Por Adolfo Caminha (1895)
Mas ficou pensativa, cheia de um vago e misterioso pressentimento que lhe fazia bater o coração. Assaltaram-lhe idéias horrorosas de crimes, de homicídios de sangue; relembrava casos que tinham alvoroçado o Rio de Janeiro, casos de ciúmes, de traições... Na Rua do Senhor dos Passos um sargento esfaqueara uma pobre “mulher da vida”; encontrara-a com outro... A polícia correu ao lugar do sinistro, mas o assassino. como era noite, evadira-se, deixando o cadáver da rapariga crivado de golpes, rubro de sangue. Lembrava-se também de outro caso medonho; fora na Rua dos Arcos: o assassino cortara a mulher em bocados como se esquarteja uma rês. O povo correra em massa para ver o espetáculo; dizia-se até que a vítima era uma espanhola de alto bordo chamada Lola.
Tudo isso vinha-lhe à imaginação desordenadamente, esfriando o seu amor, enchendo-a de receios, de um medo pueril, que era como um aviso de desgraça próxima.
Passou o dia sem fazer nada, inquieta, ora na alcova, deitada, a pensar, calculando o futuro, rememorando uma cousa ou outra, suspirando pelos bons tempos da sua mocidade, ora nos fundos da casa, indo e vindo como tonta: — “que não se podia com o calor de dezembro, uf!...”
Ficou muito admirada quando ouviu bater duas horas: — Ainda! Jesus, que dia longo! E nem roupa havia para lavar, nem um servicinho, nem uma distração... Era contra seus hábitos aquilo: não podia estar em pé sem fazer cousa alguma, Que ferro!
Não lhe saía da cabeça o bilhetinho do negro que ela espedaçara. — E não é que o tal Bom-Crioulo ainda se lembrava do Aleixo! Grandessíssimo pederasta! Nunca supusera que uma paixão amorosa de homem a homem, fosse tão duradoura, tão persistente! E logo um negro, Senhor Bom-Jesus, logo um crioulo imoral e repugnante daquele!
Entrou pela noite com a mesma inquietação, com o mesmo receio vago e indefinido, quase arrependida de se ter metido com o Aleixo. Bem que estava sossegada no seu cantinho da Rua da Misericórdia, vivendo como Deus queria, sem se incomodar. Afinal de contas, o grumete era uma criança e ela uma senhora de idade...
E logo, refletindo: — Ah! mas ninguém está livre: homem e mulher são como fogo e pólvora ... Assim mesmo quarentona, ela era mulher, tinha sangue nas veias e um coração para sentir...
Bateu as portas, mais cautelosa que nunca, revistou o quintal, e foi deitar muito cedo, pensando em Bom-Crioulo, no Aleixo e nas loucuras da humanidade. Quase toda a noite ouviu rodarem os bondes. Fazia um grande calor abafado de estufa, e ela não podia conciliar o sono, adormecer tranqüilamente; fechava os olhos em vão, para tornar a abrir, no mesmo instante, sufocada, agitada por um nervoso ridículo de mulherzinha histérica, ela, um mulherão daquele, gorda, forte e sadia!
Nenhuma posição lhe agradava na cama: um mal estar, uma asma, que lhe tirava o fôlego e o sono. Era a primeira vez que tal cousa lhe sucedia. Debalde escancarou as portas da alcova — a que dizia para a sala de jantar e a do corredor. Qual! A mesma falta de ar, o mesmo inferno. E sempre a lembrança do negro e do outro atormentado-a como um pesadelo cruel. Via Bom-Crioulo entrar pela casa bêbedo, os olhos em chama, segurando uma navalha de marinheiro, brandindo a arma, cheio de ódio feroz, terrível, hediondo, e, de repente, cair sobre o grumete, espumando ciúme, cortando-lhe de navalhadas; e parecia-lhe estar vendo o outro rolar no chão sem fala, num rio de sangue, morto!... E depois a polícia, gritos de socorro, vergonhas, curiosos que vinham ver...
Bateu duas horas da madrugada. Já se não ouviam os bondes. Um silêncio absoluto na rua, e, dentro, no sobrado, a mesma quietação dormente e abafada — uma calma infinita de subterrâneo.
Mais um quarto de hora e portuguesa caiu no sono profundamente — um sono de pedra, inabalável como o sono eterno...
Como de costume, Aleixo “folgou” no dia seguinte, e, como de costume, veio direto à casa, muito leve, muito desobrigado, no seu uniforme azul, capa branca no boné, oloroso e risonho. D. Carolina estava para dentro, às voltas com a cozinha. Eram três horas da tarde. O grumete estranhou que a porta da rua estivesse fechada àquela hora, e bateu com força. — Oh! isso era novidade!...
A mulher correu logo a ver da janela: — Seria o bonitinho?
Houve um pequeno rebuliço na vizinhança. Embaixo, na loja, apareceu uma cabeça negra, toda curiosa, fingindo que chegava ao postigo naturalmente, por acaso... O caixeiro da padaria estirou o pescoço, de dentro do balcão.
D. Carolina, mal reconheceu o marinheiro, veio abrir logo com uma exclamação de surpresa: — Oh! não o esperava tão cedo!
— Tão cedo? Pois ainda achava cedo? É boa: quase noite!
— Oh! filho são duas horas...
— Duas não senhora: já vai para as quatro.
(continua...)
CAMINHA, Adolfo. Bom-crioulo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16513 . Acesso em: 27 mar. 2026.