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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

A mastreação do navio, tocada em grandes linhas azuladas pe la luz do punch, fazialembrar um galeão de legenda, o paquete de Satã. Algumas senhoras estavam vestidas de branco, e quando no círculo da valsa passavam sob a zona da luz, e eram envolvidas numa claridade fosfórica, os vestidos brancos tomavamtons espectrais, os cabelos louros luziam comum encanto morto, havia em tu do aquilo como uns longes de dança macabra...Cármen estava possuída da mesma agitação da chama do punch, travava do braço aum, valsava com outro, escarnecia, tinha réplicas, batia o leque. D. Nicazio, esse ressonava perto da amurada. De vez em quando entornavam-lhe punch pela boca: ele abria uma frestado olho:

— Thank you, caballeros — e adormecia.- Onde está Captain Rytmel? — disse de repente Cármen. -Tragam-no... Quero valsar com ele.

Rytmel conversava com a condessa sossegadamente, longe da luz.- Rytmel! Rytmel! — chamaram várias vozes.

Vimo-lo aproximar-se contrariado, mas rindo.- Uma valsa! — gritou-lhe a espanhola) A flauta começou: ela tomou os ombros do capitão, e despediram em grandes círculos; os vestidos de Cármen enchiam-se de ar, os seus cabelos desmanchavam-se; a luz do punchtremia; ao compasso rápido, os giros vertiginosos, enlaçados, pareciam voos, lembravam a valsa do diabo cantada por Byron. Ela vergava nos braços de Rytmel, com a cabeça errante,os olhos cerrados, os beiços entreabertos e húmidos.

— Bravo! Bravo! — gritavam os ingleses em roda. A luz do punch erguia-se, balançava-se, valsava também. Cármen e Rytmel passavamcomo sombras, levados por um vento leve, cheios dos reflexos idealizadores da chama azul.

O som frené tico da flauta perseguia-os; parecia que eles iam voar, desapare cer entre ascordagens, dissipar-se na noite. Os ingleses gritavam, erguendo os chapéus.

— Hip! Hip! Hip! Eu notava na condessa, entretanto, uma vaga sobre-excitação; estava observando de longe com os olhos resplandecentes, o seio arquejante. Apenas a valsa findou, ela tomou o braço do capitão, e ouvi-lhe dizer numa voz grave e repreensiva:

— Não dance mais.Fiquei surpreendido. Que havia? Um segredo? Pois a condes sa, tão altiva, tão casta, tão tímida!

Aproximei-me dela.- Prima, é tarde. Não quer descer?.

Ela olhou-me serenamente, sorrindo.- Não. Porquê? E afastou-se com o capitão Rytmel para ao pé da tenda onde de dia se fumava, e agora deserta e quase escura.Eu, maquinalmente, fui-os seguindo, cheguei-me impercepti velmente pelo lado oposto, e quase sem querer ouvi.O capitão dizia-lhe:

— Mas porque duvida? Eu desprezo aquela mulher. A nossa amizade nada perde, e nada sofre. Ela foi para mim um capricho, e historia de um momento. Agora nem umarecordação é...

Continuaram falando baixo, e melancolicamente. Eu fui en costar-me um momento àamurada. Erguera-se vento, e o vapor começava a jogar... — Onde se some aquele capitão Rytmel?

Desapareceu outra vez com a condessa, não viram? Vamos procurá-los.Compreendi a traição. Corri rapidamente, sem ser percebido, à tenda fumoir, entrei,sentei-me num banco, conversando alto, ao acaso. A tenda estava apenas alumiada por uma lanterna. A condessa ao ver-me aparecer assim tão bruscamente, fizera-se pálida de cólera.Mas, nesse momento, chegavam alguns oficiais, gritando:

— Rytmel! Rytmel!Eu adiantei-me, dizendo: — Que é? Estamos aqui; não queremos dançar mais... Os oficiais afastaram-se. A condessa percebeu que eu a tinha salvado de uma situaçãopenosamente equivoca, e o seu olhar agradeceu-me, profundamente.

— Desça, condessa, desça — segredei-lhe eu.Ela disse com um sorriso melancólico a Rytmel: — Está frio, adeus! Rytmel e eu voltámos para o grupo dos oficiais.Eu queria vingar-me de Cármen; lembrou-me o torná-la o centro de ruído e de orgia.

— Sen~orita! — disse-lhe eu. — Cante-nos uma seguidilla ou uma habanera! Faz um beloefeito no alto mar. Estão aqui gentlemen que nunca ouviram a música dos nossos países.Sim, sim — gritaram todos. — Uma seguidilla!... Ela queria recusar-se, descer ao beliche.Não, não, cante, milady, cante! Os pedidos eram instantes e ruidosos. Ela cedeu, ergueu a voz, no meio do silêncio,acompanhada pelo monótono ruído do vapor e pelo vento crescente, e cantou com uma voz forte e lânguida:

A la puerta de mi casa Hay una piedra mui larga...

Os ingleses estavam extáticos. No fim os aplausos estalaram como foguetes, encheram-se os copos, um gritou:

— Pela sen~orita Cármen! Hip! Hip! Hurra!Os aplausos ecoaram no mar.



(continua...)

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