Por Bernardo Guimarães (1872)
Este sonho impressionou-o vivamente. Era uma revelação; a vontade do céu se achava manifestada do modo mais patente e irrefragável. Entendeu que Margarida era morta, e transformada em anjo de Deus no céu como já o fora sobre a terra, viera-lhe anunciar que era só ordenando-se que se encontraria com ela na bem-aventurança. Seu destino estava decretado no céu, e a sua vocação irrevogavelmente firmada sobre a terra.
Pobre Margarida, entre ti e o teu amante uma sombra espessa se interpunha, e a estrela de luz pura e suave, que luziu sobre vossos berços, e sorriu à vossa infância, obumbrada pelas fuscas asas do gênio austero do ascetismo se eclipsava totalmente na alma do teu Eugênio.
Nessa alma agora entregue a mil beatificas alucinações, a tua imagem ia-se de todo apagando, e apenas de quando em quando lhe aparecia como visão longínqua, envolta em brumas melancólicas em um ponto obscuro do horizonte.
Pobre Margarida!
CAPÍTULO XIX
Eugênio, com o pé alçado sobre a cabeça da serpente fascinadora, achavase em véspera de cantar triunfo.
Ainda a paixão não se havia extinguido de todo; o cancro pecaminoso ainda lhe atracava ao coração seus enredados filamentos; mas o moço, premunido de ascético heroísmo, com a mão firme e resoluta havia empunhado buído escalpelo para extirpá-lo de uma vez, embora lhe custasse gritos de agonia e lágrimas de sangue.
Dispunha-se Eugênio a ir dar conta ao seu diretor das grandes vitórias que ia alcançando sobre si mesmo, e manifestar-lhe a firme e inabalável resolução em que se achava de tomar ordens sacras e até de entrar para as fileiras dos filhos de S. Vicente de Paulo, quando recebeu um recado do mesmo diretor chamando-o ao seu cubículo.
— Senhor Eugênio — disse o padre, apenas o seminarista compareceu -, acabo de receber uma carta do senhor seu pai, em que me comunica uma importante notícia. Se fosse em outros tempos eu hesitaria em dar-lhe semelhante nova, mas hoje creio posso dar-lhe sem receio de consterná-lo, certo de que a receberá com toda a sobranceria e serenidade de ânimo de um homem superior às paixões do século.
A esta linguagem Eugênio sobressaltou-se.
— Diz respeito a meus pais? — perguntou com ansiosa inquietação.
— Não, não; a esse respeito esteja tranqüilo. Estão vivos e com saúde, louvado seja Deus... É outra coisa...
— Margarida?... exclamou o moço, mas logo atalhou-se envergonhado.
— Sim, sim; essa menina, que foi criada em casa de seus pais, e sua companheira de infância, essa menina, conforme me escreve seu pai...
O padre fez uma breve reticência, como hesitando sobre o modo por que havia de exprimir-se.
— Morreu?... perguntou Eugênio tornando-se pálido como um cadáver. — Não, senhor; casou-se.
A esta revelação Eugênio estava lívido, convulso, atordoado; como se um raio houvesse estalado junto dele, apenas pôde murmurar com lábios trêmulos:
— Casou-se!... ah!... muito bem!
Como quem arranca subitamente as ataduras a uma ferida profunda, que apenas começa a cicatrizar e a faz de novo abrir-se entre dores cruéis, golfando o sangue aos borbotões, assim o padre com aquela fatal e inesperada nova veio despertar em um momento todo o ardor e frenesi da paixão que começava a adormecer no coração do moço. Turvou-lhe os olhos a sombra trêmula de uma vertigem, as pernas lhe esmoreceram, e foi-lhe mister encostar-se a uma mesa para não cair redondamente em terra.
Em vão esforçou-se por afetar tranqüilidade e resignação; forçoso lhe foi retirar-se para ocultar aos olhos do diretor a agitação do seu espírito.
Este porém, a quem não podia escapar aquela tão visível e extraordinária perturbação, não se inquietou muito com isso. Proveito conhecedor das paixões e fraquezas do coração humano, bem previa que outro não podia ser o resultado imediato daquela revelação; mas estava também certo que ela seria o golpe de morte desfechado sobre a paixão do mancebo. Passada aquela primeira irritação, um salutar desengano convencendo-o da inconstância e fragilidade das afeições mundanas, lhe serviria de escarmento eterno contra todas as seduções do espírito das trevas.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Seminarista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16585 . Acesso em: 27 fev. 2026.