Por Aluísio Azevedo (1881)
Por onde seguiam, Raimundo ia levantando a atenção a todos. As negrinhas comam ao interior das casas, chamando em gritos a sinhá-moça para ver passar “Um moço bonito!” Na rua, os linguarudos paravam com ar estúpido, para examiná-lo bem; os olhares mediam-no grosseiramente da cabeça aos pés, como em desafio; interrompiam-se as conversas dos grupos que ele encontrava na calçada.
— Quem e aquele sujeito, que ali vai de roupa clara e um chapéu de palha?
— Or'essa! Pois ainda não sabes? respondia um Bento. É o hóspede de Manuel Pescada!
— Ah! este é que é o tal doutor de Coimbra?
— O cujo! afirmava o Bento.
— Mas Brito, vem cá! disse o outro, com grande mistério, como quem faz uma revelação importante. — Ouvi dizer que é mulato!...
E a voz do Brito tinha o assombro de uma denúncia de crime.
— Que queres, meu Bento? São assim estes pomadas cá da terra dos papagaios! E ainda se zangam quando queremos limpar lhes a raça, sem cobrar nada por isso!
— Branquinho nacional! É gentinha com quem eu embirro. ó Bento, como com o vento, disse Brito com uma troca e baldroca de VV e BB, que denunciava a sua genealogia galega.
Em outra parte, dizia-se:
— Olé Um cara nova? Que achado!
— É o Dr. Raimundo da Silva...
— Médico?
— Não. Formado em Direito.
— Ah! É advogado? Que faz ele? do que vive? o que possui?
— Vem advogar a própria causa por cá! Está tratando do que lhe pertence e do que lhe não pertence!
— O que me conta você, homem?...
— Coisas da vida, meu amigo! Estes doutores pensam que aqui os casamentos ricos andam a ufa!...
Em uma casa de família:
— Sabem? passou por aí o Raimundo!
— Que Raimundo? perguntam logo em coro.
— Aquele mulato, que diz que é doutor e está às sopas do Manuel Pescada!
— Dizem que ele tem alguma coisa...
— Pulha, minha rica, todos estes aventureiros, que arribam por cá, trazem o rei na barriga!
— E o Pescada para que o quer em casa?
Qual quer o quê! O Manuel despachou-o bonito, porem o mitra deixou-se ficar!
— Sempre há muita gente sem vergonha!...
Em outras partes, juraram que Raimundo era filho do cônego Diogo e que vinha dos estudos; ainda noutras, viam em Raimundo uma carta do Partido Conservador; o redator do “Maritacaca” dizia a um correligionário: “Espere um pouco! deixe chegarem as eleições e então você verá este sujeito de cama e mesa com o presidente. Olhe! eles hão de dar-se perfeitamente, porque, tanto cara de safado tem um, como o outro!”
E assim ia Raimundo, sendo inconscientemente, objeto de mil comentários diversos e estúpidas conjeturas.
À noite estava fechado o negócio das casas, e decidido que, mel fizesse bom tempo, iria ele ao Rosário com o Manuel, resolver o da fazenda.
No dia imediato, Raimundo deu um passeio ao Alto da Carneira; no outro dia foi até São Tiago; no outro percorreu a praça do Mercado; foi três ou quatro vezes ao Remédios; repetiu a visita aos pontos citados e — não tinha mais onde ir. Meteu-se em casa, disposto a cultivar as relações familiares do tio e visitá-las de vez em quando, para se distrair; mas, posto lhe repetissem com insistência que o Maranhão em uma província muito hospitaleira, como é de fato, reparava despeitado, que, sempre e por toda a parte, o recebiam constrangidos. Não lhe chegava as mãos um só convite para baile ou para simples sarau; cortavam muita vez a conversação, quando ele se aproximava; tinham escrúpulo em falar na sua presença de assuntos, aliás, inocentes e comuns; enfim - isolavam-no, e o infeliz, convencido de que era gratuitamente antipatizado por toda a província, sepultou-se no seu quarto e só saía para fazer exercício, ir a uma reunião pública, ou então quando algum dos seus negócios o chamava à rua. Todavia, uma circunstância o intrigava, e era que, se os chefes de família lhe fechavam a casa, as moças não lhe fechavam o coração; em sociedade o repeliam todas, isso e exato, mas em particular o chamavam para a alcova. Raimundo via-se provocado por várias damas, solteiras, casadas e viúvas, cuja leviandade chegava ao ponto de mandarem-lhe flores e recados, que ele fingia não receber, porque, no seu caráter educado, achava a coisa ridícula e tola. Muitos e muitos dias não se despregava do quarto, senão para comer ou, o que sucedia com freqüência, para ir à varanda dar dois dedos de palestra à prima.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.