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#Romances#Literatura Portuguesa

O Conde d'Abranhos

Por Eça de Queirós (1925)

Que agonia! E pior ainda foi quando sua tia lhe escreveu, dizendo que em Amarante, em casa das Neves e das Cunhas, «se tinha falado muito da pilhéria que ele dissera na Câmara, que fizera rir toda Lisboa» e que a opinião de todos era que devia ser muito temido, «por causa das chalaças que soltava». Isto era odioso para um espírito elevado como o de Alípio Abranhos.

Então a sua atitude tornou-se cautelosa. Para destruir aquela falsa, grotesca fama de «chalaceador», assombreou, sublinhou a sua natural seriedade. Tornou bem patente que aquele dito era, nos seus hábitos intelectuais, uma extravagância isolada. Conversava com prudência, evitando tudo o que pudesse ser tomado como «gracejo», «saída» ou «pilhéria». A sua atitude na Câmara era como a afirmação exterior da gra-vidade dos seus pensamentos: conservava-se erecto, com os braços cruzados, a testa franzida, pensativo. E um dia que Cardoso Torres lhe disse:

– O amigo recolheu-se ao silêncio. Atire-lhes outro epigrama, homem! Não os deixe... espicace-os!

Alípio respondeu, despeitado:

– Quando eu combater a oposição, Sr. Cardoso Torres, há-de ser com a lógica – não com a pilhéria!

– Pois sim, mas olhe que o ridículo é uma grande arma.

– Não a sei manejar, Sr. Cardoso Torres.

– Histórias! ... O amigo tem graça... E utilizá-la.

Alípio Abranhos tomou rancor a este cavalheiro, e eu posso mesmo, com afoiteza, datar desta entrevista a sua resolução de se separar do ministério Cardoso Torres.

Entretanto ele compreendia que a maneira eficaz e digna de mostrar à Câmara e ao país a verdadeira feição do seu talento sério, era pronunciar um grande discurso de eloquência grave: preparou-se então com fervor para a sua verdadeira estreia.

Os projectos pueris nesse momento em discussão, não lhe davam a oportunidade de fazer uma oração elevada. Eram medidas subalternas – estradas, um projecto de caminho de ferro, legislação para as colónias – uma série de trabalhos monótonos, em que se comprazia o espírito mesquinhamente prático de Cardoso Torres, e que a maioria votava, distraída, desinteressada, perante as galerias vazias.

Esperava-se, porém, uma Reforma da Instrução, e Alípio Abranhos decidiu fazer nessa ocasião a sua «estreia de estadista».

A composição deste discurso célebre foi feita no meio de preocupações graves de família. Chegava Março e com ele o nono mês de gravidez de D. Virgínia Abranhos. D. Laura instalarase em casa do genro para se achar mais perto da filha no momento do transe. Uma bela moça de Campolide, a futura ama, já estava em casa, e toda a noite ardiam lamparinas propiciatórias junto de santos especiais.

Entretanto, no seu escritório, Alípio Abranhos, cercado de autores, compunha o seu discurso.

A Condessa, mais tarde, muitas vezes me confessou quanto a afectava, no meio dos seus terrores – pois estava certa de que morreria – ver de repente, às onze horas, à meia-noite, o marido entrar-lhe pelo quarto, de chinelos e robe de chambre, o olhar brilhante, e ler-lhe algum período magnífico que acabava de produzir. Com a roupa sobre o queixo, a face um pouco inchada, que lhe repuxava a pele em torno dos olhos, escutava, olhando a sombra grotesca, de grande nariz, que o perfil de Alípio projectava sobre a parede, e aterrava-se pensando que o menino – ou a menina – pudesse nascer com aquele nariz descomunal, fora de toda a proporção, de tromba, medonho!

Enfim o dia chegou. Nessa manhã D. Virgínia tinha sentido de madrugada algumas dores, e isto causou entre D. Laura e Alípio uma pequena altercação ao almoço. A velha devota não compreendia que Alípio Abranhos fosse à Câmara nesse dia, quando sua mulher estava numa crise tão grave e na proximidade de um perigo possível.

– Mas, minha senhora, eu estou inscrito para falar...

– Não há falas nem discursos! O seu dever é estar aqui, a animar a pequena... O seu lugar hoje é em casa! Primeiro que tudo estão os deveres que tem para com sua mulher.

Alípio Abranhos aniquilou-a com esta nobre frase:

– Se tenho grandes deveres para com minha mulher, não os tenho menores para com o meu país.

E para terminar o incidente, acrescentou para o criado:

– José, vá-me buscar uma tipóia. Fechada!

Tomara, logo ao erguer-se, duas gemadas para clarear a voz, fortificá-la, e queria.53 evitar o frio dessa áspera manhã de Março. O tempo, com efeito, inquietava-o: havia um sudoeste brusco no ar enevoado, e ele receava que a chuva afastasse o público da galeria.

Choveu, infelizmente, a torrentes; e Alípio teve o desgosto de ver, ao chegar a S. Bento, que não só a Câmara era menos numerosa do que habitualmente, mas que os bancos das galerias estavam quase desertos.

(continua...)

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