Por Aluísio Azevedo (1895)
A verdade é que nos sentíamos corridos e vexados, comparecendo assim, um defronte do outro, naquele isolamento de alcova, mais que os dois criminosos do paraíso, no momento do pecado capital. Prenderam-nos ali dentro, para quê? Para uma coisa inconfessável e ridícula, desde que não era naturalmente provocada pelos transportes da nossa mocidade, posta em jogo pelo amor. Não tínhamos palavras um para o outro. Virgílio, todavia, caiu-me aos pés, beijou-me as mãos e agradeceu-me com bonitos termos — aquela felicidade — que lhe era, afinal, concedida, depois de tanto desejada.
Aquela felicidade! mas eu sentia perfeitamente que tudo isso, afirmado por ele nessa ocasião, não era sincero; dizia-o para dizer alguma coisa, para dar qualquer solução àquela cena difícil; e o que eu lhe respondi foi tão falso como o que ele me mentiu. Se eu lhe pudesse falar com franqueza, se não fosse ofendê-lo confessarlhe a verdade, dir-lhe-ia que, naquele momento, o meu desejo era só, e só, que ele se retirasse da minha presença; dir-lhe-ia que, naquele instante, tudo desejaria, menos fazer a consumação carnal do amor que eu lhe dedicava.
E percebi claramente que Virgílio ia lançar-se nos meus braços, não por impulso do seu amor, aliás forte e verdadeiro, mas porque era essa a sua obrigação de noivo; percebi claramente, e afianço, que, se ele pudesse saltar por cima dessa noite difícil, sem tocar-me no corpo, e acordar no dia seguinte já familiarizado comigo, e já desoprimido do constrangimento que a nós ambos vexava — aceitaria essa graça como um presente do céu. E, no entanto, ia se despindo, afetando um grande empenho em achar-se ao meu lado, na cama...
Pobre de nós! começamos a mentir um para o outro desde o primeiro dia do nosso consórcio!
E eu já não tremia; sentia-me agora revoltada, sentia raiva! contra quem, não sei; mas sentia ódio, sentia cólera. Não que me repugnasse a idéia do primeiro contacto com um homem; não que tanto me apavorasse o segredo nupcial; mas porque não caminhara até ali arrebatada pelas garras do meu desejo; arrastada pelos impulsos do meu sexo, e porque tudo aquilo grosseiramente desrespeitava o meu direito de vontade, rebaixava o meu caráter e ofendia o meu pudor.
A minha noite de núpcias foi, pois, uma noite de sacrifícios, nem só para mim, como sem dúvida para meu marido. Não lhe compensara, decerto, tamanho constrangimento o complicado prazer, que porventura lhe proporcionou o nosso primeiro contacto, no formal desempenho daquele grosseiro enlace.
Não tive o menor gozo; tudo me fez sofrer, sofrer deveras; não só no moral, como fisicamente, e muito. Sofri e padeci, porque, na preocupação sobressaltada de esperar aquela noite, e no constrangimento e no choque daquele primeiro encontro, assim tão cerimonioso, tão previsto e tão festejado, meu corpo, sem atingir o necessário grau de apetite sexual, privou-se da indispensável e benéfica lubrificação com que a natureza protetoramente habilita e prepara, em tais casos, os nossos delicados órgãos do amor. E essa falta transformou um ato, que devia ser bom e natural, em verdadeira violência. Fez-me doer; fez-me chorar.
Apesar de toda a minha ingenuidade de donzela, compreendi que não era aquilo, com certeza, o que a natureza queria desempenhado; não era aquilo o que todo o meu corpo adivinhava depois da puberdade, reclamando-o com delícia, e enchendo-me os sonhos de amorosos enleios voluptuosos, em que o espírito se me aniquilava e só a matéria palpitava de gozo. Não! ali, naquela terrível noite, a minha razão não sucumbiu, nem os meus próprios sentidos tomaram parte na vergonhosa pugna; fiz-me paciente resignada, cônscia de estar cumprindo uma obrigação penosa, aflita por ver-me livre de semelhante sacrifício. Que fosse o verdugo meu marido, fosse Virgílio ou qualquer outro homem, ser-me-ia igual, porque não era o amor que lhe votava o que me retinha pregada àquela cruz, crucificada naquele pomposo leito de dores.
CAPÍTULO XVI
Só mais tarde comecei a achar prazer nas ligações com meu marido; os primeiros dias foram horríveis. Ainda me lembro do calefrio de medo que tive na segunda noite, quando ele quis recomeçar a campanha da véspera.
Para evitar à minha filha todo esse ridículo infortúnio, entendi e resolvi que ela devia entrar na sua vida de casada sem “pagar patente” com a clássica lua-de-mel”. De sorte que, na mesma manhã do casamento, achando-se já tudo disposto, carreguei com os noivos para a fazenda de um amigo meu, no interior da província, a qual de antemão me fora franqueada. A fazenda estava entregue apenas aos cuidados do feitor e da escravatura, enquanto os senhores passeavam na Europa.
Acomodamo-nos por lá como nos foi possível, sem arranjos especiais de quarto de noivos. Nada disso! Cada um tomou conta de seu aposento e tratou de si.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O livro de uma sogra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16536 . Acesso em: 24 mar. 2026.