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#Contos#Literatura Brasileira

Histórias e tradições da Província de Minas Gerais

Por Bernardo Guimarães (1872)

Um vivo rubor despontava nas faces de Paulina; seus olhos desvairados se incendiavam de um fulgor estranho, e o sorriso pálido da insânia lhe vagueava pelos lábios. Era um novo acesso da febre e do delírio, que se anunciava. Eduardo consternado e pálido de susto, em vão procurou palavras para acalmá-la; chamou Ribeiro e o padre, que estavam num compartimento vizinho, e saiu com o coração esmagado de dor e desalento.

Seriam três horas da tarde, quando se manifestou em Paulina esse novo acesso de delírio, que durou até a noite. Com a noite porém acalmouse, e Paulina conversou placidamente com seu pai, com o padre e com Eduardo. Parecia reanimada; mostrou-se tão tranqüila e arrazoada; sua conversação foi tão cheia de senso e lucidez, que a todos encheu de esperanças. Assim esteve até perto da meia-noite conversando sossegada e distraída sem o mais leve indício de outro sofrimento que não fosse a nímia fraqueza. O resto da noite, ao que pareceu, passou-a tranqüilamente adormecida.

Quando Paulina acordou era já dia. Mandou chamar seu pai, o padre e Eduardo. Logo que chegaram, perguntou se podia abrir a janela do seu quarto, pois estava com saudade do ar e da luz.

– Sem dúvida nenhuma, – respondeu o padre, – visto que não há vento, e o ar não está úmido nem frio; é mesmo conveniente renovar-se o ar deste quarto.

Estava uma manhã esplêndida. A janela do quarto de Paulina dava para o seu jardim, desse jardim, que outrora, em tempos mais felizes, ela cultivava com suas próprias mãos e que era o enlevo da sua solidão.

A bafagem de ar que entrou pela janela, inundou o quarto de um delicioso perfume de jasmins e flores de laranjeira. Uma chusma de passarinhos esvoaçava e trinava pelos ramos florescidos do pomar; os colibris verdes cruzavam-se zumbindo pelos ares, lindas borboletas entravam e saíam volteando pelo quarto, e por baixo mesmo da janela, pousada sobre uma romeira ressonava uma suavíssima e festiva orquestra de pintassilgos. O ar estava tépido e sereno, e o céu de um esplendor e limpidez maravilhosa.

Paulina estava plácida e calma, mas em tal palidez e imobilidade, que mais parecia uma estátua de alabastro. Pouco a pouco porém ao contato daquele ar puro e embalsamado, daquela luz suave, suas feições foram-se reanimando, um leve matiz de rosa assomou-lhe às faces, seus olhos encheram-se de um meigo fulgor, e denunciavam que uma alma vivificava ainda aquele formoso e delicado corpo. Apesar da sua prostração, no rosto de Paulina transluzia um bem-estar, uma serenidade angélica; seus seios arfavam brandamente, um meio sorriso da mais suave expressão estava fixo em seus lábios, e sobre a fronte parecia que lhe pairava um reflexo da bemaventurança.

Parecia reinar naquele aposento um não sei quê de místico e beatífico, um eflúvio celestial que todos aspiravam em santo e silencioso recolhimento. Eduardo, sobretudo, cheio de emoção, de amor e de esperança, contemplava em adoração o rosto de Paulina, e julgava-se transportado ao paraíso.

O silêncio, que há alguns instantes reinava naquele aposento, como em um santuário, teria durado ainda mais longo tempo, se não viesse quebrá-lo bruscamente um pajem, que entrou aceleradamente no quarto, e entregou uma carta a Joaquim Ribeiro. Este no mesmo instante abriu-a sem refletir, que ia excitar a curiosidade de Paulina, e que a carta que vinha da fazenda do pai de Roberto, podia conter uma má nova. Dentro dela vinha outra carta dirigida a Eduardo, que Ribeiro imediatamente lhe entregou.

Ribeiro passou rápida e silenciosamente os olhos pela carta que lhe era dirigida; o seu conteúdo era o seguinte:

– “Dou-lhe a triste notícia que meu filho Roberto amanheceu hoje morto em seu quarto com a cabeça atravessada por uma bala. O infeliz, quando aqui chegou ontem, encerrou-se em seu quarto sem aparecer a ninguém. Ao romper do dia ouviu-se um tiro no seu quarto; acudiu-se prontamente, arrombou-se a porta, e fomos achá-lo estendido no chão e lavado em sangue. Que desgraça, meu amigo!... não posso atinar com o motivo que o levou a tal loucura... Achou-se sobre sua mesa essa carta ao senhor Eduardo, com a recomendação de ser entregue imediatamente, como verá no sobrescrito.”

Por mais esforço, que fizesse Ribeiro para ocultar a sua perturbação durante a leitura, a mágoa e a consternação pintavam-se em seu rosto.

Paulina, que tudo estava observando, perguntou-lhe com a ansiedade: – É carta do primo Roberto, não é, meu pai?

– Não, minha filha ;– respondeu o velho esforçando-se por mostrar-se tranqüilo; – é um simples recado de teu tio; não tem importância alguma; pede-me apenas que entregue imediatamente aquela carta ao senhor Eduardo, e pede-me notícias de tua saúde.

– Ah! meu pai!... meu pai!... quem sabe?... Vosmecê quer me enganar... e essa outra carta?... de quem é, senhor Eduardo?... leia, leia em voz alta... por favor, se não é algum segredo...

(continua...)

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