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#Romances#Literatura Brasileira

O triste fim de Policarpo Quaresma

Por Lima Barreto (1915)

Não há como um cidadão pacato, bem comido, tendo tomado alguns vinhos generosos, para apreciar as narrações de guerra. Ele só vê a parte pitoresca, a parte por assim dizer espiritual das batalhas, dos encontros; os tiros são os de salva e se matam é cousa de somenos. A Morte mesmo, nas narrações feitas assim, perde a sua importância trágica: três mil mortos, só!!! De resto, contadas pelo General Albernaz, que nunca tinha visto a guerra, a cousa ficava edulcorada, uma guerra bibliothèque rose, guerra de estampa popular, em que não aparecem a carniçaria, a brutalidade e a ferocidade normais.

Estavam Ricardo, o Doutor Florêncio, o exato empregado como engenheiro das Águas, aqueles dous recentes conhecimentos de Albernaz, embevecidos, boquiabertos e invejosos diante das proezas imaginárias daqueles três militares, um honorário, talvez o menos pacífico dos três, o único que tivesse mesmo tomado parte em alguma cousa guerreira - quando Dona Maricota chegou sempre diligente, ativa, dando movimento e vida à festa. Era mais moça que o marido, tinha ainda inteiramente pretos os cabelos na sua cabeça pequena, que contrastava tanto com o seu corpo enorme. Ela vinha ofegante e dirigiu-se ao marido:

- Então, Chico, que é isso? Ficou aí e eu que faça sala, que anime as moças... Pra sala todos!

- Já vamos, Dona Maricota, disse alguém.

- Não, fez com rapidez a dona da casa, é já. Vamos, “seu” Caldas, “seu” Ricardo, os senhores!

E foi empurrando um a um pelo ombro.

- Depressa, depressa, que a filha do Lemos vai cantar; e depois é o senhor... Está ouvindo, “seu” Ricardo!

- Pois não, minha senhora. É uma ordem...

E foram. No caminho o general parou um pouco, chegou-se a Coração dos Outros e perguntou: - Diga-me uma cousa: como vai o nosso amigo Quaresma?

- Vai bem.

- Tem-lhe escrito?

- Às vezes. Eu queria, general...

O general suspendeu a cabeça, levantou um pouco o pince-nez que começava a cair, e perguntou:

- O quê?

Ricardo ficou intimidado com o ar marcial com que Albernaz lhe fez a pergunta. Depois de uma ligeira hesitação, respondeu de um jacto, com medo de perder as palavras:

- Eu queria que o senhor me arranjasse uma passagem, um passe, para ir vê-lo.

O general esteve uns instantes de cabeça baixa, coçou o cabelo e disse:

- Isso é difícil, mas você apareça lá, na repartição, amanhã.

E continuaram a andar. Ainda andando, Coração dos Outros acrescentou:

- Estou com saudades dele, depois tenho certos desgostos... O senhor sabe: um homem que tem nome...

- Vá lá amanhã.

Dona Maricota apareceu na frente e falou agastada:

- Vocês não vêm!

- Já vamos, fez o general.

E depois, dirigindo-se a Ricardo, ajuntou:

- Aquele Quaresma podia estar bem, mas foi meter-se com livros... É isto! Eu, há bem quarenta anos, que não pego em livro...

Chegaram à sala. Era vasta. Tinha dous grandes retratos em pesadas molduras douradas, furiosos retratos a óleo de Albernaz e da mulher; um espelho oval e alguns quadrinhos, e a decoração estava completa. Da mobília não se podia julgar, tinha sido retirada, para dar mais espaço aos dançantes. A noiva e o noivo estavam no sofá sentados a presidir a festa. Havia um ou outro decote, poucas casacas, algumas sobrecasacas e muitos fraques. Por entre as cortinas de uma janela, Ricardo pôde ver a rua. A calçada defronte estava cheia. A casa era alta e tinha jardim; só de lá os curiosos, os “serenos”, podiam ver alguma cousa da festa. Lalá, no vão de uma sacada, conversava com o Tenente Fontes. O general contemplou-os e abençoou-os com um olhar aprovador...

A moça, a famosa filha do Lemos, dispôs-se a cantar. Foi ao piano, colocou a partitura e começou. Era uma romanza italiana que ela cantou com a perfeição e o mau gosto de uma moça bemeducada. Acabou. Palmas gerais, mas frias, soaram.

O Doutor Florêncio que ficara atrás do general, comentou:

- Tem uma bela voz esta moça. Quem é?

- É a filha do Lemos, o Doutor Lemos da Higiene, respondeu o general.

- Canta muito bem.

- Está no último ano do Conservatório, observou ainda Albernaz.

Chegou a vez de Ricardo. Ele ocupou um canto da sala, agarrou o vilão, afinou-o, correu a escala; em seguida, tomou o ar trágico de quem vai representar o Édipo-Rei e falou com voz grossa: “Senhoritas, senhores e senhoras.” Parou. Concertou a voz e continuou: “Vou cantar ‘Os teus braços’. Modinha de minha composição, música e versos. É uma composição terna, decente e de uma poesia exaltada.” Seus olhos, por aí, quase saíam das órbitas. Emendou: “Espero que nenhum ruído se ouça, porque senão a inspiração se evola. É o violão instrumento muito... mui... to ‘dê-licá-do’. Bem.”

A atenção era geral. Deu começo. Principiou brando, gemebundo, macio e longo, como soluço de onda; depois, houve uma parte rápida, saltitante, em que o violão estalava. Alternando um andamento e outro, a modinha acabou.

Aquilo tinha ido ao fundo de todos, tinha acudido ao sonho das moças e aos desejos dos homens.

(continua...)

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