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#Romances#Literatura Brasileira

Diva

Por José de Alencar (1864)

—Fuja, senhora! Ela não se moveu; ficou muda enquanto os ecos da voz de Julinha continuando a chamála ressoavam ao longe. Quando o silêncio restabeleceu-se, e parecia que a prima se tinha afastado, ela veio colocar-se em face de mim, e erigindo o talhe e cruzando os braços afrontou-me com o olhar. —O senhor é um infame! disse com arrogância. 

Fiz um esforço supremo; inclinei-me para beijar-lhe a fronte. 

Seu hálito abrasado passou em meu rosto como um sopro de tormenta. 

Ela atirara rapidamente para trás a altiva cabeça, arqueando o talhe; e sua mão fina e nervosa flagelou-me a face sem piedade, Quando dei acordo de mim, Emília estava a meus pés. Sem sentir eu lhe travara dos pulsos e a prostrara de joelhos diante de mim, como se a quisera esmagar. Apesar da minha raiva e da violência com que a molestava, essa orgulhosa menina não exalava um queixume ; soltei-lhe os braços magoados e ela caiu com a fronte sobre a areia. —Criança!... E louca!... murmurei afastando-me. 

Emília arrastou-se de joelhos pelo chão. Apertou-me convulsa as mãos, erguendo para mim seu divino semblante que o pranto orvalhava. 

—Perdão!... soluçou a voz maviosa. Perdão, Augusto! Eu te amo!... 

Seus lábios úmidos das lágrimas pousaram rápidos na minha face, onde a sua, mão tinha tocado. E ela ali estava diante de mim, e sorria submissa e amante. 

Fechei os olhos. Corri espavorido, fugindo como um fantasma a essa visão sinistra.

XX 

SIM, Augusto, eu te amo!... Já não tenho outra consciência de minha vida. Sei que existo, porque te amo. 

"Naquele momento, de joelhos, a teus pés, essa grande luz encheu meu coração. Acabava de ultrajar-te cruelmente; detestava-te com todas as forças de minha alma; e de repente todo aquele ódio violento e profundo fez-se amor! Mas que amor! "Desde então me sinto como inundada por este imenso júbilo de amar. Minha alma é grande e forte; guardei-a até agora virgem e pura ; nem uma emoção fatigou-a ainda. Entretanto receio que ela não baste para tanta paixão. É preciso que eu derrame em torno de mim a felicidade que me esmaga. 

"Por que me fugiste, Augusto?... Segui-te repetindo mil vezes que te amava; confessei-o a cada flor que me cercava, a cada estrela que luzia no céu. Minha alma vinha aos meus lábios para voar a ti nesta abençoada palavra, —eu te amo! Tudo em mim, meus olhos cheios de lágrimas, minhas mãos súplices, meus cabelos soltos, se tivessem uma voz, falariam para dizer-te, —ela te ama! "Beijei na areia os sinais de teus passos, beijei os meus braços .que tu havias apertado, beijei a mão que te ultrajara num momento de loucura, e os meus próprios lábios que roçaram tua face num beijo de perdão. 

"Que suprema delícia, meu Deus, foi para mim a dor que me causavam os meus pulsos magoados pelas tuas mãos! Como abençoei este sofrimento!... Era alguma cousa de ti, um ímpeto de tua alma, a tua cólera e indignação, que tinham ficado em minha pessoa e entravam em mim para tomar posse do que te pertencia. Pedi a Deus que tornasse indelével esse vestígio de tua ira, que me santificara como uma cousa tua! "Vieram encontrar-me submergida assim na minha felicidade. 

Interrogaram-me; porém eu só ouvia os cânticos de minha alma cheia das melodias do meu amor. Não lhes falei, com receio de profanar a minha voz, que eu respeito depois que ela te confessou que eu te amo. Não deixei que me tocassem para não te ofenderem no que é teu. 

"Quero guardar-me toda só para ti. Vem, Augusto: eu te espero. 

A minha vida terminou; começo agora a viver em ti. 

"Tua Emília." São onze horas. 

Recebo agora esta carta, aqui na cidade. 

Quando fugi ontem de Emília, tinha tão grande terror de mim mesmo, que não me animei a ficar no Rio Comprido. 

Acabando de ler o que ela me escrevera, pedi a Deus que me desse coragem para resistir: 

—Senhor! Vós sabeis que eu não devo amar essa mulher! Seria uma infâmia!... 

Achei Emília sentada em uma cadeira, absorta em seu enlevo. 

Vendo-me, toda essa bela criatura assumiu-se num só e inefável sorriso para cair aos meus pés, difundindo sua alma nestas palavras impetuosas: 

—Eu te amo, Augusto! Depois continuou repetindo uma e muitas vezes a mesma frase, como se estudasse uma modulação de voz que pudesse exprimir quanto havia de sublime naquele grito d'alma. —Sim! Eu te amo!... Eu te amo!... 

Eram as notas da celeste harmonia que seu coração vibrava, como o rouxinol canta na primavera e as harpas eólias ressoam ao sopro de Deus. 

Quando ela desafogou sua alma desta exuberância da paixão, falei-lhe : 

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