Por Eça de Queirós (1887)
Eu, despeitado, observei que não era um príncipe; mas minha tia tinha luzidas riquezas; os Raposos primavam pelo sangue no fidalgo Alentejo. Se Flor de Jericó estava ajustada para regozijar meus olhos católicos, era uma desconsideração tê-la cedido ao romeiro couraçado, que viera da herege Alemanha...
O erudito Topsius resmungou, alçando o bico com petulância. que a Alemanha era a mãe espiritual dos povos...
- O brilho que sai do capacete alemão, D. Raposo, é a luz que guia a humanidade!
- Sebo para o capacete! A mim ninguém me guia! Eu sou Raposo, dos Raposos do Alentejo!... Ninguém me guia senão Nosso Senhor Jesus Cristo... E em Portugal há grandes homens! Há Afonso Henriques, há o Herculano... Sebo!
Ergui-me, medonho. O sapientíssimo Topsius tremia, encolhido. Pote acudiu:
- Paz, cristãos e amigos, paz!
Topsius e eu recruzamo-nos logo no divã, tendo apertado as mãos, galhardamente e com honra.
Fatmé, no entanto, jurava que Alá era grande e que ela era a nossa escrava. E, se nós a quiséssemos mimosear com sete piastras de ouro, ela em compensação da Rosa de Jericó, oferecia-nos uma jóia inapreciável, uma circassiana, mais branca que a lua cheia, mais airosa que os lírios que nascem em Galgalá.
- Venha a circassiana! - gritei, excitado. - Caramba, eu vim aos santos lugares para me refocilar,..
Venha a circassiana! Larga as piastras, Pote! Irra! Quero regalar a carne!
Fatmé saiu, recuando; o festivo Pote reclinou-se entre nós, abrindo a sua bolsa perfumada de tabaco de Alepo. Então, uma portinha branca, sumida no muro caiado, rangeu a um canto, de leve; e uma figura entrou, velada, vaga, vaporosa. Amplos calções turcos de seda carmesim tufavam com languidez, desde a sua cinta ondeante até aos tornozelos, onde franziam, fixos por uma liga de ouro; os seus pezinhos mal pousavam, alvos e alados, nos chinelos de marroquim amarelo; e através do véu de gaze que lhe enrodilhava a cabeça, o peito e os braços - brilhavam recamos de ouro, centelhas de jóias, e as duas estrelas negras dos seus olhos. Espreguicei-me, túmido de desejo.
Por trás dela Fatmé, com a ponta dos dedos, ergueu-lhe o véu devagar, devagar e dentre a nuvem de gaze surgiu um carão cor de gesso, escaveirado e narigudo, com um olho vesgo, e dentes podres que negrejavam no langor néscio do sorriso... Pote pulou do divã, injuriando Fatmé, ela gritava por Alá, batendo nos seios, que soavam molemente como odres mal cheios.
E desapareceram, assanhados, levados numa rajada de ira. A circassiana, requebrando-se, com o seu sorriso pútrido, veio estender-nos a mão suja, a pedir "presentinhos" num tom rouco de aguardente. Repeli-a com nojo. Ela coçou um braço, depois a ilharga; apanhou tranqüilamente o seu véu e saiu arrastando as chinelas.
- Oh, Topsius! - rosnei eu. - Isto parece-me uma grande infâmia!
O sábio fez considerações sobre a voluptuosidade. Ela é sempre enganadora. Debaixo do sorriso luminoso está o dente cariado. Dos beijos humanos só resta o amargor. Quando o corpo se extasia, a alma entristece...
- Qual alma! Não há alma! O que há é um eminentíssimo desaforo! Na Rua do Arco-do-Bandeira, esta Fatmé tinha já dous murros na bochecha... Irra!
Sentia-me feroz, com desejos de escavacar o bandolim... Mas Pote reapareceu, cofiando os bigodões dizendo que por mais nove piastras de ouro, Fatmé consentia em mostrar a sua secreta maravilha, uma virgem das margens do Nilo, da alta Núbia, bela como a noite mais bela do Oriente. E ele vira-a, afiançava-a, valia o tributo de uma fértil província.
Frágil e liberal, cedi. Uma a uma, as nove piastras de ouro tiniram na mão gordufa de Fatmé.
De novo a porta caiada rangeu, ficou cerrada - e, sobre o tom alvaiado, destacou, na sua nudez cor de bronze, uma esplêndida fêmea, feita como uma Vênus. Durante um momento parou, muda, assustada pela luz e pelos homens, roçando os joelhos lentamente. Uma tanga branca cobria-lhe os flancos possantes e ágeis; os cabelos hirsutos, lustrosos de óleo, com cequins de ouro entrelaçados, caíam-lhe sobre o dorso, como uma juba selvagem; um fio solto de contas de vidro azul enroscava-se-lhe em torno do pescoço e vinha escorregar por entre o rego dos seios rijos, perfeitos e de ébano. De repente saltou convulsamente, repicando a língua, uma ululação desolada: Lu! lu! lu! lu! lu! Atirou-se de bruços para o divã; e estirada, na atitude de uma esfinge, ficou dardejando sobre nós, séria e imóvel, os seus grandes olhos tenebrosos.
- Hem? - dizia Pote, acotovelando-me. - Veja-lhe o corpo... Olhe os braços! Olhe a espinha como arqueia! E uma pantera!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Relíquia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19199 . Acesso em: 29 jun. 2026.