fogueira dava estalidos festivos. O tempo prometia limpar. O concurso dos convidados engrossava cada vez mais. Enfim, em menos de um quarto de hora, bateu o pinho, e rompeu o samba de gosto.
Lourenço, tendo tomado uma pouca da cana, temperou a guela e soltou sua grande voz ao pé do violeiro, enquanto Bernardina, Mariquinha, as filhas da Bernarda, os sobrinhos do velho Cosme, o Manoel João, o Jacinto da Luzia e muitos outros caiam na roda por sua vez, tripudiando, fazendo recortes e negaças com o corpo, atirando embigadas na forma do imemorial estilo.
O canto de Lourenço era monótono como o dos sambistas em geral, mas a letra variava e tinha as graças naturais das composições do povo.
Eis algumas das quadras com que o rapaz gratificou a companhia. Muitas delas ainda hoje em dia têm extensa voga entre os matutos de Pernambuco, aos quais as ouvi mais de uma vez, jornadeando, entre fins de novembro e princípios de dezembro, do Recife para Goiana nos meus tempos escolares. Elas pertencem exclusivamente ao povo, e eu aqui as dou com a exatidão com que as recebi da grande musa que as produziu.
Minha mulata, eu tenho
Vontade de te servir;
De dia falta-me o tempo,
De noite quero dormir.
Vou-me embora, vou-me embora
Para minha terra vou;
Se eu aqui não sou querido,
Lá na minha terra sou.
Quando eu me for não choreis,
Que são penas que me dais;
Deixai o chorar prá mim,
Que eu me vou, não venho mais.
Manjericão verde-escuro
Tem a folha miudinha;
Só em te ver eu te amo:
Que fora se fosses minha?
Passei pela tua porta,
Pus a mão na fechadura;
Eu falei, tu não falaste,
Coração de pedra dura.
Meu passarinho tão manso,
Das minhas mãos escapou;
Para mais penas me dar,
Penas nas mãos me deixou.
- Molha a guela, Lourenço, molha a guela com a patricia – disse neste ponto ao cantador o Ignacio Macambira. A patricia é o vinho do pobre – acrescentou Chico – rosado.
E Victorino, despejando aguardente na xícara, que não estava quieta um só instante em cima da banquinha do canto da sala, apresentou-a a Lourenço, que dela tomou um trago forte.
Mas como se sentia cansado, poucos versos cantou ainda, e concluiu pelo seguinte:
As convivências do mundo
São amparo da pobreza;
Enquanto o pobre convive,
Não se lembra da riquez
- Aqui está o lugar para quem quiser, minha gente, disse ele, sentando-se.
- Deste tão cedo parte de fraco?
- É enquanto tomo fôlego.
- Quem vem? Quem vem? perguntou o violeiro. Quem vem, venha logo, que o fogo está esfriando. - Vai tu, Bernardina – disse Victorino.
- Muito bem, Victorino.
- Logo, logo, Bernardina.
A rapariga foi ocupar o lugar deixado por Lourenço.
XIV
A voz de Bernardina era volumosa e límpida. As mulheres invejavam a filha mais velha de foreiro este grande dote que atraia os homens a ela e lhe dava o prestigio e o renome de uma sereia. Não sendo tão bonita, como a irmã, via entretanto em roda como de se um sem numero de entusiastas e adoradores sempre que exercitava o seu divino privilegio. Por isso, quando rapariga se encaminhou para o lugar que Lourenço deixara desocupado, surdo rumor, indicio da curiosidade, se fez ouvir em todos os cantos do casebre. Seguiu-se-lhe porém logo profundo silencio. Eis os versos que a matutinha cantou por entre aplausos repetidos e frenéticos:
Benzinho, quando te fores,
Escreve-me do caminho;
Se não achares papel,
Nas asas de um passarinho.
Assim, assim, Bernardina – disseram três ou quatro convivas, enfeitiçados do desembaraço, já conhecido, da filha do dono da casa.
A rapariga, requebrando-se senhorilmente, prosseguiu relanceando os olhos para o namorado, que a esse tempo, já tinha desamparado o terreiro e encostado a um canto o clavinote:
Da boca faze o tinteiro,
Da língua pena aparada,
Dos dentes letra miúda,
Dos olhos carta fechada.
Oh, que rapariga candeia! exclamou o Ignacio Macambira, sem poder conter o entusiasmo, acrescentado pela cana.
Bernardina prosseguiu:
Manjericão verde cheira,
Ele seco cheira mais;
Mulher que se fia em homem
Anda sempre dando ais.
Eu de cá e tu de lá,
Fica um rio de permeio;
Tu de lá dás um suspiro,
Eu de cá suspiro e meio.
Meu coração é de vidro,
Feito de mil travações:
Com qualquer coisa se quebra,
Não atura ingratidões.
Longo tempo levou Bernardina a cantar, ora variando, ora repetindo as letras ao paladar dos circunstantes.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.