Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
Do rio de Itapucuru até o rio dos Patos são quatro léguas, o qual está em vinte e oito graus. Este rio é muito grande, cuja boca se serra com a ilha de Santa Catarina, por onde entram os navios da costa, e a maré muito espaço, por onde se navega. Metem-se neste rio muitas ribeiras que vêm do sertão; o qual é muito acomodado para se poder povoar, por a terra ser muito fértil para tudo que lhe plantarem, a qual tem muita caça de veados, de porcos e de muitas aves, e o rio é mui provido de marisco, e tem grandes pescarias até onde possuem a terra os carijós, daqui por diante é a vivenda dos tapuias, e está por marco uns e outros este rio dos Patos.
À boca deste rio está situada a ilha de Santa Catarina, que vai fazendo abrigo à terra até junto de Itapucuru, que fica à maneira de enseada. Tem esta ilha de comprido oito léguas, e corre-se norte-sul, a qual da banda do mar nenhum surgidouro tem, salvo um ilhéu, que está na ponta do sul, e outro que tem na ponta do norte; a qual ilha é coberta de grande arvoredo, e tem muitas ribeiras de água dentro e tem grande comodidade para se poder povoar, por ser a terra grossa muito boa e ter grandes portos, em que se podem estar seguras de todo o tempo muitas naus. Mostra esta ilha uma baía grande, que vai por detrás, entre ela e a terra firme, onde há grande surgidouro e abrigada para naus de todo porte; nesta enseada que se faz da ilha para terra firme estão muitas ilhetas; está esta boca e ponta' da ilha da banda do norte em vinte e oito graus de altura.
C A P Í T U L O LXVIII
Em que se declara parte dos costumes dos carijós.
Atrás fica dito como os carijós são contrários dos guaianases, e como se matam uns aos outros; agora cabe aqui dizer deles o que se pode alcançar e saber de sua vida e costumes. Este gentio possui esta costa deste rio da Cananéia, onde parte, com os guaianases, na qual se fazem uns aos outros mui contínua e cruel gurerra, pelejando com arcos e flechas, que os carijós sabem tão bem manejar como seus vizinhos e contrários. Este gentio é doméstico, pouco belicoso, de boa razão; segundo seu costume, não come carne humana, nem mata homens brancos que com eles vão resgatar, sustentam-se de caça e peixe que matam, e de suas lavouras que fazem, onde plantam mandioca e legumes como os tamoios e tupiniquins. Vivem estes índios em casas bem cobertas e tapadas com cascas de árvores, por amor do frio que há naquelas partes. Esta gente é de bom corpo, cuja linguagem é diferente da de seus vizinhos, fazem suas brigas com contrários em campo descoberto, especialmente com os guaianases, com quem têm suas entradas de guerra; e como os desbaratados se acolhem ao mato se têm por seguros, porque nem uns nem outros sabem pelejar por entre ele. Costuma este gentio no inverno lançar sobre si umas peles da caça que matam, uma por diante, outra por detrás; têm mais muitas gentilidades, manhas e costumes, como os tupinambás, em cujo título se contam mui particularmente.
C A P Í T U L O LXIX
Em que se declara a costa do rio dos Patos até o da Alagoa.
Do rio dos Patos ao rio de D. Rodrigo são oito léguas; e corre-se a costa norte-sul, até onde a terra é algum tanto alta, o qual porto está em vinte e oito graus e um quarto. Esse porto está no cabo da ilha de Santa Catarina, o qual está numa baía que a terra faz para dentro, onde há grande abrigada e surgidouro para os navios estarem seguros de todos os ventos, tirado o nordeste, que cursa no verão e venta igual, com o qual se não encrespa o mar. Do porto de D. Rodrigo ao porto e rio da Lagoa, são treze léguas, o qual nome tomou por o porto ser uma calheta grande e redonda e fechada na boca, que parece a lagoa, onde também entram navios da costa e estão mui seguros. Do rio dos Patos até aqui é esta terra à vista do mar sem mato, mas está vestida de erva verde, como a Espanha, onde se dão muito bem todos os frutos que lhe plantam; na qual se dará maravilhosamente a criação das vacas e todo o mais gado que lhe lançarem, por ser a terra fria e ter muitas águas para o gado beber. Essa terra é possuída dos tapuias, ainda que vivem algum tanto afastados do mar, por ser a terra desabrigada dos ventos; mas o porto de D. Rodrigo é suficiente para se poder povoar, pela fertilidade da terra e pela comodidade que tem ao longo do mar de pescarias e muito marisco e por a terra ter muita caça. E o Porto da Alagoa, com que concluímos este capítulo, tem ilhéu junto da boca da barra.
C A P Í T U L O LXX
Em que se declara a costa do porto da Alagoa até o rio de Martim Afonso.
(continua...)
BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.