Por Bernardo Guimarães (1872)
Pelo sobrescrito Lúcia logo conheceu que era de Elias. O coração pulou-lhe de alegria; ainda uma vez voltou a Deus seu pensamento agradecido. Sem demora abriu e leu o bilhete. Mas logo à primeira linha sua fronte se anuviou e o brilho de seus olhos se empanou de lágrimas. O bilhete dizia assim:
“Adeus, Lúcia! adeus para sempre! foste bastantemente leviana para me desprezares por um aventureiro
desconhecido, só porque tem algum dinheiro e uma bela aparência. Praza ao céu que bem cedo não te arrependas, e que não venha a ser ele mesmo o algoz que me vingará de tua ingratidão! Vou para bem longe procurar esquecer-me de ti; não sei se o conseguirei. Quando esta receberes, já estarei mui longe daqui. Adeus! esquece-te também de mim. ”
Lúcia já esperava que naquela carta não poderiam vir senão queixas e exprobrações. Elias ignorava as circunstâncias fatais que a tinham forçado a dar o – sim – a Leonel; tinha pois sobeja razão para acusa-la e queixar-se amargamente. Mas aquela partida repentina, aquela amarga despedida para todo o sempre, lhe dilaceravam o coração. Ah! nunca mais vê-lo, nunca mais poder-se justificar para com ele, ela, inocente vítima, que ia imolar-se em um sacrifício, que a mão de Deus acabava de afastar de cima de sua cabeça, ser condenada a viver odiada e desprezada pelo ente a quem mais amava no mundo! Este pensamento continuamente a atormentava, e não podia perdoar a Elias a precipitada sofreguidão com que a condenava, e se animava a abandona-la para sempre, sem ter-lhe ouvido uma palavra, agora que o destino parecia querer abrir-lhe de novo o caminho da esperança.
- Oh! exclamava ela chorando, é preciso ter bem pouco amor para proceder assim. Eu não o condenaria tão de leve. Mas decerto que ele não me ama como eu o amo.
Entretanto ainda uma vaga esperança a alentava. Elias talvez chegasse a ter conhecimento, se é que já não tinha, do sucesso que trouxe ou havia de trazer inevitavelmente o rompimento de seu contrato de casamento com Leonel. Se lhe tinha verdadeiro amor, havia por certo de arrepender-se da precipitada resolução que tomara de nunca mais vê-la, e voltaria. Se não fosse o amor, a curiosidade mesmo o faria voltar, e, quem sabe? também desejo a vingança para ter o prazer de vê-la humilhada em razão do triste desfecho da projetada união. Fosse porém qual fosse o motivo que o trouxesse, ela só suspirava por vê-lo na Bagagem; não faltaria ocasião de revelar-lhe tudo o que ocorrera, e o seu perdão era certo.
Como já vimos, Lúcia não se enganara: a resolução desesperada de Elias apenas tinha durado algumas horas. Mas antes que Lúcia o soubesse, teve de passar ainda muitos dias de cruel incerteza e inquietação.
Elias, em conseqüência dos profundos pesares e violentas comoções de espírito por que havia passado durante aqueles dias, sofreu um novo e grave ataque de febre intermitente que tinha apanhado em sua volta do Sincorá, ataque que o prostrou na cama por muitos dias. Não querendo incomodar nenhum dos habitantes da Bagagem, contra os quais estava possuído do mais vivo e justo ressentimento, recolhera-se a um tosco e pobre ranchinho, separado cerca de um quarto de légua do rio acima do grosso da povoação, onde era tratado por uma pobre parda velha, sua conhecida de Uberaba, que como tantos outros tinha mudado para a Bagagem os seus penates.
Elias conhecia e trazia consigo os medicamentos necessários para combater sua moléstia, e portanto, dispensou o médico que a boa velha em vão instava que se chamasse. Graças a esse curativo e aos cuidados da caridosa enfermeira, no fim de oito dias achava-se inteiramente fora de perigo.
Durante essa forçada reclusão, as dores físicas o incomodavam menos do que as inquietações do espírito e as amarguras do coração.
Lúcia não lhe saía do pensamento. Nos sonhos delirosos da febre ela lhe aparecia, ora risonha e feliz ao lado de um esposo, amável e brilhante cavalheiro; e então lhe escapavam bramidos roucos de raiva e desespero, que pareciam despedaçar-lhe o peito. Ora a via pobre e envolta nos andrajos da miséria, mas pura, santa e sempre fiel à lembrança de seu amor; e então lágrimas doridas lhe rebentavam dos olhos; chorava e soluçava como uma criança. Sabia que com a prisão de Leonel achava-se desfeito o casamento de Lúcia, que o Major estava arruinado, e que a miséria em breve prazo o esperava a ele e a toda a família. Esta consideração o enchia de amargura; então mais que nunca maldizia o infame embusteiro que o iludira, praguejava a sorte e blasfemava contra o céu.
Na sua pobre cabana ninguém o vinha ver, porque ninguém o supunha ali, crendo todos, em razão do seu desaparecimento, que tinha saído da Bagagem.
Um dia disse-lhe a velha caseira:
-meu moço, Vmcê. Está aqui tão só, não tem com quem conversar; isto não está bom; não quer que eu chame algum de seus amigos para entreter o tempo?
- Amigos! . . . oh! minha velha; pelo amor de Deus! não me fale nos amigos da Bagagem, quisera antes ver o rosto de Satanás.
- Pois como? . . . não há por aí nem uma viva alma com quem tenha tomado caipora? ! . . .
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Garimpeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1776 . Acesso em: 26 fev. 2026.