Por Franklin Távora (1879)
— Deus há de ajudar-me a levar sem covardia ao Calvário a minha cruz. Façamos de conta uma vez por todas que está para sempre acabado tudo que se passou entre mim e esse homem. Sejamos de ora em diante exclusivamente a mulher casada, escrava de seu dever.
Aproximando-se de uma cadeira para apanhar um lenço que aí deixara, suas vistas caíram casualmente na parte da cama, que ficava do lado da parede. Sobre o alvo lençol, neste ponto não revolvido, viam-se marcas de pés grosseiros, que indicavam pelos traços negros, terem andado em chão imundo.
Maurícia mal pode descobrir esta indigna visão, sem cair ferida de vergonha e dor. Compreendeu toda a infâmia de Bezerra. Diante de tal testemunho de insólita baixeza, nenhuma mulher se conservaria dentro dos limites da discrição. Abriu a porta arrebatadamente e correu para a cozinha. Que ia fazer? Ela mesma não podia saber. A verdade, porém, é que ela estava desvairada. Chegando ali encontrou Faustino.
— Vosmecê vem ralhar comigo, sinhá Dona Maurícia, por eu estar brigando com Brígida? — perguntou o moleque tanto que reconheceu pelo semblante de Maurícia a cólera que lhe ia na alma.
Maurícia nada disse. Não podia falar. Tinha a voz presa por oculta garra.
— Vosmecê me perdoe — continuou o moleque em tom de humildade despeitosa. Eu queria muito bem a essa negra, mas ele me fez ontem uma só me deu a vontade de a matar. Vosmecê sabe que minha senhora prometeu que Brígida havia de casar comigo. Mas de que serviu esta promessa? A negra botou as mangas de fora, e tem andado solta como as bestas do engenho, Ontem de noite, quando eu cheguei do Recife, onde tinha ido de tarde, por mandado de meu senhor, não achei Brígida aqui. A porta do corredor, que vosmecê costuma fechar todas as noites, estava aberta, Há muitos dias que eu andava suspeitando uma coisa muito feira. Por isso, deixei-me ficar na sala. De uma vez, ouvi abrir a porta do gabinete e apontar um vulto branco; fugi para o corredor para esperar por ele, supondo que era Brígida; mas assim que fugi, o vulto foi outra vez meter-se no gabinete. Não pude ter-me e corri até lá a ver se dava com a negra; mas achei a porta trancada. Não pude sair da sala. Estive aí até amanhecer. Quando seu Bezerra abriu a porta da rua e saiu, eu, que estava detrás da porta do corredor, via negra tomar da sala para a cozinha. É por isso que eu estava ralhando com Brígida. — E onde está ela? - perguntou Maurícia
— Fugiu com medo de mim para a casa-grande.
Não havia que duvidar. Os indícios acabavam de ter a mais cabal confirmação. O torpe segredo estava já nos domínios da cozinha. Se houvesse encontrado a negra, Maurícia teria talvez praticado um desatino que não se compadecia com a sua índole e educação; mas, na ausência do objeto do seu ódio, do seu desprezo e da sua vingança, ela não pode suster o pranto. Nunca se vira tão aviltada aos seus olhos.
— Vosmecê não chore, que aquela negra não há de voltar mais aqui - disse o moleque.
— E que tem que ela volte ou não, se já aqui deixou a sua infâmia? — respondeu Maurícia. Não te entristeças, Faustino. Vou contar tudo a D. Carolina, a fim de ver se ela põe cobro à ousadia de Brígida.
— Vosmecê pode contar à minha senhora o que se passou, mas eu nada tenho com isso, porque eu não quero mais saber de Brígida. Ela para mim está cortada.
— Que está dizendo?
— É o que digo a vosmecê. Deus me livre de casar com uma negra tão ruim. Não faltam negras boas no engenho de meu senhor. Eu para mim não a quero nem de graça.
Maurícia encaminhou-se imediatamente para a casa-grande. Antecipando-se, Brígida inutilizara toda a obra que a infeliz senhora devera levantar, sobre verdadeiros fundamentos, no espírito da senhora do engenho. Não acreditou esta nas palavras de Maurícia. Atribuiu tudo a ciúme, desculpando a negra, que, em seu conceito, segundo disse, era incapaz de tal procedimento; Sucedeu, então, o que não é raro em tal caso, Maurícia, que antes do casamento de Paulo com Virgínia, era objeto de particulares atenções, tanto que por tal casamento entrou nos laços da família, já não merecia a mesma urbanidade. Descontente, procurou Albuquerque para desaforar no seio dele as novas aflições e pedir-lhe providências e conselhos. Que outros passos poderia dar, sentindo-se quase fora de si pela dor que lhe deixara o golpe inesperado e nefando?
Albuquerque, depois de ouvir a sua narrativa sem lhe fazer a menor observação, disse simplesmente em resposta.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.