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#Romances#Literatura Brasileira

O Garimpeiro

Por Bernardo Guimarães (1872)

- Elias, tens razão de me odiar, de me amaldiçoar mesmo; mas acredita-me, eu não sou culpada; um dia saberás tudo, e estou certa que me perdoarás. Eu te amo ainda, e te amarei sempre; mas o céu não quer que sejamos um do outro. Curvo-me à impiedade de meu destino, esperando que a morte em breve virá pôr termo a meus martírios. Adeus! . . .

Seriam estas as últimas palavras, que lhe dirigiria, e depois se devotaria inteira ao sacrifício que lhe era imposto. Mas nem isso, nem esse extremo consolo lhe era dado, e ainda mais penível se tornava sua situação, quando se lembrava que naquela fatal noite Elias apenas lhe relanceara um olhar sinistro e exprobrador.

No dia em que fora preso Leonel, Lúcia inculcando-se restabelecida, levantou-se da cama, em que há dois dias jazia; mas achava-se ainda muito alquebrada para poder sair do quarto.

Logo depois da cena da prisão, o Major dirigiu-se ao quarto de sua filha.

-minha filha, disse ele, reveste-te de paciência e de coragem; tenho mais um triste contratempo a anunciar-te.

- Qual é, meu pai? . . . fale! fale! . . .

- Não te aflijas, querida Lúcia. O golpe é bem sensível, mas creio que mais para mim, do que para ti. O negócio há de ser sabido imediatamente, e antes que outro te conte, quero que o saibas de minha própria boca.

- Então o que é, meu pai? . . . pode falar sem susto. Eu já estou acostumada a ouvir más novas.

- Acabo de assistir a uma cena bem triste. Leonel, o teu noivo, acaba de ser preso aqui à porta de nossa casa! . . .

- Sim, meu pai? ! . . . exclamou Lúcia, levantando-se com um brilho estranho nos olhos, que o pai tomou por um novo acesso de delírio, e que não era mais do que um lampejo de uma alegria que quase se parecia com a loucura.

- Sim? continuou ela. O Sr. Leonel preso? e por que, meu pai?

- Não sei ainda; mas sem dúvida pelo crime de moeda falsa, de que o acusava o pobre Elias. . . E ninguém acreditava! . . . meu Deus! . . . como são as coisas deste mundo! . . .

- E que sina a minha, meu pai! ah! não há nada certo nem seguro neste mundo!

-tranqüiliza-te, minha filha; e dá graças ao céu que nos veio livrar talvez das garras de um embusteiro, de um monstro. Foi para nós uma felicidade.

- Foi mesmo, meu pai; foi uma felicidade muito grande. Aquele homem, não sei por que, fazia-me medo. Uma antipatia invencível me arredava dele. . . Ah! . . . foi como se me tirassem um peso de cima do coração!

- E como te resignavas a casar-te com ele? . . .

- Era um sacrifício, meu pai.

- Sacrifício!

- Sim, meu pai, um sacrifício, mas um sacrifício para sua felicidade e de minha irmã; um sacrifício imposto pelo dever. Já não se lembra de assim mo ter declarado?

- Lembro-me, Lúcia; mas se soubesse que tinhas tanta repugnância. . .

-muita! muita repugnância!

-se eu o soubesse, antes queria sofrer toda a sorte de misérias, do que tornar para sempre desgraçada a minha filha. . .

- É verdade! eu seria muito, muito desgraçada.

- E por que te não abrias comigo com toda a franqueza?

- À vista do que meu pai me falou, era meu dever calar-me e submeter-me.

- Ó boa e querida filha. . . e como teu coração adivinhava! e eu, cego e cruel pai que eu era! te ia arrastando sem piedade para tão duro sacrifício! . . . perdoa-me, minha Lúcia. Louco e desventurado pai que sou! . . .

-meu pai, esqueçamo- nos de tudo isso; agora só devemos nos alegrar e dar graças ao céu que tão a tempo nos veio livrar das mãos daquele homem que só queria a nossa perdição.

-tens razão, minha filha; demos graças ao céu. Adeus; vai descansar. Ainda não estás boa, e tens necessidade de repousar. Adeus.

Apenas o Major saiu, Lúcia foi lançar-se de joelhos aos pés de um crucifixo, que tinha pendurado à cabeceira do catre, e com todo o fervor de seu coração murmurou esta oração de graças:

“Ó meu pai do céu, eu vos rendo infinitas graças pelo imenso benefício que acabais de fazer-me, livrando-me das ciladas e um malfeitor, que me queria arrojar no abismo da perdição e da desgraça. Eu bem sei que não merecia tão assinalado favor, mas vós sois bom, e tivestes piedade de mim. Mas lembrai- vos também do infeliz Elias! . . . O pobre Elias! . . . tem direito de me querer mal. . . só me falta o seu perdão. Ah! Elias! quando souberes de tudo, tu me perdoarás. . . ”

Mal ia Lúcia acabando aquela prece, que do trono do Onipotente ia sensivelmente se desviando para a pessoa de seu amante, quando entrou Joana no quarto.

- Estava rezando, sinhazinha? faz bem; o rezar alivia muito o coração da gente, quando está aflito.

- Estava, sim, Joana; o que me queres?

- Aqui está, disse a escrava apresentando-lhe um bilhete.

(continua...)

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