Por Bernardo Guimarães (1872)
A febre de Paulina tinha declinado consideravelmente, e tinha-lhe voltado a calma e lucidez do espírito; mas achava-se em estado de debilidade e prostração tal, que parecia estar em delíquio. O médico e o pai fizeram-lhe algumas perguntas, a que respondeu com voz lenta e fraca, porém com muito acordo e conveniência.
– Está extremamente fraca, – disse o padre, – mas antes isso... é a reação da febre; se não sobrevier algum outro acesso, não há mais perigo... É preciso ir-lhe dando desde já os cordiais, que indiquei, nada de alimentos, e sobretudo muito sossego. Vamo-nos, sr. Ribeiro; deixemos a menina descansar...
– Não, senhor padre; podem ficar e conversar... não sinto por ora necessidade de repouso. Por que não aparece também o sr. Eduardo?... e o primo... que é dele, meu pai?...
– Roberto, – respondeu-lhe o pai, – teve precisão de ir a casa, – e volta logo à noite. Queres que chame o sr. Eduardo?
Paulina fez um aceno afirmativo.
Ribeiro fez um sinal ao padre chamando-o para fora do quarto.
– Que diz, senhor padre, – perguntou-lhe, apenas saíram, – acha que não haverá inconveniente em deixar que Paulina se entretenha alguns instantes com esse moço?...
– Eu sei, meu amigo?... a presença dele vai-lhe avivar uma lembrança que convinha trazer-lhe sempre arredada do espírito o mais que fosse possível.
– Mas, senhor padre, de que serve não se achar ele ali, se ela o traz sempre presente na imaginação? assim melhor será, que de fato esteja presente; ela quer-lhe tanto... talvez a presença dele lhe sirva de algum alívio e consolação.
– Pode ser; mas recomende ao moço toda a cautela e moderação...
uma conversação só para distraí-la e nada de tocar em assuntos melindrosos, nada de excitar-lhe emoções...
O bom padre não considerava, que bastava verem-se para alvoroçarse um pego de emoções no fundo daquelas duas almas tão amantes, e tão desafortunadas.
Eduardo ainda se achava à sombra da gameleira, absorvido em suas amargas reflexões, quando delas foi distraído pelo chamado de Joaquim Ribeiro.
Introduzido no quarto de Paulina, Eduardo foi sentar-se triste e silencioso junto à sua cabeceira.
– Bem aparecido, sr. Eduardo! – disse-lhe ela; – estava mesmo com vontade de o ver. Acho-me tão tranqüila!... parece que a paz dos anjos desceu sobre a minha alma...
– Não faz idéia, d. Paulina, do quanto me alegram suas melhoras...
– Mas acho-me tão fraca... tão fraca, que quase não posso mover-me... o que vale é que o senhor me quer bem, e o seu amor me há de dar alento e vida, não é assim?
– Sim, d. Paulina, – exclamou o mancebo tomando-lhe a mão que pendia à beira da cama, como um jasmim debruçado à borda de um vaso de alabastro; – o amor que lhe tenho é muito grande, e se este amor pode restituir-lhe a saúde perdida, a vida e a felicidade, eu me julgarei o homem mais afortunado do mundo... mas, d. Paulina, é preciso que a senhora se tranqüilize, e evite essas lembranças. Tratemos primeiramente da sua saúde, da sua vida, que também é a minha, ouviu, d. Paulina? depois, quando se achar melhor trataremos do nosso amor.
– Não, não, sr. Eduardo; tratemos dele já; tratemos dele sempre; é só ele que me dá algum alívio aos meus padecimentos... diga-me, esteve com o primo? falou com ele?...
– Ah! meu Deus! meu Deus! que hei de eu dizer-lhe?... pensou Eduardo no maior embaraço, e respondeu tropeçando nas palavras:
– Com o sr. Roberto? ah!... sim... falei-lhe... porém ele...
– Acabe... mas para quê? já sei; não quis ceder por nada, não é assim?
– Não é isso, d. Paulina; é que ele nada quis decidir; estava de muito mau humor.
– Que disfarce, sr. Eduardo! para que quer enganar-me?... bem se está vendo por esse seu ar triste, por suas meias palavras, que não há para nós esperança de felicidade. Que lhe dizia eu, sr. Eduardo?
Paulina, que meio sentada tinha a cabeça encostada à cabeceira do catre, deixou-a cair tristemente sobre o peito.
– Não quero enganá-la, não d. Paulina; por quem é, não desanime assim. Seu primo ficou muito agastado, é verdade; era isso muito natural naquele primeiro choque, que tanto o devia magoar... decerto mais tarde, refletindo friamente...
– Qual!... nunca! nunca!... é impossível!... interrompeu a moça abanando tristemente a cabeça. Eu conheço-o muito... desde criança; é mais fácil morrer do que consentir que eu me case com outro. Que loucura a daquele pobre primo! não vê que não encontrará mais do que um cadáver? Fuja, senhor Eduardo; suma-se da minha presença! eu sou dele. Cumpra o seu juramento. Eu também jurei... não vê este beijo na face... ainda me está ardendo como brasa... isto é mais que um juramento...
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.