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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

O teatro, quase vazio, estava lúgubre; aqui e além, nalgum camarote, uma família feia perfilavase, com cabelos negríssimos carregados de postiços, gozando soturnamente a sua noite de domingo; na platéia, à larga nas bancadas vazias, pessoas avelhadas e inexpressivas escutavam com um ar encalmado e farto, limpando a espaços, com lenços de seda, o suor dos pescoços; na geral, gente de trabalho arregalava olhos negros em faces trigueiras e oleosas; a luz tinha um tom dormente; bocejava-se. E no palco, que representava uma sala de baile amarela, um velhote condecorado falava a uma magrita de cabelos riçados, sem cessar, com o tom diluído de uma água gordurosa e morna que escorre.

Sebastião saiu. Onde estariam? Soube-se na manhã seguinte.- Descia o Moinho de Vento, e um vizinho, o Neto, que subia curvado sob o seu guarda-sol, com o cigarro ao canto do bigode grisalho, deteve-o bruscamente, para lhe dizer:

- Ó amigo Sebastião, ouça cá. Vi ontem à noite no Passeio a D. Luísa com um rapaz que euconheço. Mas de onde conheço eu aquela cara? Quem diabo é?

Sebastião encolheu os ombros.

- Um rapaz alto, bonito, com um ar estrangeirado. Eu conheço-o. Noutro dia vi-o entrar para lá.

Você não sabe?

Não sabia.

- Eu conheço aquela cara. Tenho estado a ver se me recordo... Passava a mão pela testa. - Euconheço aquela cara! Ele é de Lisboa. De Lisboa é ele!

E depois de um silêncio, fazendo girar o guarda-sol:

- E que há de novo, Sebastião?

Também não sabia. Nem eu!

E bocejando muito:

- Isto está uma pasmaceira, homem!

Nessa tarde, às quatro horas, Sebastião voltou à casa de Luísa. Estava com "o sujeito!" Ficou então preocupado. Decerto era algum negócio de Jorge; porque não compreendia que ela falasse, sentisse, vivesse, que não fosse no interesse da casa e para maior felicidade de Jorge. Mas devia ser grave então - para reclamar visitas, encontros, tantas relações. Tinham pois interesses importantes que ele não conhecia! E aquilo parecia-lhe uma ingratidão, e como uma diminuição de amizade.

A tia Joana tinha-o achado "macambúzio".

Foi ao outro dia que soube que o sujeito era o primo Basílio, o Basílio de Brito. O seu vago desgosto dissipou-se, mas um receio mais definido veio inquietá-lo Sebastião não conhecia Basílio pessoalmente, mas sabia a crônica da sua mocidade. Não havia nela certamente, nem escândalo excepcional, nem romance pungente. Basílio tinha sido apenas um pândego e, como tal, passara metodicamente por todos os episódios clássicos da estroinice lisboeta: - partidas de monte até de madrugada com ricaços do Alentejo; uma tipóia despedaçada num sábado de touros; ceias repetidas com alguma velha Lola e uma antiga salada de lagosta; algumas pegas aplaudidas em Salvaterra ou na Alhandra; noitadas de Colares nas tabernas fadistas; muita guitarra; socos bem jogados à face atônita de um polícia; e uma profusão de gemas de ovos nas glórias do Entrudo. As únicas mulheres mesmo que apareciam na sua história, além das Lolas e das Carmens usuais, eram a PisteIli, uma dançarina alemã cujas pernas tinham uma musculatura de atleta, e a Condessinha de Alvim, uma doida, grande cavaleira, que se separara de seu marido depois de o ter chicotado, e que se vestia de homem para bater ela mesma em trem de praça do Rossio ao Dafundo. Mas isto bastava para que Sebastião o achasse um debochado, um perdido; ouvira que ele tinha ido para o Brasil para fugir aos credores; que enriquecera por acaso, numa especulação, no Paraguai; que mesmo na Bahia, com a corda na garganta, nunca fora um trabalhador; e supunha que a posse da fortuna para ele, seria apenas um desenvolvimento dos vícios. E este homem agora vinha ver a Luisinha todos os

dias, estava horas e horas, seguia-a ao Passeio...

Para quê?... Era claro, para a desinquietar!

Ia justamente descendo a rua, dobrado sob a pesada desconsolação destas idéias quando uma voz encatarroada disse com respeito:

- Ó Sr. Sebastião!

Era o Paula dos móveis.

- Viva, Sr. João.

O Paula atirou para as pedras da rua um jato escuro de saliva, e com as mãos cruzadas debaixo das abas do comprido casaco de cotim, o tom grave:

- Ó Sr. Sebastião, há doença cá por casa do senhor engenheiro?

Sebastião todo surpreendido:

- Não. Por quê?

O Paula fez roncar a garganta, cuspilhou:

- É que tenho visto entrar para cá todos os dias um sujeito. Imaginei que fosse o médico.

E puxando o escarro:

- Desses novos da homeopatia!

Sebastião tinha corado.

- Nada - disse. - É o primo de D. Luísa.

- Ah! - fez o Paula. - Pois pensei... Queira desculpar, Sr. Sebastião.

E curvou-se respeitosamente.

- Já temos falatório! - foi pensando Sebastião.

E entrou em casa, descontente.

Morava ao fundo da rua, num prédio seu, de construção antiga, com quintal.

(continua...)

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