Por José de Alencar (1870)
A moça levantou-se da mesa lançando ao leão um olhar desdenhoso, e foi sentar-se ao piano. Enquanto ela tocava uma variação de Thalberg, Horácio para fazer alguma coisa, se entreteve em arranjar as figuras chinesas de um jogo de paciência. Nunca ele precisara tanto de prover-se dessa virtude evangélica.
Decorridos alguns instantes o leão ergueu-se da mesa, deu algumas voltas pela sala, e aproximou-se do piano, como para ver a elegância com que a moça dedilhava.
— A senhora acha muito natural, D. Amélia, que uma noiva freqüente assiduamente uma casa onde não tem entrada o homem com quem vai casar-se; acha natural que essa moça tenha em tais reuniões um par efetivo que provavelmente cultiva uma dessas amizades cândidas dos romances de Balzac, verdadeiros lírios do vale, que vivem de orvalhos e de sombras. Eu, porém, sou um espírito prosaico e material; tenho a infelicidade de não acreditar na atração misteriosa dos espíritos, no consórcio ideal ias almas irmãs, nos sonhos etéreos, nos eflúvios celestes, em toda essa gíria sentimental. Para mim, inteligência grosseira, tudo isso não passa de uma hipocrisia do primeiro tartufo deste mundo, o amor. É um tiranete que toma todas as figuras e posições; faz-se menino ou velho, anjo ou demônio, poeta ou banqueiro... Estou incomodando-a talvez?
— Não; acabe.
A moça fazia com uma ligeira surdina o acompanhamento das palavras do leão; mas à última frase, ela retirou as mãos do teclado. Foi esse o motivo da pergunta de Horácio.
— A senhora deve sentir muito, e Leopoldo com maior razão, de serem privados de uma distração que tanto lhes agrada!
— Compreendo, replicou Amélia. O senhor me proíbe que eu vá à casa de D. Clementina?
— Que idéia! Não tenho direito de proibir; ainda não sou seu marido; a senhora é completamente livre de suas ações, pode ir à casa de D. Clementina, ou onde lhe aprouver; assim como eu posso, querendo, passar as noites no Clube ou no Alcázar.
Amélia soltou uma risada.
— Pensava que os leões estavam isentos dessa fragilidade do ciúme.
— Perdão; não se trata de ciúme, nem sei o que isso é. A questão reduz-se a uma antipatia de caracteres, a uma contradição de gênios, que deve ter para o futuro graves conseqüências. A senhora é idealista, eu sou materialista. Um quisera viver no mundo dos sonhos, outro neste vale das lágrimas e das realidades. A senhora procurando-me no céu entre as estrelas e os anjos, e não me achando aí, sofreria uma cruel decepção; entretanto que eu na terra, ficarei reduzido à sombra da mulher que amei.
— Não é tão pouco, para quem se contentava com um pé de criança, disse Amélia com ironia.
— Mas esse pé era a realidade, a expressão a mais sublime dela!
— Custa-lhe pouco a possuir essa realidade. Mande fabricá-la em cera: sairá ainda mais perfeita.
— Ainda não perdi a esperança de encontrá-la.
O chá interrompeu o diálogo. Os dois noivos aproximaram da mesa oval, onde o criado acabava de colocar a bandeja.
A fisionomia de Amélia perdera a expressão de tristeza e desânimo que tinha a princípio; a conversa lhe deixara no semblante alguns tons vivos.
Ocupada em dispor as xícaras para enchê-las, os gestos sempre macios da moça revelavam certa crispação nervosa.
Horácio ficara contrariado, porque não tivera tempo de precipitar o casus belli. Receava que se demorasse ainda o rompimento que ele tanto desejava.
— Mamãe, disse Amélia com intenção, amanhã é quinta-feira. Vamos passar a noite em casa de D. Clementina?
— Se quiseres.
— Não devemos faltar; deixamos de ir a semana passada.
— Foi logo depois do baile do Azevedo.
— Não o convido, disse Amélia voltando-se para Horácio, porque o senhor não freqüenta essas reuniões de gente pobre.
— Sem dúvida; tenho medo de evaporar-me em devaneios e suspiros, respondeu Horácio, cruzando com a moça um olhar de desafio.
Ele sentiu que Amélia o provocava, e exultou. A moça estava disposta a resistir; o rompimento era infalível e pronto.
— Eu gosto bem dessas partidas; a noite passa tão agradável.
Aproveitando-se de um momento em que D. Leonor se afastou, Horácio atirou à moça rapidamente estas palavras:
— Pois se a senhora voltar à casa de D. Clementina, eu não voltarei mais aqui.
Amélia estremeceu.
Um quarto de hora depois, Horácio retirou-se. Quando se despedia das senhoras, disse o leão à moça apertando-lhe a mão:
— Desejo que se divirta muito amanhã.
— Aonde? perguntou D. Leonor.
— Em casa de D. Clementina. Não vai, D. Amélia?
A moça hesitou um instante. O ofego de seu colo traiu uma luta violenta, mas rápida.
Sua resolução, antes que ela a exprimisse, manifestou-se na altivez do porte, que uma vibração íntima erigira.
– Vou sem falta!
Horácio, soltando a mão da moça, que foi bater inerte nos folhos do vestido, cortejou profundamente:
— Seja muito feliz.
(continua...)
ALENCAR, José de. A Pata da Gazela. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16673 . Acesso em: 8 jan. 2026.