Por Eça de Queirós (1925)
Toda a família, de resto, gozava prodigiosamente este triunfo inesperado. Sua tia mesmo escreveu-lhe uma longa carta – que tenho diante de mim – em que a sua ternura divagava nos ziguezagues, da grossa letra de ganchos. Pedia-lhe que nunca se esquecesse de que a ela devia «a grande posição que tinha» e prometia visitá-lo com seu marido, «não só para ver as belezas da Capital, mas para te admirar agora que estás no poleiro!» Até D. Laura, tão desinteressada das coisas da terra, lia o extracto das sessões nos jornais, gozando de ver impresso o nome do genro, e o padre Augusto, apesar da sua habitual pacatez, ia agora todas as noites ao Martinho, para surpreender, no brouha-ha das conversas, os elogios dados a Alípio Abranhos. D. Virgínia, essa frequentava assiduamente a galeria da Câmara, até ao dia em que o estado adiantado da sua gravidez não lhe permitiu, como ela dizia, «mostrar-se decentemente em público».
Contudo, Alípio conservava na Câmara um silêncio discreto. Eu poderia dizer, parafraseando um dito histórico, que não estava embatucado, mas sim concentrado. No entanto, preparavase: ia-se penetrando dos hábitos parlamentares, estudava o regulamento, o mecanismo legislativo, as tricas; por assim dizer, aguçava devagar e com prudência as finas lâminas do espírito loquaz. Formava então a sua biblioteca de homem de Estado: munira-se dos discursos de Mirabeau, de Berryer, de Lamartine, de Guizot; adquiriu o útil dicionário de conversação; estudou aturadamente as instituições da Bélgica; mas, sobretudo, frequentava, escutava os velhos parlamentares, os venerandos práticos da política constitucional. Como Aquiles, recolhido na sua tenda, Alípio Abranhos forjava as suas armas para a batalha.
A sua estreia, isto é, a primeira palavra que soltou na Câmara, foi singularmente admirada. Não foi propriamente um discurso: apenas um. curto aparte. Mas, como num gole de água se contém um mundo de organismos, num aparte pode existir toda uma revolução.
Temos um exemplo clássico, desta verdade política, na sessão da Convenção que precedeu a queda de Robespierre: o sinistro e seco ditador, na tribuna, sente de repente a voz perturbarse-lhe, sumir-se-lhe...
– É o sangue de Danton que te sufoca! – grita-lhe Lemaillet.
O estremecimento, o grito de apoio que corre nas galerias a esta lúgubre apóstrofe, prova que Robespierre está bem abandonado pela França, que chegou enfim o glorioso Termidor!
O aparte do nosso Alípio não teve decerto esta ênfase trágica, porque não se tratava, felizmente, de abater um tirano. Era simplesmente a discussão da resposta ao discurso da Coroa: falava o obeso Sr. Gomos Barreto, da minoria, afecto aos Bexigosos, que, o rosto incandescente, o punho alto, atacava o ministério Cardoso Torres em períodos brutais.
– Quem sois? Para onde ides? – exclamava ele. – O que representais vós no país?.Onde estão as vossas medidas, os vossos benefícios? Ninguém vos conhece! Éreis uma minoria obscura e intrigante (ordem! ordem!). Intrigante, Sr. Presidente, uma minoria intrigante e tortuosa! De repente, vejo-vos aí, nessas cadeiras amadas do poder... Tenho o direito de vos perguntar: como vos chamais, que fazeis aí? Como entrastes vós para aqui? Vós sois o ministério que entrou para o poder com uma gazua!
Mas nesse momento Alípio ergue-se e brada:
– E vós sois o ministério que se sumiu daqui por um alçapão!
Então, a esta rancorosa alusão ao modo como o gabinete dos Bexigosos tinha desaparecido do poder, à maneira da corveta Saragoça, uma enorme hilaridade sacode as ilhargas da Câmara, das galerias, dos estenógrafos... uma hilaridade imensa, como aquela que o velho Homero põe na boca dos Deuses e que fazia tremer as colunas de cristal do Olimpo. Bravos roucos saem impetuosamente das galerias negrejantes de gente. E o presidente, o honrado Dr. Antão Carneiro, escarlate de jovialidade contida, fungando pelo nariz frouxos de riso mal comprimidos, repica furiosamente a campainha...
– São os do alçapão! São os do alçapão! – ruge com júbilo a maioria.
As lunetas de Gomes Barreto caíram; bagas de suor cobrem-lhe a testa cor de cidra, e, aniquilado, engolindo ainda alguns períodos confusos, rola da tribuna com a inércia de uma pedra desequilibrada!
Todos os jornais, na manhã seguinte, citavam o dito, e Alípio Abranhos entrou na popularidade.
Gozou ele este triunfo? Não. Muitas vezes mo disse mais tarde: aquele dito saíra-lhe da boca inesperadamente, involuntariamente, como um ataque de tosse, como um arroto! Não o pudera conter. O que ele estava preparando, desde o começo do discurso de Gomes Barreto, era esta bela frase: «Nós chamamo-nos o Progresso e vamos para a Liberdade!» E infelizmente saíra-lhe este dito, pitoresco sim, mas baixamente popular.
Alípio Abranhos teve assim o desgosto de passar durante algum tempo por «um grande chalaceador».
As orelhas abrasaram-se-lhe de vergonha quando, nessa noite, o padre Augusto lhe veio dizer que no Martinho era voz geral que «para chalaça não havia outro!»
Quisera estrear-se, mostrando a profundeza de um filósofo, e faziam-lhe a reputação de um folhetinista... Teve rancor ao seu aparte. Negá-lo era impossível: lá vinha ao outro dia no Diário das Câmaras, com esta indicação do movimento (imensa hilaridade).
Teve então de sofrer um martírio mudo, grotesco, de receber parabéns por uma façanha que o vexava. O Cardoso Torres dissera-lhe:
– É disso que se quer! E disso que se quer! Vejo que o amigo é homem de pilhéria. E matá-los com dichotes ....
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Conde d'Abranhos. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14020 . Acesso em: 29 jun. 2026.