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#Romances#Literatura Brasileira

A Pata da Gazela

Por José de Alencar (1870)

Apenas o leão desapareceu na porta, Amélia abraçando e beijando a mãe, subiu precipitadamente a sua alcova; atirou-se a uma conversadeira, e desafogou em pranto e soluços a dor que tinha recalcado desde muitos dias.

A maior parte da noite foi para ela de vigília. Viu correrem as horas; cada momento que se escoava era uma esperança, uma ilusão que se desfolhava da flor viçosa de sua alma.

Aqueles que se separam das pessoas ou dos sítios queridos, conhecem bem esse travo de coração que chamamos saudade; e sabem quanto é cruel o momento da separação.

Mas não há despedida cruciante como seja a da alma pelo amor que nutriu durante muito tempo. Há aí mais do que uma separação: é quase a mutilação moral.

Amélia compreendera que tudo acabara entre Horácio e ela. Desde o dia do jantar receara esse resultado; mas ainda alimentava uma esperança. Naquela noite a esperança murchara, se não foi ela própria, Amélia, quem a desfolhara.

Agora na calada da noite, em sua alcova que lhe parecia um ermo, ela tinha medo do isolamento em que se achava. Algumas vezes sua alma sentia-se como que asfixiada pelo silêncio e pela treva que a submergiam.


CAPÍTULO  XVII

Como dissera a Amélia, na sua última visita, Horácio não tinha perdido a esperança de encontrar o que ele chamava a realidade de seu amor: o pezinho gentil e mimoso do qual ele possuía a botina.

Iludira-se nas suas investigações; era preciso recomeçar.

Tal era o pensamento que preocupava o leão, recostado naquela mesma poltrona, onde o vimos no primeiro dia. Seu olhar embebido nos frocos de fumaça do puro havana, rasteava nas espirais diáfanas a imagem confusa de seus pensamentos.

Tinham decorrido três dias depois do seu rompimento com Amélia. Logo na seguinte manhã, o leão para não dar tempo ao arrependimento da moça, escreveu uma carta ao Sales, manifestando seu receio de que a antipatia de gênios tornasse infeliz uma união que todos ardentemente desejavam.

O negociante mostrou a carta à filha, que lhe disse com um sorriso forçado:

— Ele tem razão!

A carta de Horácio teve resposta no mesmo dia. O Sales encontrando-o na Rua do Ouvidor recusou-lhe o cumprimento.

O leão, satisfeito com esse pronto desenlace que evitava longas explicações, achou-se a poucos passos de distância em frente de Leopoldo.

— Oh! Tu me trazes felicidade! exclamou o leão, apertando-lhe a mão. Sempre que nos encontramos, ou está para acontecer ou já tem acontecido alguma coisa de bom para mim.

— Não sabes quanto estimo!... Assim eu sou uma espécie de astro propício, sob cuja influência nasceste.

— Queres ver? Havia muito tempo que não te via, quando nos encontramos no baile do Azevedo. Pois nessa noite decidiu-se meu destino.

— Ah! e sob o meu influxo benéfico?

— Está visto. Lembras-te que eu te disse que estava disposto a todos os sacrifícios até o do casamento para possuir aquele pezinho!...

— Lembro-me.

— O único obstáculo era uma espécie de promessa ou arranjo de família. Felizmente a menina, a tal Amélia, compreendeu que perdia seu tempo, e arrufou-se na noite do baile por uma ninharia. Eu aproveitei o pretexto; escrevi ao pai retirando minha palavra, e agora mesmo ele me acaba de responder. Estou livre como o ar, e contente como um rapaz que sai do colégio.

— Neste caso dou-te meus parabéns.

— E tu como vais com o sorriso?

— Sem novidade.

— Dize-me uma coisa, no dia em que a viste pela primeira vez, ela estava só ou com outra moça? Faço-te esta pergunta porque foi na Rua da Quitanda e quase pelo mesmo tempo que eu achei a botina.

— Eram duas, respondeu Leopoldo sorrindo.

— Em uma vitória?

— Sim.

— A outra era mais baixa?

— Não afirmo. — Adeus.

O leão separou-se do amigo, e repassando as particularidades de sua conversa com Amélia perto do bastidor e no dia do jantar, começou a combiná-las com as informações de Leopoldo e com as circunstâncias do encontro no Passeio Público, onde vira o sinal impresso na areia pelo mimoso pezinho.

Agora, fumando seu charuto depois do jantar, o leão resumia todas as suas reflexões, e chegava a este resultado:

— Decididamente o pezinho é de uma moça que ia com Amélia, no dia em que se perdeu a botina e no dia em que eu a vi de longe no Passeio Público. Essa moça, cuja inicial é um L, não é outra senão Laura. Aquele pudor feroz era um indício infalível. Amélia procurava imitá-lo por motivo bem diverso: mas não o conseguiu.

O moço chegou-se à banquinha onde estava o cofre de pau-rosa e contemplou a botina.

À noite, o leão foi a uma partida. Sua estrela o favorecia. Laura lá estava. Dirigiu-lhe algumas banalidades graciosas, que ela a princípio recebeu com manifesta esquivança, mas depois com timidez.

(continua...)

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