Por Eça de Queirós (1878)
- Não. Hás de ouvir. Desde o primeiro dia que te tornei a ver estou doido por ti, como dantes, amesma coisa. Nunca deixei de me morrer por ti. Mas não tinha fortuna, tu bem o sabes, e queria-te ver rica, feliz. Não te podia levar para o Brasil. Era matar-te, meu amor! Tu imaginas lá o que aquilo é! Foi por isso que te escrevi aquela carta, mas o que eu sofri, as lágrimas que chorei!
Luísa escutava-o imóvel, a cabeça baixa, o olhar esquecido; aquela voz quente e forte, de que recebia o bafo amoroso, dominava-a, vencia-a; as mãos de Basílio penetravam com o seu calor febril a substância das suas; e, tomada de uma lassidão, sentia-se como adormecer.
- Fala, responde! - disse ele ansiosamente, sacudindo-lhe as mãos, procurando o seu olharavidamente.
- Que queres que te diga? - murmurou ela.
A sua voz tinha um tom abstrato, mal-acordado.
E desprendendo-se devagar, voltando o rosto:
- Falemos noutras coisas!
Ele balbuciava com os braços estendidos:
- Luísa! Luísa!
- Não, Basílio, não!
E na sua voz havia o arrastado de uma lamentação, com a moleza de uma carícia.
Ele então não hesitou, prendeu-a nos braços.
Luísa ficou inerte, os beiços brancos, os olhos cerrados - e Basílio, pousando-lhe a mão sobre a testa, inclinou-lhe a cabeça para trás, beijou-lhe as pálpebras devagar, a face, os lábios depois muito profundamente; os beiços dela entreabriram-se; os seus joelhos dobraram-se.
Mas de repente todo o seu corpo se endireitou, com um pudor indignado, afastou o rosto, exclamou aflita:
- Deixa-me, deixa-me!
Viera-lhe uma força nervosa; desprendeu-se, empurrou-o; e passando as mãos abertas pela testa, pelos cabelos:
- Oh meu Deus! É horrível! - murmurou. - Deixa-me! É horrível!
Ele adiantava-se com os dentes cerrados; mas Luísa recuava, dizia:
Vai-te. Que queres tu? Vai-te! Que fazes tu aqui? Deixa-me!
Ele então tranqüilizou-a com a voz subitamente serena e humilde. Não percebia. Por que se zangava? Que tinha um beijo? Ele não pedia mais. Que tinha ela imaginado, então? Adorava-a, decerto, mas puramente.
- Juro-to! - disse com força, batendo no peito.
Fê-la sentar no sofá, sentou-se ao pé dela. Falou-lhe muito sensatamente: - Via as circunstâncias, e resignar-se-ia. Seria como uma amizade de irmãos, nada mais.
Ela escutava-o, esquecida.
Decerto, dizia ele, aquela paixão era uma tortura imensa. Mas era forte, a Só queria vir vê-la, falar-lhe. Seria um sentimento ideal. - E os seus devoraram-na.
Voltou-lhe a mão, curvou-se, pôs-lhe um beijo cheio na palma. Ela estremeceu-se logo:
- Não! Vai-te!
- Bem, adeus.
Levantou-se com um movimento resignado e infeliz. E limpando devagar a seda do chapéu.
- Bem, adeus - repetiu melancolicamente.
- Adeus
Basílio disse então com muita ternura:
- Estás zangada?
- Não!
- Escuta - murmurou, adiantando-se.
Luísa bateu com o pé.
- Oh, que homem! Deixa-me! Amanhã. Adeus. Vai-te! Amanhã!
- Amanhã! - disse ele, baixinho.
E saiu rapidamente.
Luísa entrou no quarto toda nervosa. E ao passar diante do espelho ficou surpreendida: nunca se vira tão linda! Deu alguns passos calada.
Juliana arrumava roupa branca num gavetão do guarda-vestidos. Quem tocou há bocado? perguntou Luísa.
- Foi o Sr. Sebastião. Não quis entrar; disse que voltava.
Tinha dito, com efeito, que voltava. Mas começava quase a envergonhar-se de vir assim todos os dias, e encontrá-la sempre "com uma visita!"
Logo no primeiro dia ficara muito surpreendido quando Juliana lhe disse:
- Um sujeito! Um rapaz novo que já cá esteve ontem!" Quem seria? todos os amigos da casa...Seria algum empregado da secretaria ou algum proprietário de minas, o filho do Alonso, talvez; um negócio de Jorge decerto...
Depois no domingo, à noite, trazia-lhe a partitura de Romeu e Julieta, de Gounod, que ela desejava tanto ouvir, e quando Juliana lhe disse da varanda que tinha saído com D. Felicidade de carruagem, ficou muito embaraçado com o grosso volume debaixo do braço, coçando devagar a barba. Onde teriam ido? Lembrou-se do entusiasmo de D. Felicidade pelo Teatro de D. Maria. Mas irem sós, naquele calor de julho, ao teatro! Enfim, era possível. Foi a D. Maria.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.