Por Lima Barreto (1909)
O doutor Gregoróvitch não chegava e comecei a sentir-me também invadido por aquela atmosfera de terror. O diretor tinha voltado ao seu gabinete e continuou a rasgar papel. Certa vez, levantou-se, foi até à janela e, na volta, eu pude ver o seu maxilar proeminente e quadrado e o ar terrível que tinha a sua fisionomia banhada da turva luz que se desprendia do olhar. Então, admirei-me que aquele homem, sob cujo nome apareciam tão formidáveis ataques aos nossos problemáticos tiranos, fosse ele mesmo, na administração de sua folha, um tirano malcriado e feroz. Ele parecia não achar sossego: sentava-se, levantava-se, ia à janela; por fim saiu estrepitosamente. Ao chegar à porta que dava para o corredor, voltou e gritou a esmo:
— O Gregoróvitch já veio?
A um só tempo quase todos responderam prestamente:
— Ainda não, senhor doutor.
—Bem, retrucou o doutor Ricardo. Quando ele chegar, digam-lhe que escreva um artigo sobre o empréstimo da Prefeitura... É preciso não deixar descansar esses tratantes! Lá em cima da minha mesa, acrescentou logo, está o começo do meu e ele que continue...
Leporace veio até à porta receber as recomendações, embora Loberant não se tivesse dirigido a ele. Logo que o diretor saiu, correu-lhe à mesa para apanhar os preciosos escritos. Vi-os. Eram três delgadas tiras de papel cheias de emendas e de algumas frases em grandes letras. Sentindo-o longe, os seus auxiliares voltaram a conversar.
— Está com a bicha, disse o Meneses. Ainda não tinhas visto disso, hein Adelermo? Aqui é assim...
— Admira-me que só agora tivesse visto que era porcaria... De manhã, nada disse.
— Não há admirar, fez um outro. A mulher só lhe fala nas coisas do jornal ao jantar, e ele guia-se muito pela opinião dela...
Adelermo acendeu um cigarro, tirou uma fumaça calado; depois, impregnado de tristeza, disse vagarosamente que era triste que os seus trabalhos tivessem que ficar sujeitos ao veredictum de uma menina das irmãs de caridade. Os outros nada lhe disseram e ele acendeu de novo o cigarro, pôs-se a olhar ao longe com tristeza, em seguida essa expressão desfez-se e quando voltou a trabalhar sua fisionomia sorria de orgulho interior. O Oliveira então interveio:
— És injusto com Dona Inês, Adelermo... Não é como tu dizes uma simples menina das irmãs... É uma senhora ilustrada; fala francês, monta a cavalo e... Ainda outro dia, eu vi uma carta dela... Que letra! E que ortografia! Imagina que eram só termos de Medicina... Terapêutica... Psicologia... agapanto... Não é brinquedo! E todos corretos! Eu fui ver no dicionário...
No gabinete, o anafado redator-chefe continuava a escrever, fingindo não dar atenção à conversa. O charuto estava pelo meio e era aspirado com o vigor de uma bomba poderosa. Acabando de escrever, leu o artigo vagarosamente, e ergueu-se e veio ao umbral do tabique:
— Estás zangado com o Ricardo, Adelermo?
— Não, doutor, mas...
— Vocês são assomados... E da idade... Se não se atravessar certas coisas, não se vai mesmo. Olhem: eu, logo ao sair da academia (!), fui trabalhar com meu pai, no Diário Fluminense. Uma noite, escrevi um artigo e julgava-o sofrível. Pois bem: o velho era casmurro, veio até à sala de redação e rasgou-o todinho na minha cara e à vista de uma porção de gente...
Parou de falar, tirou uma fumaça e depois de ter franzido a fisionomia para manter o monóculo no lugar, perguntou vitoriosamente:
— E agora, não estou aqui?
— Eu sei, doutor, falou o Adelermo; mas...
— Vocês não têm outro patrão como o Ricardo, continuou Aires d'Ávila, sem se incomodar com o Adelermo. Vejam ( por aí ele teve um arroto do jantar saboroso). Vejam o que ele fez com o Sanches?! É isso... Há poucos com a sua generosidade e grandeza d'alma... É um fidalgo, um mãos-abertas!
O Oliveira confirmou as asseverações do pachorrento redator, acrescentando:
— E demais vejam quem fala mal dele... São esses ladrões, esses rufiões, gente desmoralizada que quer avançar...
— Eu digo isso sempre dos que o julgam mal, disse alguém. Ainda ontem, conversando com o Andrade, tive ocasião...
— Você se dá com esse Andrade? indagou o Oliveira.
— Dou-me. É um belo rapaz, meio...
— Qual! exclamou Oliveira. É uma besta!
— Não é, Oliveira; é um rapaz que escreve...
— Qual! Eu quero ver esses literatos escreverem duas colunas de incêndio, aqui, no duro... O próprio Rui...
Aires d'Ávila prudentemente interrompeu a critica do Oliveira. Não era tanto em obediência à sua admiração pelo famoso advogado; com certeza era pelo respeito que lhe inspirava a sua posição política. Interrompeu, perguntando:
— Quem é esse Andrade?
A amizade subalterna do Oliveira esperava essa pergunta para explodir em arras de sua dedicação ao doutor Loberant.
— É um moleque ai, uma besta!
O paquiderme colocou o monóculo e disse com toda a gravidade:
(continua...)
BARRETO, Lima. Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1865 . Acesso em: 8 maio 2026.