Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
Já fica dito como os tamoios são fronteiros de outro gentio, que se chamam os guaianases, os quais têm sua demarcação ao longo da costa por Angra dos Reis, e daí até o rio de Cananéia, onde ficam vizinhando com outra casta de gentios, que se chama os carijós. Estes guaianases têm contínuamente guerra com os tamoios, de uma banda, e com os carijós da outra, e matam-se uns aos outros cruelmente; não são os guaianases maliciosos, nem refalsados, antes simples e bem acondicionados, e facílimos de crer em qualquer coisa. É gente de pouco trabalho, muito molar, não usam entre si lavoura, vivem de caça que matam e peixe que tomam nos rios, e das frutas silvestres que o mato dá; são grandes flecheiros e inimigos de carne humana. Não matam aos que cativam, mas aceitam-nos por seus escravos; se encontram com gente branca, não fazem nenhum dano, antes boa companhia, e quem acerta de ter um escravo guaianás não espera dêle nenhum serviço, porque é gente folgazã de natureza e não sabe trabalhar. Não costuma este gentio fazer guerra a seus contrários, fora dos seus limites, nem os vão buscar nas suas vivendas, porque não sabem pelejar entre o mato, senão no campo aonde vivem, e se defendem com seus arcos e flechas dos tamoios, quando lhe vêm fazer guerra, com quem pelejam no campo mui valentemente e às flechadas, as quais sabem empregar tão bem como os seus contrários. Não vive este gentio em aldeias com casas arrumadas, como os tamoios seus vizinhos, mas em covas pelo campo, debaixo do chão, onde têm fogo de noite e de dia e fazem suas camas de rama e peles de alimárias que matam. A linguagem deste gentio é diferente da de seus vizinhos, mas entendem-se com os carijós; são na cor e proporção do corpo como os tamoios, e têm muitas gentilidades, como o mais gentio da costa.
C A P Í T U L O LXIV
Em que se declara a costa do rio de Santo Amaro até a Cananéia.
Atrás fica dito como se divide a capitania de São Vicente da de Santo Amaro pelo esteiro de Santos, e como a vila de Santo Amaro é cabeça desta capitania, da qual o rio da Cananéia são vinte e cinco léguas ou trinta, antes da qual se acaba a capitania de Santo Amaro, e corre-se esta costa de Santo Amaro até a Cananéia nordeste-sudoeste, e toma da quarta do leste-oeste, a qual terra é toda boa para se poder aproveitar, e tem muitos riachos, que se vêm meter no mar, entre os quais é um que está onze léguas, antes que cheguem a Cananéia, a qual faz na boca uma enseada, que tem uma ilha junto ao rio, que se diz a ilha Branca. Este rio da Cananéia está vinte e cinco graus e meio, no qual rio entram navios da costa, e se navega por êle acima algumas léguas, e é muito capaz para se poder povoar, e para se fazer muita conta dele, por ser mui abastado de pescado e marisco, e por ter muita caça, cuja terra é muito fértil, na qual se dão muitos mantimentos dos naturais, e se dará tudo o que lhe plantam, toda a criação de gado que lhe lançarem, por ter grande cômodo para isso. Tem o rio da Cananéia na boca uma abra grande, no meio da qual, bem defronte do rio, tem uma ilha, e nesta abra está grande porto e abrigada para os navios, onde podem estar seguras naus de todo o porte, porque tem fundo para isso.
C A P Í T U L O LXV
Em que se declara a costa da Cananéia até o rio de São Francisco.
Do rio da Cananéia até o cabo do Padrão são cinco léguas, junto do qual está uma ilheta chegada à terra e chama-se este cabo do Padrão, por aqui se assentar um pelos primeiros descobridores desta costa. Do cabo do Padrão ao rio de Santo Antônio são oito léguas, o qual está em vinte graus esforçados e dois terços.
Neste rio entram barcos da costa à vontade. Do rio de Santo Antônio ao Alagado são cinco léguas, e entre um e outra está uma ilheta chegada à terra.
Do rio Alagado ao de São Francisco são cinco léguas, o qual está em vinte seis graus e dois terços e tem na boca três ilhéus. Neste rio entram navios da costa, onde estão seguros de todo o tempo; chama-se este rio de São Francisco, porque afirmam os povoadores da capitania de São Vicente que se informaram do gentio donde vinha este rio que entra no mar desta costa, e que lhe afirmaram ser um braço do Pará, a que os portugueses chamam de São Francisco, que é o que já dissemos, o que não parece possível, segundo o lugar onde se vai meter no mar tão distante deste. Por este rio entra a maré muito, por onde se navega barcos com barcos, no qual se metem muitas ribeiras. Este rio tem grandes pescarias e muito marisco, e a terra ao longo tem muita caça, e grande cômodo para se poder povoar, por ser muito fértil, e dará tudo o que lhe plantarem. A terra deste rio é alta e fragosa e povoada de gentio carijó.
Corre-se esta costa da Cananéia até o rio de São Francisco nordeste-sudoeste, e todas estas ilhas que estão por ela, as que estão à boca do rio de São Francisco têm bom porte e surgidouro para os navios ancorarem.
C A P Í T U L O LXVI
Em que se declara a costa do rio de São Francisco até a de Jumirim ou Itapucuru.
Do rio de São Francisco ao dos Dragos são cinco léguas, pelo qual entram caravelões, e tem na boca três ilhéus. Do rio dos Dragos à baía das Seis Ilhas são cinco léguas; e dessa baía ao rio Itapucuru são quatro léguas, o qual está em vinte e oito graus escassos; e corre-se a costa do Itapucuru até o rio de São Francisco norte-sul. Este rio acima dito, a que outros chamam Jumirim, tem a boca grande e ao mar dele três ilhetas, pela qual entram caravelões; e corre-se por êle acima leste-oeste, pelo qual entra a maré muito, onde há boas pescarias e muito marisco. A terra deste rio é alta e fragosa, e tem mais arvoredos que a terra atrás, especialmente águas vertentes ao mar. A terra do sertão é de campinas, como a da Espanha, e uma e outra é muito fértil e abastada de caça e muito acomodada para se poder povoar, porque se navega muito espaço por ela acima. Este rio está povoado de carijós, contrários dos guaianases, de que falamos. Já esses carijós estão de paz com os portugueses, que vivem na capitania de São Vicente e Santo Amaro, os quais vêm por mar resgatar com eles neste rio, onde se contratam, sem entre uns e outros haver desavença alguma.
C A P Í T U L O LXVII
Em que se declara a terra que há de Ita-pucuru até o rio dos Patos.
(continua...)
BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.