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#Romances#Literatura Brasileira

O Seminarista

Por Bernardo Guimarães (1872)

Possuía ele em alto grau os mais eminentes predicados de orador sagrado. A uma bela e imponente figura, a um acionado largo e majestoso, a uma voz cheia, vibrante e sonora reunia a palavra ardente e repassada de unção, a eloqüência que se inspira em sua verdadeira fonte, na abundância do coração. O rico e formoso templo do Bom Jesus regurgitava de povo que acudira ansioso para ouvir a palavra do santo e eloqüente missionário.

Quando assomou no púlpito aquela nobre e veneranda figura, aquele busto, cujas linhas corretas e harmoniosas podiam servir de modelo ao escultor de gosto o mais severo para a imagem de um santo, possuído de respeito e admiração, cuidaríeis ver surgir do interior do templo o vulto do santo seu homônimo, do austero cenobita dos desertos da Calcida.

Era uma santa virgem e mártir que a igreja comemorava nesse dia. O elogio da castidade formou naturalmente o tema principal do sermão.

O orador depois de ter feito um brilhante panegírico da vida da santa, passou no epílogo a fulminar com os raios de sua eloqüência a moleza, o apetite sensual e os desvarios das paixões mundanas, e divinizou a castidade — a mais excelsa entre todas as virtudes, esse lírio puro e peregrino, cuja fragrância é mais grata ao Senhor do que os cânticos dos anjos, e do que todo o incenso que se queima em seus altares.

Para dar maior realce ao painel, traçou com mão de mestre uma viva pintura da sedução de Eva tentada pela serpente no paraíso.

— A concupiscência — dizia ele — é a serpente, que destila dos lábios enganosos o veneno que nos dá morte à alma e nos faz perder para sempre as delicias da celeste Jerusalém. Feliz aquele que? como a virgem mártir cujas virtudes hoje a igreja comemora, pode esmagar aos pés a cabeça da serpente maldita, e exclamar triunfante, enquanto ela se estorce moribunda no chão — "Afasta-te, Satanás!..."

Inspirando-se nas páginas ardentes e sublimes do santo de seu nome, exclamava com ele:

"Soldado efeminado, que fazes tu sentado à sombra do lar paterno? tu repousas, e a trombeta divina enche o espaço dos seus clangores! O divino combatente aparece sobre as nuvens; uma espada de dois gumes sai de sua boca. Ele corre, derriba e despedaça; e tu não queres deixar o teu leito pelo campo de batalha, a escuridão em que jazes pelo esplendor do sol! levanta-te! a coragem te dará força."

"Visses embora teu pai, tua mãe ou tua amante atravessada à soleira de tua porta para impedir-te a passagem, passa sem derramar lágrimas; passa, tu és soldado; lá está o teu estandarte; é a cruz!

"Deserto esmaltado de flores de Cristo!... solidão, onde se engendram as pedras de que é construída a Sion celestial! santos eremitérios, em que se conversa familiarmente com Deus, infeliz daquele que vos desconhece, e mais infeliz ainda aquele que, vos conhecendo, vos foge e vos evita!"

Fazendo aquela, viva e eloqüente apologia da vida casta e solitária, Jerônimo procedia por pedido especial e recomendação de seus colegas de Congonhas, que o tinham inteirado da situação de Eugênio, e assim todas aquelas calorosas e veementes apóstrofes iam com direção calculada ao espírito do mancebo, o qual sem nada suspeitar as escutava absorto, e sentia a palavra santa penetrar-lhe como lâmina ardente até o âmago do coração.

A pintura da serpente rastejando aos pés de Eva no paraíso para seduzi-la e arrastá-la à perdição, fez a mais viva impressão, e trouxe-lhe à memória a aventura da infância de Margarida, enleada e afagada por uma cobra, aventura que tão funesta apreensão deixara no espírito de sua mãe. Encontrando a mais exata e palpitante analogia entre o episódio do Gênesis, e aquele incidente de sua infância, Eugênio estremeceu.

Já para ele não havia dúvida: aquele acontecimento era um aviso do céu; aquela serpente fatídica era o demônio; e Margarida, nova Eva por ele seduzida, lhe oferecia o pomo fatal, e o levava ao caminho do exílio e da perdição eterna.

Ajoelhado em oração e debruçado à beira do leito, Eugênio adormeceu, e viu-se em sonho transportado ao meio de um templo magnífico, inundado de esplendores, de perfumes e harmonias. Súbito abriu-se a abóbada do templo, e um coro de anjos, que descia do céu, baixou sobre ele. O anjo que vinha à frente de todos tinha a figura de Margarida, e trazia na mão uma palma. Postando-se diante dele entregou-lhe a palma, e disse-lhe apontando para o altar: — Eis ali o caminho do céu!

Eugênio olhou para o altar e viu que a Virgem, que se achava sobre o trono lhe sorria e acenava chamando-o a si.

(continua...)

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